Anticoncepcional e Trombose: Quais os Sinais de Alerta
Você começou a tomar (ou está pensando em começar) um anticoncepcional hormonal e já ouviu falar do risco de trombose — seja por uma notícia, por um relato de alguém conhecido, ou pela própria bula do medicamento. É natural ficar com essa pergunta na cabeça: “isso é perigoso? Devo me preocupar?”
A resposta honesta é: o risco existe, é real, mas também é pequeno na grande maioria das mulheres — e, principalmente, é um risco que pode ser melhor avaliado quando se conhece o histórico de saúde individual. Neste artigo, vou explicar por que esse risco existe, quem tem mais chance de ser afetado, e — o ponto mais importante — quais sinais de alerta você deve conhecer para procurar ajuda rapidamente, caso seja necessário.
Por que anticoncepcionais hormonais têm relação com trombose?

Os anticoncepcionais que contêm estrogênio (os chamados “combinados”, que têm estrogênio + progestagênio) atuam, entre outros efeitos, sobre o sistema de coagulação do sangue, aumentando discretamente a tendência à formação de coágulos. Esse é um efeito conhecido e estudado há décadas, e é uma das razões pelas quais nem todas as mulheres podem usar esse tipo de anticoncepcional — é também por isso que a anamnese detalhada antes da prescrição é tão importante.
Anticoncepcionais que contêm apenas progestagênio (sem estrogênio) — como algumas pílulas, o DIU hormonal e alguns implantes — têm um perfil de risco diferente, geralmente associado a um aumento muito menor (ou, em alguns casos, sem aumento significativo) do risco de trombose em comparação aos combinados.
Qual é o risco real? Colocando em perspectiva
É importante contextualizar: a trombose venosa em mulheres jovens, sem fatores de risco adicionais, é um evento raro mesmo sem o uso de anticoncepcionais. O uso de anticoncepcionais combinados aumenta esse risco basal — mas o risco absoluto continua sendo baixo para a maioria das mulheres saudáveis, sem outros fatores de risco.
Para dar uma ideia da magnitude: a gravidez em si já representa um aumento do risco de trombose maior do que o uso da maioria dos anticoncepcionais hormonais. Isso não significa que o risco do anticoncepcional deva ser ignorado — significa que ele deve ser avaliado dentro do contexto de saúde de cada mulher, e não de forma isolada ou alarmista.
Quem tem mais risco: fatores que se somam

O risco de trombose associado ao anticoncepcional não é “fixo” — ele aumenta quando se soma a outros fatores de risco. É exatamente por isso que, antes de prescrever um anticoncepcional combinado, o médico pergunta sobre:
- Histórico pessoal ou familiar de trombose (especialmente em parentes de primeiro grau e em idade jovem)
- Tabagismo — especialmente em mulheres acima de 35 anos, a combinação de tabagismo com anticoncepcional combinado aumenta significativamente o risco, inclusive cardiovascular
- Obesidade
- Varizes significativas ou insuficiência venosa já diagnosticada
- Cirurgias recentes ou planejadas, especialmente as que envolvem imobilização prolongada
- Viagens longas frequentes com imobilidade prolongada
- Enxaqueca com aura — está associada a maior risco de eventos vasculares com uso de estrogênio
- Trombofilias (alterações genéticas da coagulação) — geralmente investigadas quando há histórico familiar relevante
- Idade — o risco basal aumenta gradualmente com a idade
Se você se identifica com um ou mais desses fatores, vale a pena conversar abertamente com o ginecologista sobre eles antes de iniciar (ou ao reavaliar) o uso de um anticoncepcional combinado — não para necessariamente descartar essa opção, mas para que a decisão seja tomada com todas as informações relevantes.
Sinais de alerta: trombose venosa profunda (TVP) nas pernas
Esse é o ponto mais prático deste artigo: quais sinais, se você notar, devem te levar a procurar atendimento médico, independentemente de já estar usando o anticoncepcional há dias, meses ou anos?
- Inchaço em apenas uma perna (assimétrico), que aparece sem explicação clara
- Dor na perna, frequentemente na panturrilha, que pode piorar ao flexionar o pé para cima
- Vermelhidão e calor localizados na perna afetada
- Sensação de “peso” ou “aperto” que não melhora com repouso ou elevação da perna
- Veias superficiais mais salientes e doloridas do que o habitual, em um trajeto específico
Esses sinais podem aparecer a qualquer momento durante o uso do anticoncepcional — não há um “período de maior risco” claramente definido para a maioria das mulheres, embora alguns estudos sugiram que o risco possa ser ligeiramente maior nos primeiros meses de uso de um novo anticoncepcional combinado.
Sinais de alerta: embolia pulmonar
Quando um coágulo formado na perna se desprende e viaja até os pulmões, ocorre a embolia pulmonar — uma emergência médica grave. Os sinais incluem:
- Falta de ar súbita, que pode ser leve ou intensa
- Dor no peito, frequentemente que piora ao respirar profundamente ou tossir
- Tosse, às vezes com presença de sangue
- Frequência cardíaca acelerada
- Sensação de desmaio ou tontura intensa
Se você apresentar qualquer um desses sinais — especialmente em combinação, ou após notar os sinais de TVP descritos anteriormente —, procure atendimento médico de urgência imediatamente. Não é necessário “esperar para ver se passa”.
Sinais de alerta relacionados ao sistema arterial
Embora menos frequentemente discutido, o uso de anticoncepcionais com estrogênio também está associado a um pequeno aumento do risco de eventos arteriais (como AVC e infarto), especialmente em mulheres com outros fatores de risco cardiovascular já presentes (hipertensão não controlada, tabagismo, enxaqueca com aura, diabetes). Os sinais de alerta nesse caso incluem:
- Dor de cabeça súbita e muito intensa, diferente das habituais
- Alterações visuais súbitas (visão turva, perda de visão em parte do campo visual)
- Fraqueza ou dormência súbita em um lado do corpo (rosto, braço ou perna)
- Dificuldade súbita para falar ou compreender
- Dor no peito que pode irradiar para o braço, mandíbula ou costas
Esses sinais, embora muito menos comuns em mulheres jovens sem outros fatores de risco, também exigem atendimento de urgência imediato quando presentes.
“Já uso há anos sem problema — posso parar de me preocupar?”
Essa é uma dúvida frequente. O fato de já usar o anticoncepcional há tempo sem intercorrências é, sim, um dado tranquilizador — mas não significa que o risco caia a zero, nem que mudanças no seu próprio histórico de saúde (novo diagnóstico de hipertensão, início do tabagismo, ganho de peso significativo, diagnóstico de varizes mais significativas) não devam ser reavaliadas junto ao ginecologista. As consultas de rotina são o momento ideal para essa reavaliação periódica.
O que fazer se notar algum sinal de alerta
Se você notar sinais sugestivos de TVP (inchaço assimétrico, dor, vermelhidão em uma perna):
- Procure atendimento médico — pronto-socorro ou avaliação com cirurgião vascular com urgência, dependendo da intensidade dos sintomas
- Não interrompa o anticoncepcional por conta própria antes da avaliação — a decisão sobre continuar ou trocar o método deve ser feita pelo médico, considerando o diagnóstico
- Informe ao profissional que está usando anticoncepcional hormonal, pois essa informação é relevante para a investigação
Se você notar sinais sugestivos de embolia pulmonar ou evento arterial (AVC): procure atendimento de emergência imediatamente — não há tempo a perder nesses casos.
Quando uma avaliação vascular prévia pode ser útil
Embora a maioria das prescrições de anticoncepcionais seja feita com segurança pelo ginecologista com base na anamnese, existem situações em que uma avaliação vascular prévia pode agregar informação útil — por exemplo, mulheres com varizes visíveis significativas, histórico familiar relevante de trombose, ou que já tiveram episódios prévios de flebite (inflamação de veia superficial).
Nesses casos, o cirurgião vascular pode avaliar o sistema venoso com Doppler e, junto ao ginecologista, contribuir para uma decisão mais informada sobre o método contraceptivo mais adequado para aquela mulher especificamente.
Não existe decisão “certa para todas”
É importante encerrar este artigo com uma mensagem central: não existe uma resposta única sobre “anticoncepcional com estrogênio é seguro ou não” — a resposta depende do perfil de risco individual de cada mulher. Para a maioria, o benefício supera amplamente o risco adicional de trombose, que permanece baixo. Para mulheres com fatores de risco adicionais, existem alternativas (métodos sem estrogênio, por exemplo) que podem ser discutidas com o ginecologista.
O que não muda, independentemente do método escolhido, é a importância de conhecer os sinais de alerta descritos neste artigo — porque, embora raros, eles existem, e o reconhecimento precoce faz toda a diferença no desfecho quando ocorrem.
Avaliação vascular prévia ou após sinais de alerta
O Dr. Luís Dotta (CRM 65772/SP – RQE 28296) atende em três unidades em São Paulo, com avaliação clínica e Doppler venoso:
📍 Lapa – WhatsApp 📍 Vila Maria – WhatsApp 📍 Santo Amaro – WhatsApp
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui, em hipótese alguma, a consulta médica presencial, o diagnóstico ou o tratamento profissional. A decisão sobre método contraceptivo deve ser sempre individualizada e discutida com um médico ginecologista. Nunca inicie, altere ou interrompa um tratamento medicamentoso sem orientação médica. Cada paciente é única e os resultados podem variar significativamente. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada da sua condição de saúde.
Dr. Luís Antonio Dotta — CRM-SP 65772 / RQE 28296. Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular.










