Úlceras de Estase Venosa: O Que São, Causas e Tratamento
A úlcera de estase venosa é a complicação mais grave da insuficiência venosa crônica — e também a mais frequente causa de ferida crônica nas pernas em adultos. O termo “estase” refere-se exatamente ao mecanismo causador: o sangue “para” (estagna) nas veias das pernas por falha das válvulas venosas, e essa estase provoca lesão progressiva dos tecidos ao redor do tornozelo que, com o tempo, evolui para uma ferida que não cicatriza.
Neste artigo vou explicar o que são as úlceras de estase venosa, por que surgem, como se diferenciam de outras úlceras e qual é o tratamento mais eficaz.
O que é estase venosa?

Estase venosa é o acúmulo anormal de sangue nas veias das pernas, causado pela falha das válvulas venosas — as estruturas que deveriam impedir que o sangue descesse de volta após ser impulsionado para cima pela musculatura da panturrilha.
Quando essas válvulas não fecham adequadamente (insuficiência venosa crônica), o sangue reflui para baixo e se acumula progressivamente nas veias das pernas. Esse acúmulo gera aumento da pressão dentro das veias — a chamada hipertensão venosa — que é a causa fundamental de todas as complicações da insuficiência venosa, incluindo as úlceras.
Como a estase venosa causa úlcera?
O caminho da estase venosa até a úlcera envolve uma cascata de eventos que ocorrem ao longo de meses a anos:
- Hipertensão venosa crônica: a pressão elevada dentro das vênulas e capilares da pele ao redor do tornozelo aumenta
- Extravasamento de hemácias: os glóbulos vermelhos vazam dos capilares para os tecidos — o ferro da hemoglobina se deposita na pele, causando as manchas escuras características (dermatite ocre)
- Inflamação crônica: leucócitos se infiltram nos tecidos, causando inflamação persistente
- Lipodermatoesclerose: o tecido subcutâneo ao redor do tornozelo vai endurecendo e fibrosando progressivamente — a pele perde elasticidade e torna-se mais frágil
- Úlcera: qualquer trauma mínimo na pele já fragilizada — uma arranhadura, uma picada de inseto, o atrito de uma meia — é suficiente para romper a pele e criar uma ferida que, sem o ambiente vascular adequado, não consegue cicatrizar normalmente
Características clínicas das úlceras de estase

A úlcera de estase venosa tem características bem definidas que permitem sua identificação clínica:
- Localização: terço inferior da perna, ao redor do tornozelo interno (maléolo medial) — essa localização específica reflete as maiores pressões venosas nessa região
- Bordas: irregulares, planas, sem elevação
- Fundo: pode ter tecido de granulação rosado (ferida em cicatrização) ou fibrina amarelada (fase inflamatória)
- Exsudato: frequentemente abundante — úlceras venosas são exsudativas
- Dor: variável — muitas úlceras de estase são surpreendentemente pouco dolorosas (diferente da úlcera arterial, que é muito dolorosa). A dor aumenta quando há infecção associada
- Pele ao redor: dermatite ocre (manchas escuras), lipodermatoesclerose (endurecimento), vasinhos ao redor do tornozelo (corona phlebectatica), edema
- Tamanho: variável — de pequenas lesões a grandes úlceras que circundam todo o tornozelo (“úlcera em bota”)
Úlcera de estase x úlcera varicosa: existe diferença?
Na prática clínica, os termos são usados como sinônimos — e para fins práticos, são a mesma condição. A nuance é sutil:
- Úlcera varicosa: enfatiza a relação com as varizes visíveis
- Úlcera de estase: enfatiza o mecanismo fisiopatológico (estase + hipertensão venosa)
- Úlcera venosa: termo mais abrangente, que inclui tanto as por varizes quanto as por síndrome pós-trombótica (sequela de TVP prévia)
O tratamento é essencialmente o mesmo independentemente do termo usado.
Classificação CEAP: onde a úlcera de estase se encaixa
A classificação CEAP (Clínica, Etiológica, Anatômica e Fisiopatológica) gradua a insuficiência venosa crônica em 7 estágios:
- C0: sem sinais visíveis
- C1: vasinhos/telangiectasias
- C2: varizes
- C3: edema
- C4a: dermatite ocre ou eczema
- C4b: lipodermatoesclerose
- C5: úlcera cicatrizada
- C6: úlcera ativa — é o estágio da úlcera de estase venosa
A úlcera de estase ativa (C6) representa o estágio mais avançado da doença venosa crônica.
Fatores que dificultam a cicatrização
- Infecção da ferida — especialmente por Pseudomonas, Staphylococcus e Streptococcus
- Diabetes — compromete a resposta imune e a cicatrização
- Desnutrição e baixo nível de albumina
- Insuficiência cardíaca ou renal com edema grave não controlado
- Anemia
- Uso de corticosteroides sistêmicos
- Componente arterial associado (úlcera mista) — sempre medir o índice tornozelo-braquial antes de compressão
Diagnóstico das úlceras de estase venosa
- Avaliação clínica: localização, características da ferida, pele ao redor, pulsos
- Índice tornozelo-braquial (ITB): obrigatório antes de compressão — descarta isquemia arterial significativa
- Doppler venoso: confirma insuficiência venosa, mapeia o refluxo e orienta o tratamento da causa
- Cultura do exsudato: quando há sinais de infecção
- Biópsia da borda: em úlceras atípicas ou que não respondem ao tratamento para descartar malignidade
Tratamento das úlceras de estase venosa
1. Compressão elástica: o pilar fundamental
Sem compressão adequada, a úlcera de estase raramente cicatriza de forma definitiva — porque a hipertensão venosa que a causou persiste. As opções de compressão incluem:
- Bota de Unna: bandagem rígida impregnada com óxido de zinco — clássica no tratamento de úlceras venosas, trocada semanalmente
- Bandagem multicamadas: 4 camadas (esponja, curativo, bandagem de coesão, bandagem de compressão) — padrão internacional, mantém compressão sustentada
- Meia de alta compressão: após cicatrização inicial, para manutenção e prevenção de recidiva
2. Curativo adequado
O tipo de curativo depende das características da ferida:
- Ferida muito exsudativa: alginatos de cálcio, hidrofibras (Aquacel), espumas de poliuretano — absorvem o excesso sem desidratar o leito
- Ferida com fibrina: desbridamento (remoção do tecido desvitalizado) — manual, enzimático ou autolítico com hidrogel
- Ferida limpa em cicatrização: curativos não aderentes para manter ambiente úmido
- Ferida infectada: curativos com antissépticos (prata, iodo) + antibiótico sistêmico conforme cultura
3. Tratamento da causa venosa
Tratar a ferida sem corrigir a insuficiência venosa de base garante recorrência. As opções incluem:
- Escleroterapia das veias com refluxo
- Laser endovenoso ou radiofrequência da safena
- Cirurgia de varizes
4. Controle dos fatores sistêmicos
- Controle glicêmico (diabetes)
- Elevação das pernas (30° ao dormir)
- Atividade física — especialmente caminhadas, que ativam a bomba muscular da panturrilha
- Nutrição adequada (proteína, vitamina C, zinco)
→ Úlcera Varicosa: Ferida que Não Cicatriza
→ Úlceras Arteriais e Venosas: Como Diferenciar
→ Insuficiência Venosa Crônica: O Que É
Tratamento de úlcera venosa em SP
O Dr. Luís Dotta (CRM 65772/SP – RQE 28296) avalia e trata úlceras de estase venosa em três unidades em São Paulo:
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Perguntas Frequentes
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui a consulta médica presencial. Cada paciente é único. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada.
Dr. Luís Antonio Dotta — CRM-SP 65772 / RQE 28296. Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular.







