No consultório de cirurgia vascular, raro é o paciente com doença arterial — seja na carótida, na aorta ou nas pernas — que não tenha dislipidemia associada. Colesterol alto e triglicerídeos elevados são, junto com o tabagismo e a hipertensão, os pilares que sustentam a aterosclerose: a doença que estreita e endurece as artérias, causando infartos, AVCs, amputações e aneurismas.
Com mais de trinta anos tratando doenças vasculares em São Paulo, posso dizer com segurança: controlar a dislipidemia é uma das medidas que mais reduz o risco de eventos vasculares graves ao longo da vida. Este artigo explica o que é a dislipidemia, qual o impacto no sistema vascular e o que pode ser feito.
O que é dislipidemia?
Dislipidemia é o nome técnico para qualquer alteração nos níveis de lipídeos (gorduras) no sangue. As gorduras mais relevantes clinicamente são: Colesterol LDL (o “ruim” — deposita-se nas artérias formando placas), Colesterol HDL (o “bom” — remove o excesso das artérias), Triglicerídeos (gorduras de reserva) e Colesterol total.
A dislipidemia não causa sintomas diretos — por isso é chamada de “assassina silenciosa”. O paciente pode conviver com colesterol muito elevado por anos sem sentir nada, enquanto as placas de aterosclerose avançam progressivamente.
Tipos de dislipidemia
| Tipo | O que está alterado | Risco principal |
|---|---|---|
| Hipercolesterolemia isolada | LDL elevado com triglicerídeos normais | Aterosclerose coronariana, carotídea e periférica |
| Hipertrigliceridemia isolada | Triglicerídeos elevados com colesterol normal | Pancreatite aguda e risco cardiovascular moderado |
| Dislipidemia mista | LDL elevado + triglicerídeos elevados | Alto risco cardiovascular global — combinação mais perigosa |
| HDL baixo isolado | HDL reduzido | Risco cardiovascular aumentado |
Como a dislipidemia causa doenças vasculares
Quando o LDL está cronicamente elevado, as partículas penetram na parede arterial, oxidam-se e ativam resposta inflamatória — formando as placas de aterosclerose. Quando a placa rompe, forma-se um coágulo que pode ocluir a artéria subitamente: é assim que acontece o infarto, o AVC isquêmico e a obstrução arterial aguda das pernas.
- Doença carotídea: placas nas artérias carótidas aumentam o risco de AVC isquêmico
- DAOP: a aterosclerose das artérias das pernas causa claudicação, isquemia e úlceras
- Aneurisma da aorta: a aterosclerose da parede aórtica acelerada pelo LDL elevado é a principal causa do aneurisma da aorta abdominal
Diagnóstico e metas de tratamento
| Fração lipídica | Valores de referência gerais | Meta em alto risco cardiovascular |
|---|---|---|
| LDL | < 130 mg/dL (risco baixo) | < 50–70 mg/dL (doença cardiovascular estabelecida) |
| HDL | > 40 mg/dL (H) / > 50 mg/dL (M) | Quanto maior, melhor |
| Triglicerídeos | < 150 mg/dL | < 150 mg/dL |
Tratamento da dislipidemia
Mudanças no estilo de vida
Reduzir gorduras saturadas e trans, aumentar fibras solúveis, praticar 150 minutos semanais de atividade aeróbica, manter peso saudável e parar de fumar (parar de fumar eleva o HDL em 5 a 10% nos primeiros meses).
Estatinas — o pilar medicamentoso
As estatinas (atorvastatina, rosuvastatina) reduzem o LDL de 30 a 60%, estabilizam as placas e têm efeito anti-inflamatório na parede arterial. Para pacientes com doença vascular estabelecida — DAOP, estenose carotídea, aneurisma — as estatinas em altas doses fazem parte do tratamento obrigatório, independentemente do nível inicial de LDL.
Outros medicamentos
- Ezetimiba: reduz a absorção intestinal de colesterol — usada em combinação com estatinas quando o LDL não atinge a meta
- Inibidores de PCSK9 (evolocumabe, alirocumabe): reduzem o LDL de 50 a 70% adicionalmente — para pacientes de muito alto risco
- Fibratos: reduzem triglicerídeos em 30 a 50% — indicados para hipertrigliceridemia significativa
Perguntas Frequentes sobre Dislipidemia
Dislipidemia tem cura?
Depende da causa. Dislipidemias secundárias podem ser melhoradas ao tratar a causa subjacente. Dislipidemias primárias genéticas não têm cura mas têm tratamento eficaz com medicamentos contínuos. Mudanças de estilo de vida são sempre a base.
Colesterol alto causa dor nas pernas?
Não diretamente. Mas a aterosclerose que ele causa ao longo de anos pode estreitar as artérias das pernas e causar claudicação intermitente — dor ao caminhar que melhora com o repouso. É um sintoma tardio; a aterosclerose começa décadas antes de causar dor.
Estatina pode causar câimbra?
Sim — mialgia e câimbra são efeitos adversos conhecidos das estatinas, ocorrendo em 5 a 10% dos pacientes. Se desenvolveu câimbras usando estatina, informe seu médico antes de interromper — a troca por outra estatina ou ajuste de dose muitas vezes resolve.
Triglicerídeos altos são perigosos?
Sim. Triglicerídeos acima de 500 mg/dL representam risco sério de pancreatite aguda. Cronicamente elevados aumentam o risco cardiovascular global. O controle com dieta, exercício, redução do álcool e fibratos quando necessário é fundamental.
Como saber se tenho dislipidemia?
A única forma é por exame de sangue — a dislipidemia não causa sintomas. O perfil lipídico deve ser feito com jejum de 12 horas. Adultos sem fatores de risco podem fazer a cada 5 anos; com diabetes, hipertensão ou doença cardiovascular, anualmente.
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⚖️ Aviso Legal: Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui a consulta médica presencial. Resultados podem variar. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada.
✍️ Dr. Luís Antonio Dotta | CRM 65772/SP | RQE 28296 | Especialista em Angiologia, Cirurgia Vascular e Cirurgia Cardiovascular









