Úlcera Varicosa: Ferida na Perna que Não Cicatriza — Causas e Tratamento
Uma ferida aberta na perna que não fecha há semanas, meses ou até anos. Às vezes menor, às vezes extensa. Às vezes dolorosa, às vezes quase sem dor. Com odor, com secreção, com a pele ao redor escura e endurecida. Esse é o quadro da úlcera varicosa — a complicação mais grave da insuficiência venosa crônica e uma das condições que mais impactam a qualidade de vida de quem a tem.
Se você ou alguém da sua família convive com uma ferida na perna que não cicatriza, este artigo foi escrito para explicar por que isso acontece, o que está por trás dessa dificuldade de cicatrização e quais são as opções de tratamento que realmente funcionam.
O que é a úlcera varicosa?

A úlcera varicosa — também chamada de úlcera venosa, úlcera de estase ou úlcera varicosa — é uma ferida crônica que se desenvolve na pele da perna como consequência de insuficiência venosa crônica avançada. É a manifestação mais grave da doença venosa, correspondendo ao grau C6 na classificação CEAP (úlcera ativa) ou C5 (úlcera cicatrizada).
Diferentemente de um corte ou arranhão que cicatriza normalmente em dias, a úlcera varicosa tem dificuldade de fechar porque sua causa de base — a hipertensão venosa crônica — não é eliminada apenas com curativo. Enquanto o sangue continuar acumulando nas veias com refluxo, a pressão continuará comprometendo os tecidos ao redor, e a ferida ficará aberta.
Por que a úlcera varicosa se forma?
Para entender a úlcera varicosa, precisamos entender a cadeia de eventos que leva até ela:
- Insuficiência venosa crônica: as válvulas das veias da perna perdem eficiência, o sangue acumula (estase venosa) e a pressão dentro das veias aumenta progressivamente — a hipertensão venosa crônica
- Alterações na microcirculação: a pressão elevada nas veias se transmite para os capilares e pequenos vasos da pele, prejudicando a troca de oxigênio e nutrientes entre o sangue e os tecidos
- Inflamação crônica: leucócitos (células de defesa) ficam presos na microcirculação sob alta pressão, liberando enzimas inflamatórias que danificam progressivamente os tecidos
- Alterações da pele: a pele fica progressivamente mais frágil, escurecida (dermatite ocre), endurecida (lipodermatoesclerose) e predisposta a pequenas lesões
- Úlcera: qualquer trauma mínimo — ou mesmo espontaneamente — leva ao surgimento de uma ferida que não consegue cicatrizar porque o ambiente tecidual está permanentemente comprometido pela hipertensão venosa
Como é a úlcera varicosa: características típicas

Reconhecer as características típicas da úlcera varicosa ajuda a diferenciar de outras úlceras que também ocorrem nas pernas (arterial, diabética, hipertensiva):
- Localização: preferencialmente no terço inferior da perna, ao redor do tornozelo — especialmente na região maleolar medial (tornozelo interno), onde a pressão venosa é máxima
- Tamanho: variável — pode ser pequena (1-2 cm) ou muito extensa, chegando a cobrir toda a circunferência do tornozelo
- Bordas: irregulares, planas, sem solevamento
- Fundo: geralmente com tecido de granulação róseo-avermelhado nas fases de cicatrização, ou com tecido fibrinoso amarelado quando estagnada
- Pele ao redor: tipicamente com dermatite ocre (pigmentação acastanhada), endurecimento (lipodermatoesclerose), vasinhos (corona phlebectatica) e edema
- Dor: variável — muitas úlceras venosas são surpreendentemente pouco dolorosas; quando há dor intensa, pode indicar infecção ou componente arterial associado
- Secreção: geralmente há secreção serosa a serossanguinolenta; secreção purulenta indica infecção
Úlcera varicosa x úlcera arterial x úlcera diabética
Essa diferenciação é fundamental porque o tratamento é completamente diferente:
- Úlcera venosa (varicosa): terço inferior da perna/tornozelo medial, bordas irregulares planas, pouco dolorosa, melhora com elevação das pernas, associada a sinais de insuficiência venosa
- Úlcera arterial: extremidades distais (dedos, calcâneos), bordas bem definidas e “secas”, muito dolorosa especialmente à noite, piora com elevação das pernas, pulsos diminuídos
- Úlcera diabética (neuropática): pontos de pressão na planta do pé, geralmente sem dor (pela neuropatia), fundo profundo (“em saca-bocado”), associada a calosidades
É importante saber que úlceras mistas — com componente venoso E arterial — existem e são mais complicadas de tratar. O Doppler arterial e venoso é fundamental para identificar todos os componentes antes do tratamento.
Fatores que dificultam a cicatrização
Além da causa venosa de base, vários fatores podem dificultar ainda mais a cicatrização da úlcera:
- Infecção: qualquer úlcera crônica tem colonização bacteriana, mas infecção com sinais clínicos (vermelhidão em expansão, secreção purulenta, febre, odor intenso) compromete a cicatrização e requer tratamento específico
- Diabetes: altera a função imune e compromete a microcirculação
- Desnutrição: deficiência proteica e de micronutrientes prejudica todos os mecanismos de reparo tecidual
- Anemia: reduz o aporte de oxigênio aos tecidos em cicatrização
- Edema não controlado: o inchaço persistente mantém os tecidos sob pressão, impedindo a cicatrização
- Idade avançada: os mecanismos de cicatrização ficam mais lentos com a idade
- Imobilidade: a falta de atividade elimina a ação da bomba muscular da panturrilha
- Uso inadequado de curativos: curativos agressivos que traumatizam o leito da ferida a cada troca
O diagnóstico correto: além do curativo
Um erro muito comum — e que perpetua o sofrimento de muitos pacientes por anos — é tratar a úlcera varicosa apenas com curativos, sem investigar e tratar a causa venosa de base. A úlcera pode até melhorar temporariamente, mas vai recidivar enquanto a insuficiência venosa não for corrigida.
O diagnóstico completo envolve:
- Avaliação clínica detalhada da ferida (localização, tamanho, características), dos sinais de insuficiência venosa e do histórico do paciente
- Doppler venoso: identifica as veias com refluxo que são a causa da hipertensão venosa — fundamental para o planejamento do tratamento definitivo
- Doppler arterial / ITB: descarta componente arterial e contraindica o uso de compressão forte quando há isquemia associada
- Avaliação da ferida: tamanho, profundidade, características do leito, sinais de infecção
- Swab/cultura: quando há sinais de infecção, para orientar o antibiótico
Tratamento da úlcera varicosa: os três pilares
Pilar 1: Compressão
A compressão elástica é o tratamento mais importante para a úlcera varicosa — e provavelmente o mais subutilizado, especialmente pela dificuldade de aceitação pelos pacientes. A compressão reduz a hipertensão venosa, melhora o retorno venoso e cria as condições fisiológicas necessárias para a cicatrização.
As opções incluem:
- Bota de Unna: um curativo especial com pasta de zinco e bandagem inelástica, trocado semanalmente — muito eficaz para úlceras com grande edema
- Bandagens elásticas de alta compressão (sistema de 4 camadas): padrão internacional para úlceras venosas
- Meias de compressão: após a cicatrização, para prevenção de recidiva
Um ponto crítico: a compressão forte está contraindicada quando há componente arterial significativo (ITB abaixo de 0,6). Por isso o Doppler arterial é obrigatório antes de iniciar compressão.
Pilar 2: Cuidados com o leito da ferida
O curativo ideal para úlcera varicosa deve:
- Manter o leito úmido (ambiente úmido favorece a cicatrização)
- Absorver o excesso de secreção sem desidratar o leito
- Não aderir à ferida (curativos que arranham o tecido ao ser removidos destroem o tecido novo)
- Tratar a infecção quando presente
Os curativos modernos (hidrocoloides, alginatos, espumas de poliuretano, produtos com prata para infecção) são muito superiores às gazes tradicionais para esse objetivo. A escolha depende das características da ferida em cada fase.
Pilar 3: Tratamento da causa venosa de base
Este é o pilar mais negligenciado — e o mais importante para evitar recidiva. Uma vez que a úlcera cicatriza (ou mesmo durante o processo de cicatrização, quando tecnicamente possível), tratar a veia com refluxo que é a causa da hipertensão venosa é fundamental:
- Escleroterapia com espuma ecoguiada: pode ser realizada com a úlcera ainda aberta em muitos casos, acelerando a cicatrização
- Laser endovenoso ou radiofrequência: para safenas com refluxo, podem ser realizados antes ou após a cicatrização
- Cirurgia de varizes: em casos selecionados com varizes extensas
Estudos mostram que tratar a veia com refluxo durante ou logo após a cicatrização reduz significativamente a taxa de recidiva da úlcera.
Quanto tempo leva para cicatrizar uma úlcera varicosa?
Com tratamento adequado — compressão + curativo correto + tratamento da causa venosa —, a maioria das úlceras varicosas cicatriza em 12 a 24 semanas. Úlceras de longa data, muito extensas ou com fatores complicadores (infecção, diabetes) podem levar mais tempo ou requerer abordagens adicionais.
Úlceras que não mostram sinais de melhora em 4 a 6 semanas de tratamento adequado merecem reavaliação — seja da adesão à compressão, da presença de componente arterial não identificado, de infecção ou de outras causas de úlcera.
Prevenção da recidiva: a batalha após a cicatrização
A úlcera varicosa tem alta taxa de recidiva quando a causa de base não é tratada — estudos mostram recidiva em até 70% dos casos sem tratamento definitivo da insuficiência venosa. As medidas preventivas incluem:
- Uso contínuo de meia de compressão (especialmente durante o dia, enquanto em pé)
- Tratamento definitivo da veia com refluxo (laser, escleroterapia, cirurgia)
- Monitoramento regular com o cirurgião vascular
- Manter-se ativo (atividade física ativa a bomba muscular da panturrilha)
- Elevar as pernas ao repouso
- Controle do edema
Impacto na qualidade de vida
Conviver com uma úlcera varicosa afeta profundamente a qualidade de vida: dor, restrição de mobilidade, necessidade de trocas frequentes de curativo, limitação das atividades sociais e profissionais, impacto psicológico e financeiro. Por isso, o tratamento precoce e completo — não apenas do sintoma, mas da causa — é a abordagem mais humana e eficaz.
Na minha experiência clínica, o que mais ouço de pacientes que finalmente tiveram a causa venosa tratada (e não apenas o curativo trocado por anos) é: “doutor, por que ninguém falou isso antes?” Não é uma crítica aos outros profissionais — é um reflexo de quanto a úlcera varicosa ainda é subestimada como doença vascular, e não apenas “uma ferida”.
Tratamento completo da úlcera varicosa em SP
O Dr. Luís Dotta (CRM 65772/SP – RQE 28296) avalia e trata úlceras varicosas com Doppler e intervenção na causa venosa em três unidades:
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Perguntas Frequentes
Úlcera varicosa pode matar?
A úlcera varicosa em si raramente é fatal, mas complicações graves como infecção profunda (celulite, fasciíte) e, muito raramente, transformação maligna (úlcera de Marjolin) em lesões de longa data podem ser sérias. O tratamento precoce evita essas complicações.
Por que a ferida na perna não cicatriza?
Porque a causa de base — a hipertensão venosa crônica — continua comprometendo os tecidos. Tratar apenas a ferida sem corrigir o refluxo venoso é como tratar o sintoma sem eliminar a causa.
Qual o melhor curativo para úlcera varicosa?
Não existe “o melhor” universal — a escolha depende das características da ferida (seca, exsudativa, infectada). Curativos modernos (hidrocoloides, espumas, alginatos) são superiores às gazes simples. O mais importante é a compressão associada.
Compressão é obrigatória no tratamento da úlcera varicosa?
Sim — é o pilar mais importante. Sem compressão adequada, a cicatrização é muito mais lenta e incompleta, pois a hipertensão venosa não é reduzida.
Úlcera varicosa e úlcera diabética são a mesma coisa?
Não. Têm causas, localizações e características diferentes. A úlcera varicosa é causada por insuficiência venosa; a diabética por neuropatia e/ou isquemia arterial. O tratamento é diferente.
Quanto tempo leva para cicatrizar?
Com tratamento adequado, a maioria cicatriza em 12 a 24 semanas. Casos mais complexos podem levar mais tempo.
Úlcera varicosa pode voltar após cicatrizar?
Sim — tem alta taxa de recidiva se a causa venosa de base não for tratada. Tratar a veia com refluxo e usar meia de compressão são as principais medidas preventivas.
Qual médico trata úlcera varicosa?
O cirurgião vascular é o especialista principal — trata a causa venosa de base. O cuidado da ferida pode envolver enfermeiros especializados em curativos complexos.
A úlcera varicosa dói muito?
É variável — muitas são surpreendentemente pouco dolorosas. Dor intensa pode indicar infecção ou componente arterial associado, e deve ser avaliada.
Tratar as varizes ajuda a cicatrizar a úlcera?
Sim — estudos mostram que tratar a veia com refluxo durante ou logo após a cicatrização acelera o processo e reduz significativamente a recidiva.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui a consulta médica presencial. Cada paciente é único. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada.
Dr. Luís Antonio Dotta — CRM-SP 65772 / RQE 28296. Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular.









