Artéria Mesentérica Superior: Anatomia, Função e Síndromes
A artéria mesentérica superior é um dos vasos mais críticos do abdome — responsável pelo suprimento sanguíneo de praticamente todo o intestino delgado e do cólon direito. Sua importância clínica vai além: é o vaso envolvido na angina mesentérica, na isquemia intestinal aguda e em uma síndrome compressiva específica chamada síndrome da artéria mesentérica superior — que pode causar obstrução do duodeno. Neste artigo vou explicar o que é essa artéria, sua anatomia e as principais condições que a afetam.
O que é a artéria mesentérica superior?

A artéria mesentérica superior (AMS) é um ramo direto da aorta abdominal, originando-se aproximadamente 1 cm abaixo do tronco celíaco, na altura da primeira vértebra lombar (L1). É a segunda grande artéria visceral do abdome — após o tronco celíaco — e a maior em termos de território irrigado.
Ela desce pelo mesentério, percorrendo vários centímetros antes de se ramificar em seus ramos terminais. Ao longo do seu trajeto, cruza anteriormente a veia renal esquerda, o processo uncinado do pâncreas e o duodeno — esse relacionamento anatômico é a base da síndrome da AMS (compressão duodenal) e da síndrome do Nutcracker (compressão da veia renal esquerda).
Território irrigado pela artéria mesentérica superior
A AMS é responsável pelo suprimento arterial de uma extensão enorme do trato gastrointestinal:
- Todo o intestino delgado: duodeno distal (abaixo da papila de Vater), jejuno e íleo — por meio das artérias jejunais e ileais (12 a 15 ramos)
- Ceco e apêndice — pela artéria ileocólica
- Cólon ascendente e cólon transverso direito — pelas artérias cólicas direita e média
Estima-se que a AMS irriga cerca de 75% do intestino — o que explica por que sua obstrução aguda é uma das emergências mais graves da medicina abdominal, com altíssima mortalidade.
Relações anatômicas importantes da AMS

O trajeto da artéria mesentérica superior cria relações com estruturas adjacentes que têm relevância clínica direta:
Ângulo aortomesentérico
Entre a AMS e a aorta forma-se um ângulo — normalmente entre 38° e 56°. Esse espaço é atravessado pela veia renal esquerda (que vai para a veia cava) e pelo duodeno (terceira porção). Quando esse ângulo está muito agudo — por constituição corporal muito magra, perda de peso rápida ou posição anatômica anormal — estruturas vizinhas podem ser comprimidas.
Compressão da veia renal esquerda (síndrome do Nutcracker)
A veia renal esquerda passa entre a AMS e a aorta. Quando o ângulo aortomesentérico é muito estreito, a veia é comprimida — causando aumento de pressão dentro dela, hematúria (sangue na urina), dor no flanco e varizes pélvicas pela congestão da veia gonadal esquerda, que desemboca na veia renal esquerda.
Síndrome da artéria mesentérica superior (compressão duodenal)
A terceira porção do duodeno também passa entre a AMS e a aorta. Em situações de ângulo muito agudo — emagrecimento rápido, jejum prolongado, imobilização em decúbito dorsal, cirurgia de coluna com correção de lordose —, o duodeno pode ser comprimido entre a AMS e a aorta, causando obstrução duodenal funcional:
- Náuseas e vômitos biliosos
- Dor epigástrica pós-prandial
- Perda de peso progressiva
- Melhora em posição prona (de bruços) ou em decúbito lateral esquerdo — pois essas posições afastam a AMS do duodeno
O diagnóstico é feito por trânsito esofagogastroduodenal ou tomografia, que mostra a compressão extrínseca do duodeno. O tratamento é inicialmente conservador (ganho de peso, alimentação em posição específica, alimentação por sonda distal à obstrução); cirurgia (duodenojejunostomia) em casos refratários.
Doenças que afetam a artéria mesentérica superior
Isquemia mesentérica aguda por embolia da AMS
É a causa mais frequente de isquemia mesentérica aguda — responsável por cerca de 50% dos casos. Um êmbolo (geralmente originado no coração — por fibrilação atrial ou trombo ventricular) se aloja na AMS, obstruindo abruptamente o fluxo para o intestino. A apresentação é de dor abdominal intensa e súbita, com abdome inicialmente “mole” (a chamada dor desproporcional aos achados físicos). É uma emergência cirúrgica com mortalidade acima de 50% nos casos tratados tardiamente.
Isquemia mesentérica crônica (angina mesentérica)
A aterosclerose progressiva da AMS causa estreitamento gradual do vaso, manifestando-se como angina mesentérica — dor pós-prandial, medo de comer e emagrecimento progressivo. Como a AMS e o tronco celíaco têm circulação colateral entre si, a doença geralmente é sintomática apenas quando dois ou mais vasos estão significativamente comprometidos.
Trombose da artéria mesentérica superior
Diferente da embolia (que vem de outro local), a trombose ocorre sobre uma placa aterosclerótica existente na própria AMS — geralmente em pacientes com doença vascular avançada. Tende a ter início menos abrupto que a embolia.
Dissecção espontânea da artéria mesentérica superior
É uma condição relativamente rara mas importante de reconhecer: dissecção isolada (sem envolvimento aórtico) da AMS. Pode se apresentar com dor abdominal aguda e, em alguns casos, isquemia intestinal. Mais comum em homens de meia-idade, com ou sem fatores de risco vasculares. O tratamento pode ser conservador, anticoagulação ou intervenção endovascular conforme a extensão e os sintomas.
Diagnóstico das doenças da artéria mesentérica superior
- Doppler das artérias mesentéricas: avalia velocidades de fluxo e identifica estenoses — exame de triagem para isquemia crônica
- Angiotomografia (AngioTC) de abdome: padrão para diagnóstico de isquemia aguda e crônica — visualiza a AMS, identifica trombos, êmbolos, dissecções e avalia a viabilidade intestinal
- Arteriografia mesentérica: histórico padrão diagnóstico — hoje frequentemente combinada com tratamento endovascular no mesmo procedimento
- Angiorressonância: alternativa sem radiação para avaliação crônica
Tratamento das doenças da AMS
- Embolia aguda da AMS: embolectomia cirúrgica ou trombólise endovascular de urgência — tempo é determinante para a sobrevida do intestino
- Isquemia crônica (angina mesentérica): angioplastia com stent da AMS como primeira escolha; bypass cirúrgico em casos selecionados
- Síndrome da AMS (compressão duodenal): tratamento conservador (ganho de peso, posicionamento); cirurgia se refratária
- Dissecção da AMS: anticoagulação, vigilância ou stent conforme a evolução
→ Angina Mesentérica: Dor Após Comer
→ Isquemia Mesentérica: O Que É e Sintomas
→ Aorta: O Que É, Anatomia e Doenças
Avaliação vascular mesentérica em SP
O Dr. Luís Dotta (CRM 65772/SP – RQE 28296) avalia e trata doenças das artérias mesentéricas em três unidades em São Paulo:
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Perguntas Frequentes
O que é a artéria mesentérica superior?
É um ramo direto da aorta abdominal que irriga todo o intestino delgado, o ceco, o apêndice e o cólon direito. É a maior artéria visceral do abdome em território irrigado.
O que é a síndrome da artéria mesentérica superior?
É a compressão do duodeno entre a artéria mesentérica superior e a aorta, causando obstrução duodenal funcional com náuseas, vômitos biliosos e perda de peso. Melhora em posição prona.
Artéria mesentérica superior e síndrome do Nutcracker são relacionadas?
Sim — em ambas a artéria mesentérica superior está envolvida na compressão de estruturas adjacentes. No Nutcracker, comprime a veia renal esquerda; na síndrome da AMS, comprime o duodeno.
Embolia da artéria mesentérica superior é grave?
Extremamente grave — é uma das emergências abdominais de maior mortalidade. A obstrução aguda do fluxo para o intestino delgado pode causar necrose intestinal extensa em horas. Requer intervenção urgente.
Qual a diferença entre embolia e trombose da artéria mesentérica superior?
A embolia vem de outra fonte (geralmente o coração) e se aloja na AMS de forma súbita. A trombose ocorre sobre uma placa aterosclerótica já existente na própria AMS, geralmente com início menos abrupto.
Como é tratada a embolia aguda da artéria mesentérica superior?
Embolectomia cirúrgica (retirada do êmbolo) ou trombólise endovascular de urgência — com ressecção do intestino necrosado quando necessário. O tempo de isquemia é o principal determinante do prognóstico.
Artéria mesentérica superior pode ter dissecção?
Sim — a dissecção espontânea isolada da AMS é uma condição reconhecida, mais comum em homens de meia-idade. Pode ser tratada conservadoramente, com anticoagulação ou com stent, conforme a extensão e os sintomas.
Qual exame avalia a artéria mesentérica superior?
O Doppler mesentérico é o exame de triagem. A angiotomografia (AngioTC) é o padrão para diagnóstico de urgência (embolia, dissecção) e para planejamento de intervenção na isquemia crônica.
Qual médico trata doenças da artéria mesentérica superior?
O cirurgião vascular é o especialista — realiza o diagnóstico vascular e o tratamento endovascular (stent) ou cirúrgico (bypass, embolectomia) conforme o tipo e a urgência da condição.
Dor abdominal após comer pode ser da artéria mesentérica?
Sim — a angina mesentérica por estenose da AMS causa dor pós-prandial (por demanda aumentada de fluxo durante a digestão), sitofobia e emagrecimento progressivo. Requer investigação com Doppler mesentérico.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui a consulta médica presencial. Cada paciente é único. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada.
Dr. Luís Antonio Dotta — CRM-SP 65772 / RQE 28296. Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular.







