Dermatite Ocre DR. Varizes

Dermatite Ocre: por que aparecem manchas escuras nas pernas e o que fazer

Ao longo de mais de trinta anos atendendo pacientes com doenças vasculares em São Paulo, uma das situações que mais me preocupa é quando alguém chega ao consultório com manchas escuras nas pernas e me diz que está esperando há meses para entender o que é. A dermatite ocre é um desses sinais que o corpo manda com antecedência — é um aviso de que a circulação venosa das pernas está comprometida há tempo suficiente para deixar marcas na pele. E quando a pele começa a mudar, o próximo passo pode ser uma ferida que não cicatriza.

Se você tem manchas acastanhadas, avermelhadas ou roxas nas pernas — especialmente próximas ao tornozelo — este artigo vai explicar o que está acontecendo, por que acontece e o que precisa ser feito.


O que é dermatite ocre?

A dermatite ocre é uma alteração da pele causada pelo acúmulo de hemossiderina — uma proteína derivada da degradação da hemoglobina — nos tecidos da derme. Em linguagem mais direta: é quando o sangue vaza dos capilares para dentro da pele e, ao se degradar, deixa um pigmento escuro permanente.

A palavra “ocre” se refere à cor característica dessas manchas: um tom amarronzado, ferrugem, que varia do marrom-amarelado ao roxo-escuro dependendo do estágio e da quantidade de hemossiderina depositada. As manchas aparecem principalmente na região do terço inferior da perna — entre o joelho e o tornozelo — e ao redor do tornozelo, exatamente onde a pressão venosa é maior.

A dermatite ocre não é uma doença isolada — ela é uma consequência da insuficiência venosa crônica não tratada ou subtratada. É um sinal de que as veias das pernas estão falhando há tempo considerável e que o tecido está pagando o preço.


Dermatite Ocre

Por que as manchas escuras aparecem nas pernas?

Para entender a dermatite ocre, preciso explicar o que acontece dentro das veias de quem tem insuficiência venosa crônica.

As veias das pernas possuem válvulas internas que funcionam como comportas: abrem para o sangue subir em direção ao coração e fecham para que ele não desça de volta. Quando essas válvulas enfraquecem — seja por genética, gravidez, obesidade, longos períodos em pé ou sedentarismo — o sangue começa a “refluxar” e se acumular nas veias das pernas. Essa pressão aumentada dentro dos vasos é chamada de hipertensão venosa.

Com a pressão crônica elevada, as paredes dos capilares se tornam mais permeáveis. Glóbulos vermelhos começam a vazar para fora dos vasos e entrar no tecido cutâneo. O sistema imunológico tenta limpar esse extravasamento, decompondo a hemoglobina dos glóbulos vermelhos. O resultado dessa decomposição é a hemossiderina — um pigmento acastanhado de ferro que fica depositado permanentemente na pele.

É exatamente como a ferrugem em metal: o ferro do sangue oxida e deixa a marca. Por isso a mancha tem aquela cor característica de ferrugem ou terra.

Por que as manchas aparecem mais perto do tornozelo?

Pela física da gravidade. A pressão venosa é maior nas partes mais baixas do corpo — e os tornozelos são o ponto de maior pressão hidrostática nas pernas. É onde o sangue refluxado se acumula mais, onde a hipertensão venosa é mais intensa e onde, portanto, o extravasamento de glóbulos vermelhos acontece primeiro e com mais intensidade.


Quais os sintomas da dermatite ocre?

A dermatite ocre se desenvolve de forma gradual — raramente aparece de um dia para o outro. No consultório, costumo ver o seguinte padrão de progressão:

EstágioO que aparece na peleO que o paciente sente
InicialManchas avermelhadas ou roxo-acastanhadas discretas, especialmente ao redor do tornozelo. Pele levemente ressecada na regiãoCoceira local, sensação de queimação, pele “diferente” ao toque. Muitos não percebem ainda
IntermediárioManchas mais extensas, cor marrom-ferrugem evidente, pele começa a engroçar discretamente. Possível descamaçãoCoceira mais frequente, ardência, sensação de peso. Inchaço associado quase sempre presente
Avançado (lipodermatoesclerose)Pele muito endurecida, fibrótica, com manchas escuras extensas. A perna adquire formato de “garrafa invertida” — fina no tornozelo, mais larga acimaDor constante, dificuldade de mobilidade do tornozelo, pele extremamente frágil. Alto risco de úlcera

Outros sinais e sintomas frequentemente associados à dermatite ocre:

  • Varizes visíveis nas pernas (presentes em grande parte dos casos, mas não obrigatoriamente)
  • Inchaço nas pernas, especialmente ao final do dia
  • Dor nas pernas — peso, cansaço, queimação
  • Coceira intensa na área manchada (prurido)
  • Pele ressecada, descamativa ou com pequenas crostas na região afetada
  • Histórico de flebite ou trombose prévia

Dermatite ocre e lipodermatoesclerose: qual a diferença?

Essa é uma distinção importante que faço no consultório com frequência.

A dermatite ocre é a alteração de pigmentação — as manchas escuras causadas pelo depósito de hemossiderina. É o sinal mais precoce de dano cutâneo por insuficiência venosa.

A lipodermatoesclerose é um estágio mais avançado, onde além da pigmentação, ocorre fibrose e endurecimento progressivo do tecido gorduroso subcutâneo e da pele. A inflamação crônica causada pelo extravasamento de sangue e pela hipertensão venosa transforma o tecido em uma espécie de cicatriz endurecida. A perna perde flexibilidade, a pele fica presa ao tecido mais profundo e a circulação local fica ainda mais comprometida.

Na prática clínica, dermatite ocre e lipodermatoesclerose frequentemente coexistem — a lipodermatoesclerose é, em parte, a evolução natural da dermatite ocre não tratada. Ambas sinalizam o mesmo problema de fundo: insuficiência venosa crônica avançada.


Qual o risco de não tratar a dermatite ocre?

Esta é a pergunta mais importante — e a resposta precisa ser direta.

A dermatite ocre é um sinal de alarme de que a pele está em território de risco. A pele pigmentada, endurecida e com microcirculação comprometida tem capacidade muito reduzida de se recuperar de traumas. Qualquer lesão pequena — um arranhão de gato, uma picada de inseto, um impacto leve contra um móvel — pode evoluir para uma úlcera venosa: uma ferida aberta que, diferentemente de um corte comum, não cicatriza sozinha.

As úlceras venosas são crônicas, dolorosas, de difícil tratamento e com alto índice de recidiva. São responsáveis por um impacto enorme na qualidade de vida — dores constantes, curativos frequentes, limitação de atividades. Muitos pacientes convivem com elas por anos.

Outro risco é a erisipela de repetição. A pele comprometida pela dermatite ocre e pela lipodermatoesclerose é uma porta de entrada facilitada para bactérias. A erisipela — infecção bacteriana grave da pele e do tecido subcutâneo — é muito mais frequente em pernas com insuficiência venosa crônica avançada. E cada episódio de erisipela danifica mais o sistema linfático, podendo levar ao linfedema secundário.

Em resumo: dermatite ocre sem tratamento da causa venosa tende a progredir para lipodermatoesclerose, depois úlcera, depois infecções de repetição. O tratamento precoce interrompe esse ciclo.


Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da dermatite ocre é essencialmente clínico — feito pela combinação da aparência característica das manchas, da localização típica (terço inferior da perna e tornozelo) e da história de insuficiência venosa. Um médico experiente reconhece a dermatite ocre no exame físico.

O exame complementar fundamental é o ultrassom com Doppler venoso dos membros inferiores. Ele mapeia o sistema venoso superficial e profundo, identifica onde estão as válvulas incompetentes, quantifica o refluxo e orienta o planejamento do tratamento. Sem o Doppler, tratar a dermatite ocre sem tratar a causa venosa é como pintar sobre mofo — a mancha volta.

Em casos de dúvida diagnóstica — especialmente para diferenciar de outras causas de manchas nas pernas como eczema, vasculite, pigmentação pós-inflamatória ou melanodermia — pode ser necessária avaliação dermatológica complementar, eventualmente com biópsia de pele.

O que diferencia a dermatite ocre de outras manchas nas pernas?

Tipo de manchaLocalização típicaCaracterísticasCausa
Dermatite ocreTornozelo e terço inferior da pernaCor marrom-ferrugem, bilateral, associada a varizes e inchaçoInsuficiência venosa crônica
Hematoma / EquimoseQualquer área, geralmente após traumaRoxa/azulada, muda de cor progressivamente, desaparece em diasTrauma, coagulopatia, medicamentos
Mancha por erisipela préviaQualquer parte da pernaHiperpigmentação pós-inflamatória após infecçãoSequela de erisipela
Vasculite cutâneaPernas, tornozelosManchas palpáveis, púrpura, pode ter úlceras pequenasInflamação vascular autoimune
Eczema de estaseTornozelos, terço inferiorVermelhidão, descamação, coceira intensa — pode coexistir com dermatite ocreInsuficiência venosa + irritação cutânea

Como tratar a dermatite ocre?

O tratamento da dermatite ocre tem dois objetivos distintos que precisam ser perseguidos simultaneamente: controlar os sintomas cutâneos (a coceira, a inflamação local, o ressecamento) e, fundamentalmente, tratar a causa venosa que originou tudo. Focar apenas na pele sem tratar a insuficiência venosa é ineficaz — as manchas tendem a piorar e o risco de úlcera permanece.

1. Tratamento da insuficiência venosa — a base de tudo

Sem controlar a hipertensão venosa, nenhum tratamento da pele é duradouro. As opções para o tratamento venoso dependem da gravidade identificada no Doppler e incluem:

  • Terapia de compressão: meias ou bandagens de compressão gradiente — é a base do tratamento conservador e reduz diretamente a pressão nas veias superficiais
  • Escleroterapia: injeção de substância esclerosante nas veias doentes, obliterando-as
  • Ablação endovenosa a laser ou radiofrequência: fechamento das veias incompetentes por energia térmica, sem necessidade de cirurgia aberta
  • Flebectomia: retirada cirúrgica das varizes, indicada em casos selecionados

A escolha entre essas modalidades é individual — depende da extensão da doença, dos achados no Doppler, das condições clínicas do paciente e da avaliação do cirurgião vascular. Cada caso é planejado de forma personalizada.

Também vale considerar que meias de compressão adequadas fazem parte central do controle diário da pressão venosa, tanto na prevenção quanto no manejo contínuo da dermatite ocre já estabelecida — são um complemento essencial ao tratamento definitivo da causa, não um substituto para ele.

2. Cuidados com a pele afetada

Enquanto o tratamento venoso é conduzido, alguns cuidados com a pele ajudam a controlar os sintomas e reduzir o risco de complicações:

  • Hidratação diária: cremes emolientes sem perfume, aplicados com cuidado na área afetada, reduzem o ressecamento e a descamação — que são portas de entrada para infecções
  • Corticoides tópicos de baixa potência: podem ser prescritos pelo médico para controle da inflamação e da coceira nos períodos de exacerbação. Uso por tempo limitado e sempre com orientação médica
  • Evitar trauma na região: a pele com dermatite ocre é frágil. Cuidado com roupas com elásticos apertados, calçados que roçam no tornozelo, e qualquer situação que possa causar lesão
  • Não coçar: a coceira é intensa, mas o ato de coçar na pele comprometida pode romper a barreira cutânea e iniciar uma úlcera ou uma infecção
  • Proteção solar: a radiação UV pode escurecer ainda mais a pigmentação na área afetada

3. As manchas somem com o tratamento?

Esta é uma das perguntas mais frequentes no consultório — e a resposta honesta é: parcialmente, e com tempo.

A hemossiderina depositada na pele é um pigmento bastante estável. Com o tratamento correto da insuficiência venosa e o controle da hipertensão venosa, a progressão das manchas para — e em alguns casos a pigmentação clareia gradualmente ao longo de meses ou anos. Mas manchas muito antigas e estabelecidas tendem a ser permanentes ou a clarear muito pouco.

O objetivo principal do tratamento não é estético — é prevenir a progressão para lipodermatoesclerose e úlcera venosa. Tratar cedo, mesmo que as manchas não desapareçam completamente, é o que evita complicações graves.


Manchas roxas nas pernas que não são dermatite ocre

Nem toda mancha roxa ou escura na perna é dermatite ocre. É importante não fazer autodiagnóstico — algumas dessas manchas podem ter causas que exigem abordagem muito diferente.

Hematoma e equimose

O hematoma é o acúmulo de sangue fora dos vasos dentro dos tecidos — o que chamamos popularmente de “machucado” ou “roxo”. A equimose é o extravasamento de sangue para a pele sem forma definida, resultando na mancha roxa na pele conhecida como “pisão”. Ambos têm causa diferente da dermatite ocre: geralmente trauma, fragilidade capilar por medicamentos (anticoagulantes, corticoides, AAS) ou distúrbios de coagulação.

A principal diferença prática: o hematoma e a equimose aparecem de forma aguda, mudam de cor ao longo de dias (roxa → verde → amarela) e desaparecem completamente. A dermatite ocre se instala progressivamente, tem cor marrom-ferrugem característica e não desaparece espontaneamente.

Manchas roxas no corpo que surgem espontaneamente

Equimoses que surgem sem trauma aparente — especialmente em pessoas mais velhas ou que usam anticoagulantes — merecem avaliação médica. Podem indicar fragilidade capilar senil (muito comum e benigna), efeito de medicamentos, deficiências vitamínicas (especialmente vitamina C e vitamina K) ou, mais raramente, distúrbios da coagulação que precisam de investigação.

Vasculite cutânea

A vasculite é a inflamação dos próprios vasos sanguíneos, geralmente por causa autoimune. Na pele, pode se manifestar como manchas roxo-avermelhadas palpáveis (púrpura palpável), úlceras, nódulos ou lesões reticuladas. Diferente da dermatite ocre, a vasculite costuma se associar a outros sintomas sistêmicos e requer investigação reumatológica.


Perguntas Frequentes sobre Dermatite Ocre

Dermatite ocre tem cura?

A pigmentação estabelecida pela dermatite ocre é, em grande parte, permanente — o depósito de hemossiderina na pele não se dissolve completamente. No entanto, com o tratamento correto da insuficiência venosa, a progressão para e as manchas podem clarear parcialmente ao longo do tempo. O mais importante é que o tratamento previne as complicações graves: lipodermatoesclerose, úlcera venosa e infecções de repetição.

Dermatite ocre é contagiosa?

Não. A dermatite ocre é uma alteração da pele causada por um processo interno — o extravasamento de sangue decorrente da hipertensão venosa. Não envolve vírus, bactérias ou fungos. Não é transmissível de forma alguma.

Posso usar creme clareador nas manchas da dermatite ocre?

Cremes clareadores convencionais (com hidroquinona, ácido kójico, vitamina C) têm eficácia muito limitada na dermatite ocre porque a pigmentação não é por melanina — é por hemossiderina, um pigmento completamente diferente. Aplicar clareadores sem tratar a causa venosa é ineficaz e pode irritar uma pele já fragilizada. Converse com seu médico antes de usar qualquer produto na área afetada.

A dermatite ocre piora se eu ficar muito tempo em pé?

Sim. Longos períodos em pé ou sentado aumentam a pressão hidrostática nas veias das pernas, piorando o refluxo venoso e o extravasamento de sangue para os tecidos. Ao longo do tempo, isso acelera a progressão das manchas e da lipodermatoesclerose. Quem tem trabalho que exige longos períodos em pé deve priorizar o uso de meias de compressão durante a jornada de trabalho e fazer pausas regulares para movimentar as pernas.

Qual médico tratar a dermatite ocre?

O cirurgião vascular e angiologista é o especialista mais indicado — pois a dermatite ocre é uma consequência da insuficiência venosa crônica, que é a área de atuação central desse especialista. O vascular solicita e interpreta o Doppler venoso, trata as varizes e a insuficiência venosa subjacente, e prescreve a compressão adequada. Em casos com inflamação ativa ou eczema intenso, pode ser necessária avaliação dermatológica complementar para o manejo da pele.

Dermatite ocre aparece sem ter varizes?

É incomum, mas pode acontecer. As varizes são a manifestação mais visível da insuficiência venosa, mas a doença venosa pode existir em veias profundas sem que varizes superficiais apareçam — especialmente após trombose venosa profunda prévia, que pode danificar as válvulas das veias profundas (síndrome pós-trombótica). Portanto, ausência de varizes visíveis não exclui insuficiência venosa. O Doppler é o exame que determina com precisão o que está acontecendo no sistema venoso.

A coceira da dermatite ocre tem tratamento?

Sim. O prurido (coceira) da dermatite ocre tem duas origens: a inflamação local do tecido e o ressecamento da pele afetada. O tratamento inclui hidratação diária com emolientes sem perfume, corticoides tópicos de baixa potência nos períodos de exacerbação (sob orientação médica), e — fundamentalmente — o controle da insuficiência venosa, que reduz a inflamação local ao diminuir a hipertensão venosa. Anti-histamínicos orais podem ajudar no alívio sintomático, mas não tratam a causa.


🩺 Com Dermatite ocre ? Agende avaliação com o Dr. Luís Dotta

Cirurgião vascular e angiologista com mais de 30 anos de experiência em São Paulo. Especialista no tratamento de úlceras venosas, insuficiência venosa crônica, varizes e doenças vasculares. Doppler vascular disponível nas três unidades para avaliação e mapeamento completo do sistema venoso.


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⚖️ Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui, em hipótese alguma, a consulta médica presencial, o diagnóstico ou o tratamento profissional. Cada paciente é único e os resultados de tratamentos podem variar significativamente de acordo com a condição clínica, resposta individual ao tratamento e adesão às orientações médicas. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada da sua condição de saúde.

Dr. Luís Antonio Dotta | CRM 65772/SP | RQE 28296 | Especialista em Angiologia, Cirurgia Vascular e Cirurgia Cardiovascular
Publicado em Abril de 2026 · Última revisão: Abril de 2026 · doutorvarizes.com.br

Por Que a Dermatite Ocre é (Quase Sempre) Permanente

Uma dúvida frequente no consultório é entender por que a dermatite ocre demora tanto tempo para se instalar — geralmente anos de insuficiência venosa não tratada — e por que, uma vez presente, ela não desaparece completamente mesmo com o tratamento adequado da causa venosa.

O processo biológico por trás da pigmentação permanente

Quando a hemossiderina se deposita nos tecidos ao longo de anos de insuficiência venosa crônica não controlada, ela se instala em uma camada relativamente profunda da pele — na derme, não na epiderme superficial. Diferente de manchas superficiais que podem clarear com renovação celular normal da pele, a hemossiderina depositada na derme tende a permanecer por muito tempo, mesmo após a causa (refluxo nas veias) ser corrigida.

Por que tratar cedo faz tanta diferença

Esse é o argumento mais forte que uso no consultório para convencer pacientes a não adiarem o tratamento das varizes quando ainda estão em estágios iniciais. Quanto mais cedo o refluxo venoso é corrigido — antes que anos de extravasamento de hemácias depositem grandes quantidades de hemossiderina na pele — menor a extensão e a intensidade da pigmentação que se instala permanentemente. Pacientes que tratam a insuficiência venosa em estágio C2 ou C3 praticamente nunca desenvolvem dermatite ocre significativa; já pacientes que chegam ao estágio C4 sem tratamento prévio quase sempre têm algum grau de pigmentação já estabelecida.

Dermatite Ocre e Suas Condições Associadas

A dermatite ocre não é um problema isolado — ela é um marcador visual de um espectro mais amplo de complicações da insuficiência venosa crônica, e frequentemente aparece acompanhada de outras alterações que merecem atenção conjunta.

Dermatite ocre e inchaço nas pernas

É comum que a mesma pressão venosa elevada que causa a pigmentação também provoque inchaço nas pernas — o edema costuma piorar ao longo do dia e melhorar parcialmente com a perna elevada. Quando os dois sinais aparecem juntos, reforçam a suspeita de insuficiência venosa em estágio mais avançado, geralmente C3 ou superior na classificação CEAP.

Dermatite ocre e coceira

A coceira nas pernas é uma queixa extremamente comum em quem tem dermatite ocre — a pele afetada fica mais seca, mais frágil e mais propensa a irritação, o que explica o prurido persistente relatado por boa parte dos pacientes.

Dermatite ocre e risco de úlcera venosa

O sinal mais preocupante da progressão é o risco de evolução para úlcera venosa — uma ferida que, em muitos casos, se instala exatamente na área de pele já fragilizada pela dermatite ocre e pela lipodermatoesclerose associada. É por isso que a presença de dermatite ocre, mesmo sem ferida ativa, já justifica investigação e tratamento vascular ativo, não apenas observação.

Diferenciando a Dermatite Ocre de Outras Condições de Pele

Diferenciar corretamente a dermatite ocre de outras causas de manchas nas pernas é essencial — e algumas confusões são especialmente frequentes no consultório.

Dermatite ocre x erisipela

A erisipela é uma infecção bacteriana da pele que causa vermelhidão intensa, calor e dor — diferente da coloração acastanhada e geralmente indolor da dermatite ocre. No entanto, pacientes com dermatite ocre têm maior risco de desenvolver erisipela, já que a pele fragilizada oferece menos barreira contra infecções bacterianas — mais uma razão para tratar a insuficiência venosa de base.

Dermatite ocre x manchas de má circulação em geral

Existem diversos tipos de manchas nas pernas relacionadas à má circulação, e a dermatite ocre é apenas uma delas, embora seja a mais associada especificamente à insuficiência venosa crônica de longa data. Diferenciar corretamente o tipo de mancha orienta diretamente qual investigação e tratamento fazem sentido para cada caso.

Quando a queimação acompanha as manchas

Alguns pacientes com dermatite ocre relatam sensação de queimação nas pernas na área afetada, especialmente ao final do dia. Esse sintoma reforça a natureza inflamatória crônica do processo e costuma melhorar com o tratamento adequado da insuficiência venosa de base, combinado aos cuidados locais com a pele.

Opções Modernas de Tratamento da Causa Venosa

O tratamento moderno da insuficiência venosa — causa raiz da dermatite ocre — conta com opções minimamente invasivas que reduzem significativamente o desconforto e o tempo de recuperação em comparação às técnicas mais antigas.

Laser endovenoso e radiofrequência

O laser endovenoso é uma das técnicas mais utilizadas atualmente para fechar a veia com refluxo responsável pela hipertensão venosa que originou a dermatite ocre — um procedimento ambulatorial, com recuperação rápida, que interrompe o mecanismo que mantém a pigmentação ativa e progressiva.

Escleroterapia complementar

Para veias de menor calibre associadas ao quadro, a escleroterapia pode complementar o tratamento principal, ajudando a tratar componentes adicionais do sistema venoso superficial que contribuem para a hipertensão local.

O papel do Doppler antes de qualquer decisão

Antes de definir a técnica de tratamento, o Doppler vascular mapeia com precisão quais veias e segmentos específicos estão com refluxo, permitindo um plano de tratamento direcionado exatamente à causa da dermatite ocre daquele paciente, em vez de uma abordagem genérica.

Considerações Finais sobre a Dermatite Ocre

Encerro este artigo com uma reflexão que costumo compartilhar com pacientes que chegam preocupados com as manchas escuras nas pernas: a dermatite ocre é, acima de tudo, um sinal — uma mensagem visível de que o sistema venoso está sob pressão elevada há tempo suficiente para deixar essa marca na pele.

Tratar apenas a aparência da mancha, sem investigar e corrigir a causa venosa de base, é abordar apenas o sintoma visível — não o problema real. Se você tem manchas acastanhadas persistentes próximas ao tornozelo, especialmente acompanhadas de dor nas pernas, veias visíveis ou sensação de peso ao final do dia, vale muito a pena buscar avaliação com um cirurgião vascular para investigar a causa e iniciar o tratamento adequado antes que a pigmentação se torne mais extensa e o risco de complicações — como a úlcera varicosa — aumente.

Dermatite Ocre em Pacientes com Histórico de Trombose

Um aspecto pouco discutido, mas relevante, é a relação entre a dermatite ocre e o histórico de trombose venosa profunda prévia. Pacientes que já tiveram trombose têm risco aumentado de desenvolver insuficiência venosa secundária — a chamada síndrome pós-trombótica — que frequentemente se manifesta com dermatite ocre mais precoce e mais extensa do que a insuficiência venosa primária (sem histórico de trombose).

Por que esse histórico muda a investigação

Quando há histórico de trombose, o Doppler venoso precisa avaliar não apenas o sistema superficial (onde geralmente atuamos com laser ou escleroterapia), mas também o sistema venoso profundo, que pode ter sequelas obstrutivas da trombose antiga. Esse componente obstrutivo profundo muda a estratégia terapêutica e reforça a importância de contar o histórico completo de saúde vascular ao médico durante a consulta, mesmo que a trombose tenha ocorrido há muitos anos.