Pereba nas Pernas: O Que É, Causas e Tratamento
“Pereba” é um termo popular bastante usado no Brasil para descrever diferentes tipos de lesões na pele das pernas — pode ser uma crosta que se forma após um machucado, uma ferida que não cicatrizou direito, ou mesmo uma lesão crônica associada a problemas circulatórios. Em muitos casos, o que as pessoas chamam de “pereba na perna” é, na verdade, o resultado visível de uma condição vascular subjacente que precisa ser identificada e tratada.
Neste artigo vou explicar o que pode ser chamado de “pereba” nas pernas do ponto de vista médico, quais as causas mais comuns, quando uma lesão na perna merece avaliação vascular e o que o tratamento envolve.
O que é uma “pereba”?

Do ponto de vista clínico, o termo popular “pereba” geralmente se refere a uma crosta, escara ou lesão superficial da pele. Pode ser:
- A crosta que se forma naturalmente sobre uma ferida em cicatrização (crosta de fibrina)
- Uma lesão crônica que teima em não cicatrizar completamente
- Uma área de pele espessada, ressecada e descamativa que parece uma “casca”
- O resíduo de uma ferida mais profunda que cicatrizou de forma incompleta
Na linguagem médica, dependendo das características específicas, pode corresponder a uma crosta, escara, erosão, úlcera superficial, dermatite ou outras lesões elementares da pele. A localização na perna — especialmente no terço inferior e ao redor do tornozelo — imediatamente levanta a hipótese de causa vascular, já que essa é a região onde a insuficiência venosa crônica se manifesta com mais frequência.
Causas mais comuns de pereba nas pernas
Trauma e lesões superficiais

A causa mais simples e frequente: um machucado, arranhão, queda ou pancada que resulta numa ferida que, ao cicatrizar, forma uma crosta (pereba). Em pessoas sem problema circulatório, essa crosta se forma normalmente e cai sozinha em dias a semanas, deixando a pele cicatrizada por baixo.
O problema começa quando essa crosta demora mais do que o esperado para cair, recidiva no mesmo local, ou quando a ferida por baixo não está cicatrizando adequadamente — sinais que podem indicar comprometimento circulatório subjacente.
Insuficiência venosa crônica
A insuficiência venosa crônica é a causa vascular mais frequente de lesões persistentes nas pernas. Quando as válvulas das veias falham e o sangue acumula, a pressão elevada nas veias compromete progressivamente a pele ao redor do tornozelo — que fica mais frágil, mais escura (dermatite ocre) e mais propensa a se lesar com qualquer trauma mínimo.
Nesses pacientes, o que começa como uma pequena “pereba” após um machucado banal pode evoluir para uma úlcera venosa que demora meses a cicatrizar — simplesmente porque a causa de base (a hipertensão venosa) nunca foi corrigida. A ferida fecha temporariamente, mas reabre facilmente ao menor trauma.
Dermatite de estase (eczema venoso)
A dermatite de estase é uma inflamação da pele causada pelo acúmulo de sangue nas veias (estase venosa). Causa vermelhidão, coceira intensa, descamação e ressecamento da pele ao redor do tornozelo. A coceira leva ao ato de coçar, que traumatiza a pele já fragilizada e forma lesões (perebas) que sangram e formam crostas repetidamente. É um ciclo vicioso: a dermatite fragiliza a pele, a coceira cria feridas, as feridas formam crostas, as crostas coçam e assim por diante.
Dermatite ocre
A dermatite ocre é o depósito de pigmento de hemossiderina (ferro proveniente do sangue extravasado) na pele ao redor do tornozelo, causando manchas escurecidas e endurecimento da pele. Nessa pele endurecida e pouco elástica, qualquer trauma — mesmo mínimo — pode resultar em lesões difíceis de cicatrizar, que as pessoas descrevem como “perebas que nunca saem”.
Doença arterial periférica
Quando a circulação arterial para as extremidades está comprometida, a pele dos pés e tornozelos fica mal nutrida. Qualquer pequena lesão — uma bolha de sapato, uma cutícula mal cortada, um caroço de meião — pode se tornar uma ferida difícil de cicatrizar por falta de fluxo sanguíneo adequado. Essas lesões têm aspecto seco, com bordas bem definidas, e são frequentemente muito dolorosas — diferente das lesões venosas, que costumam ser pouco dolorosas.
Diabetes e pé diabético
No diabético, a combinação de neuropatia (que elimina a dor de aviso) e doença arterial periférica (que reduz o fluxo) cria o cenário perfeito para lesões que evoluem sem que a pessoa perceba. O que começa como uma pequena “pereba” na planta do pé — muitas vezes sob uma calosidade — pode se aprofundar rapidamente até atingir tendões e ossos. Por isso, qualquer lesão nas pernas e pés de diabéticos deve ser avaliada com urgência.
Erisipela e infecções de pele
A erisipela — infecção bacteriana da pele — pode deixar como sequela áreas de pele com alteração de pigmentação e textura. Em pessoas com insuficiência venosa ou linfedema, episódios repetidos de erisipela danificam progressivamente a pele, tornando-a mais propensa a novas lesões e “perebas” que não cicatrizam.
Lipodermatoesclerose
É o endurecimento e fibrose da pele e do tecido subcutâneo ao redor do tornozelo, causado pela insuficiência venosa crônica de longa data. A pele fica muito espessa, dura, retraída e escurecida — dando à perna um aspecto de “garrafa invertida”. Nessa pele fibrótica, lesões demoram muito a cicatrizar e as “perebas” persistem por muito tempo.
Quando a pereba nas pernas é um sinal de alerta vascular
Alguns padrões devem levar à busca de avaliação médica vascular:
- Lesão que não cicatriza em mais de 4 semanas com cuidados básicos
- Lesão que reabre no mesmo local repetidamente, mesmo após aparente cicatrização
- Pele ao redor com escurecimento (cor de café com leite a marrom escuro) ou endurecimento
- Inchaço persistente na perna afetada, especialmente se piora ao longo do dia
- Varizes visíveis na mesma perna onde aparecem as lesões
- Ferida nos pés em pessoa diabética — qualquer ferida, por menor que seja
- Lesão muito dolorosa, especialmente se a perna fica fria e o pulso no pé é fraco
- Ferida com secreção, mau odor ou vermelhidão em expansão ao redor — sinais de infecção
O que NÃO fazer com uma pereba na perna
Alguns hábitos comuns podem piorar o quadro:
- Arrancar a crosta: a crosta (pereba) protege o tecido em cicatrização por baixo — arrancá-la traumatiza o leito da ferida e atrasa a cicatrização
- Usar álcool ou água oxigenada: são irritantes para o tecido de cicatrização e atrasam o processo
- Automedicar com pomadas antibióticas sem indicação: o uso indiscriminado pode levar à resistência bacteriana
- Ignorar sinais de infecção: vermelhidão que se expande, febre ou secreção purulenta exigem avaliação médica
- Usar ataduras apertadas sem orientação: compressão inadequada pode piorar a circulação arterial
Cuidados básicos com lesões superficiais nas pernas
Para lesões superficiais sem sinais de alerta, alguns cuidados gerais são adequados enquanto se aguarda a cicatrização:
- Lavar com água e sabão neutro
- Cobrir com curativo simples não aderente (não usa gaze seca diretamente sobre a ferida)
- Manter a área limpa e protegida de novos traumas
- Elevar a perna para reduzir o inchaço quando presente
- Hidratação da pele ao redor com creme adequado (evitando aplicar dentro da ferida)
Diagnóstico vascular das lesões persistentes
Quando a lesão não segue o curso esperado de cicatrização, a avaliação médica inclui:
- Exame clínico detalhado: características da lesão, pele ao redor, pulsos, presença de varizes e sinais de insuficiência venosa
- Doppler venoso: identifica insuficiência venosa e refluxo como causa
- Doppler arterial e ITB: avalia circulação arterial e descarta isquemia como fator complicador
- Avaliação glicêmica: rastreamento de diabetes em casos suspeitos
- Cultura de secreção: quando há sinais de infecção
Tratamento: vai além do curativo
O tratamento da “pereba que não sai” depende fundamentalmente da causa identificada:
- Insuficiência venosa: compressão elástica adequada + curativo apropriado + tratamento da veia com refluxo (escleroterapia, laser, cirurgia)
- Doença arterial periférica: avaliação de revascularização, proteção das extremidades, controle dos fatores de risco
- Diabetes: controle glicêmico, alívio de pressão (palmilhas, calçados), avaliação vascular
- Dermatite de estase: corticoides tópicos de baixa potência por tempo limitado + compressão + tratamento da causa venosa
- Lipodermatoesclerose: compressão intensa + tratamento da insuficiência venosa de base
O ponto central é sempre o mesmo: identificar e tratar a causa de fundo. Mudar o curativo sem tratar a causa é como tentar secar o chão com o torneira aberta.
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O Dr. Luís Dotta (CRM 65772/SP – RQE 28296) avalia lesões vasculares nas pernas com Doppler e trata a causa de base em três unidades em São Paulo:
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Perguntas Frequentes
O que é pereba na perna?
É um termo popular para crosta, lesão superficial ou ferida que se forma nas pernas após um trauma ou como manifestação de uma condição de pele ou vascular. Pode ser benigna e transitória, ou indicar um problema circulatório subjacente.
Pereba que não sai pode ser problema de circulação?
Sim — especialmente quando aparece ao redor do tornozelo, junto com pele escurecida, inchaço e varizes. Nesses casos, a insuficiência venosa crônica compromete a capacidade da pele de cicatrizar normalmente.
Devo arrancar a pereba da perna?
Não. A crosta protege o tecido em cicatrização por baixo. Arrancá-la traumatiza o leito da ferida e atrasa a cicatrização — e pode introduzir infecção.
Qual médico trata pereba na perna que não cicatriza?
Quando há suspeita de causa vascular, o cirurgião vascular é o especialista indicado. O dermatologista avalia causas dermatológicas primárias. Em diabéticos, a equipe multidisciplinar (vascular, endocrinologista, podologista) é o ideal.
Pereba na perna de diabético é grave?
Merece atenção imediata. Diabéticos têm menor capacidade de cicatrização e maior risco de infecção. Qualquer lesão nos pés e pernas de diabéticos deve ser avaliada com urgência para evitar progressão para infecção grave ou amputação.
Álcool resolve pereba na perna?
Não — álcool é irritante para o tecido de cicatrização e pode retardar o processo. O ideal é lavagem com água e sabão neutro e cobertura com curativo não aderente.
Pereba na perna com pus é emergência?
Secreção purulenta, vermelhidão que se expande ao redor da lesão e febre são sinais de infecção que merecem avaliação médica com urgência — e podem requerer antibiótico e curativo especializado.
Pereba na perna pode virar úlcera?
Sim, especialmente em pessoas com insuficiência venosa crônica. O que começa como uma pequena lesão superficial pode evoluir para uma úlcera venosa crônica se a causa circulatória não for tratada.
Como evitar perebas nas pernas?
Proteger as pernas de traumas, hidratar a pele regularmente, usar calçados adequados, tratar varizes quando presentes e controlar o diabetes são as principais medidas preventivas.
Pereba na perna perto do tornozelo tem causa vascular?
Frequentemente sim. O tornozelo é a região onde a pressão venosa é mais alta e onde a insuficiência venosa se manifesta com mais intensidade. Qualquer lesão persistente nessa região merece avaliação vascular.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui a consulta médica presencial. Cada paciente é único. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada da sua condição de saúde.
Dr. Luís Antonio Dotta — CRM-SP 65772 / RQE 28296. Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular.









