Dislipidemia — colesterol alto e placas de aterosclerose nas artérias

Dislipidemia: o que é, risco vascular e como tratar

No consultório de cirurgia vascular, raro é o paciente com doença arterial — seja na carótida, na aorta ou nas pernas — que não tenha dislipidemia associada. Colesterol alto e triglicerídeos elevados são, junto com o tabagismo e a hipertensão, os pilares que sustentam a aterosclerose: a doença que estreita e endurece as artérias, causando infartos, AVCs, isquemia nos membros inferiores e morte súbita.

Este artigo explica o que é a dislipidemia, como ela lesa as artérias, quais são as metas de tratamento, o que muda na dieta e no estilo de vida, e quando os medicamentos são necessários. Escrevo isso do ponto de vista de quem vê diariamente o resultado de anos de dislipidemia não tratada — artérias entupidas, membros comprometidos, cirurgias evitáveis.


O que é Dislipidemia

Dislipidemia é o desequilíbrio dos lipídeos (gorduras) no sangue — colesterol total, LDL, HDL ou triglicerídeos fora dos valores desejáveis para o perfil de risco do paciente. Não é necessariamente “tudo alto” — a dislipidemia inclui também o HDL (colesterol “bom”) abaixo do ideal.

A dislipidemia é uma condição silenciosa — não causa sintomas perceptíveis por anos ou décadas. Quando os sintomas aparecem, geralmente já refletem doença arterial estabelecida: placa na carótida, aneurisma de aorta ou claudicação intermitente nas pernas. Por isso o rastreamento regular com exame de sangue é essencial.


Tipos de Dislipidemia

TipoO que está alteradoRisco principal
Hipercolesterolemia isoladaLDL elevado com triglicerídeos normaisAterosclerose — doença coronariana, AVC, DAP
Hipertrigliceridemia isoladaTriglicerídeos elevados com colesterol normalPancreatite aguda (acima de 500 mg/dL) + risco cardiovascular
Dislipidemia mistaLDL alto + triglicerídeos altosRisco cardiovascular muito elevado
HDL baixo isoladoHDL abaixo de 40 mg/dL (H) ou 50 mg/dL (M)Risco cardiovascular independente

Causas de Dislipidemia — Primárias e Secundárias

Dislipidemias Primárias (Genéticas)

São causadas por mutações genéticas que afetam o metabolismo dos lipídeos. A mais importante é a hipercolesterolemia familiar (HF) — condição autossômica dominante em que o LDL não é captado adequadamente pelas células. Pacientes com HF têm LDL muito elevado desde a infância e risco de doença coronariana prematura (antes dos 55 anos em homens, antes dos 65 em mulheres).

Sinais que sugerem dislipidemia genética: LDL acima de 190 mg/dL sem causa secundária; história familiar de doença cardiovascular prematura; xantomas (depósitos de gordura nos tendões, especialmente no tendão de Aquiles) ou xantelasmas (depósitos amarelados nas pálpebras).

Dislipidemias Secundárias

São causadas por outras condições ou por fatores modificáveis:

  • Hipotireoidismo: reduz o catabolismo do LDL — frequente causa de hipercolesterolemia secundária, especialmente em mulheres
  • Diabetes mellitus: causa dislipidemia mista — LDL aumentado, triglicerídeos elevados, HDL reduzido
  • Síndrome nefrótica: aumenta a síntese hepática de lipoproteínas
  • Doença renal crônica: altera o metabolismo lipídico
  • Obesidade e síndrome metabólica: eleva triglicerídeos e reduz HDL
  • Álcool em excesso: eleva triglicerídeos significativamente
  • Medicamentos: corticosteroides, tiazídicos, betabloqueadores, isotretinoína, antirretrovirais
  • Dieta rica em gordura saturada e trans

Como a Dislipidemia Causa Doenças Vasculares

O mecanismo central é a aterosclerose — processo inflamatório crônico das artérias desencadeado pelo LDL oxidado. O processo ocorre em etapas:

  1. O LDL penetra na parede arterial e sofre oxidação
  2. Macrófagos “comem” o LDL oxidado e se transformam em células espumosas
  3. Forma-se a estria gordurosa — lesão inicial reversível
  4. Progressivamente acumula-se lipídeos, células e tecido fibroso — forma-se a placa aterosclerótica
  5. A placa cresce e estreita o lúmen da artéria, reduzindo o fluxo
  6. A placa pode se romper — exposição do colágeno atrai plaquetas, forma-se coágulo agudo — infarto, AVC ou isquemia aguda do membro

Cada artéria obstruída causa uma doença específica: coronárias (infarto), carótidas (AVC), artérias das pernas (claudicação e isquemia), artérias renais (hipertensão renovascular), aorta (aneurisma). A dislipidemia é um fator de risco global para todas essas manifestações.


Diagnóstico — O Perfil Lipídico

O diagnóstico é feito pelo perfil lipídico — exame de sangue com jejum de 12 horas que mede:

  • Colesterol total
  • LDL-colesterol (Low Density Lipoprotein — “colesterol ruim”)
  • HDL-colesterol (High Density Lipoprotein — “colesterol bom”)
  • Triglicerídeos
  • VLDL (calculado a partir dos triglicerídeos)

Os valores desejáveis variam conforme o risco cardiovascular do paciente. Não existe um valor único de LDL “normal” para todos — um paciente de baixo risco com LDL de 120 mg/dL pode não necessitar de tratamento, enquanto um paciente com doença coronariana estabelecida precisa de LDL abaixo de 50 mg/dL.

ParâmetroValor desejável (geral)Meta em alto risco cardiovascular
LDL-colesterol< 130 mg/dL< 50-70 mg/dL
HDL-colesterol> 40 mg/dL (H) / > 50 mg/dL (M)Quanto maior, melhor
Triglicerídeos< 150 mg/dL< 150 mg/dL
Colesterol total< 200 mg/dLDepende do LDL

Tratamento da Dislipidemia

Mudanças no Estilo de Vida — A Base Insubstituível

Em todos os pacientes, independentemente de precisar de medicamento, as mudanças de estilo de vida são obrigatórias e impactantes:

  • Dieta: reduzir gordura saturada (carnes gordas, manteiga, queijos amarelos, embutidos) e eliminar gordura trans (margarinas, industrializados). Aumentar fibras solúveis (aveia, maçã, feijão) que reduzem a absorção de colesterol. Peixes ricos em ômega-3 (sardinha, salmão, atum) 2 a 3 vezes por semana
  • Exercício físico: 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada. O exercício aeróbico é o mais eficaz para elevar o HDL e reduzir triglicerídeos
  • Controle do peso: a perda de 5 a 10% do peso corporal reduz LDL, triglicerídeos e eleva HDL
  • Cessação do tabagismo: o tabaco reduz o HDL e promove a oxidação do LDL — dois mecanismos pro-ateroscleróticos
  • Redução do álcool: especialmente para triglicerídeos elevados — o álcool é a principal causa de hipertrigliceridemia secundária

Estatinas — O Pilar Medicamentoso

As estatinas (rosuvastatina, atorvastatina, sinvastatina) são os medicamentos mais eficazes para reduzir o LDL e, consequentemente, o risco cardiovascular. Inibem a HMG-CoA redutase — enzima-chave da síntese hepática de colesterol — e aumentam os receptores de LDL no fígado, reduzindo o LDL circulante em 30 a 55% dependendo da dose.

Além de reduzir o LDL, as estatinas têm efeitos anti-inflamatórios na parede arterial (efeitos pleiotrópicos) que contribuem para a estabilização das placas ateroscleróticas. A evidência acumulada em décadas de estudos clínicos é muito sólida: estatinas em doses adequadas reduzem infartos, AVCs e mortalidade cardiovascular de forma significativa.

Outros Medicamentos

  • Ezetimiba: inibe a absorção intestinal do colesterol — reduz LDL em 15 a 20% adicional quando combinada com estatina. Boa tolerabilidade
  • Inibidores de PCSK9 (evolocumabe, alirocumabe): anticorpos monoclonais de alto custo mas altamente eficazes — reduzem LDL em 50 a 60% adicionais. Indicados para hipercolesterolemia familiar grave ou doença cardiovascular estabelecida refratária às estatinas
  • Fibratos (gemfibrozila, fenofibrato): indicados principalmente para hipertrigliceridemia grave. Elevam HDL e reduzem triglicerídeos significativamente
  • Ácidos graxos ômega-3 em doses farmacológicas: eficazes para triglicerídeos muito elevados

Dislipidemia e o Cirurgião Vascular

No consultório de cirurgia vascular, a dislipidemia aparece como causa ou agravante de praticamente todas as condições arteriais que trato:

  • Placa de carótida — doença aterosclerótica que causa AVC. O controle agressivo do LDL estabiliza as placas e reduz o risco de ruptura
  • Aneurisma de aorta — diretamente relacionado à aterosclerose da parede aórtica
  • Doença arterial periférica (isquemia dos membros) — a dislipidemia é o principal fator de risco modificável. Controle do LDL melhora sintomas e prognóstico
  • Pé diabético — frequentemente associado à dislipidemia diabética

Quando opero ou faço uma intervenção vascular num paciente, o resultado a longo prazo depende criticamente do controle dos fatores de risco — especialmente a dislipidemia. Um bypass que foi feito com sucesso pode falhar em 5 anos se o LDL continuar alto.


Perguntas Frequentes sobre Dislipidemia

Dislipidemia tem cura?

Dislipidemias secundárias podem ser completamente resolvidas ao tratar a causa (ex.: hipotireoidismo). Dislipidemias primárias genéticas não têm cura — exigem tratamento contínuo. Em todos os casos, mudanças de estilo de vida e medicamentos controlam eficazmente os níveis lipídicos e reduzem o risco cardiovascular.

Colesterol alto causa dor nas pernas?

Não diretamente. Mas a aterosclerose que o LDL elevado causa pode estreitar as artérias das pernas e causar claudicação intermitente — dor ao caminhar que melhora com o repouso. É um dos sintomas de doença arterial periférica, condição que tratamos no consultório de cirurgia vascular.

Estatina pode causar câimbra?

Sim — mialgia (dor muscular) e câimbra são efeitos adversos conhecidos das estatinas, ocorrendo em 5 a 10% dos pacientes. Em casos raros pode ocorrer rabdomiólise (destruição muscular grave). Informe seu médico antes de interromper — a troca por outra estatina ou a redução da dose muitas vezes resolve sem perder o benefício cardiovascular.

Triglicerídeos altos são perigosos?

Sim. Acima de 500 mg/dL representam risco imediato de pancreatite aguda — condição grave com alta mortalidade. Cronicamente elevados aumentam o risco cardiovascular de forma independente. O controle com dieta, exercício, eliminação do álcool e fibratos quando necessário é fundamental.

Como saber se tenho dislipidemia?

Apenas por exame de sangue — a dislipidemia não causa sintomas. Perfil lipídico em jejum de 12 horas. Frequência: adultos sem fatores de risco, a cada 5 anos; com diabetes, hipertensão ou doença cardiovascular, anualmente. Histórico familiar de doença cardiovascular precoce indica rastreamento mais cedo.

Posso parar a estatina quando o colesterol normalizar?

Na maioria dos casos, não. O colesterol normaliza porque a estatina está funcionando — ao parar, os níveis voltam. Pacientes com dislipidemia primária e alto risco cardiovascular geralmente usam estatinas por toda a vida. Sempre discuta com seu médico antes de qualquer mudança no tratamento.

Dislipidemia pode causar AVC?

Indiretamente, sim. O LDL elevado favorece aterosclerose das artérias carótidas. Placas instáveis podem romper e liberar êmbolos que causam AVC isquêmico. O tratamento com estatinas reduz significativamente esse risco — reduz a progressão das placas e estabiliza as existentes.


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Dislipidemia em Grupos Especiais

Dislipidemia em Crianças e Adolescentes

A dislipidemia não é exclusividade dos adultos. Crianças e adolescentes com histórico familiar de doença cardiovascular precoce ou de dislipidemia genética (hipercolesterolemia familiar) devem ser rastreadas a partir dos 9 a 11 anos — ou mais cedo se houver suspeita de hipercolesterolemia familiar. O diagnóstico precoce permite intervenção antes que as placas ateroscleróticas se estabeleçam.

Dislipidemia na Mulher

Antes da menopausa, as mulheres têm proteção cardiovascular pelo estrogênio — que eleva o HDL e reduz o LDL. Após a menopausa, esse efeito protetor desaparece e a incidência de dislipidemia e doença cardiovascular se iguala à dos homens. A reposição hormonal no climatério tem efeitos complexos nos lipídeos — a decisão de usar ou não deve considerar o perfil de dislipidemia individual.

Dislipidemia no Diabético

A dislipidemia diabética tem padrão característico: triglicerídeos elevados, HDL baixo e partículas de LDL pequenas e densas (mais aterogênicas). Mesmo com LDL aparentemente “normal”, o risco cardiovascular é elevado por esse padrão qualitativo da dislipidemia diabética. O controle glicêmico melhora a dislipidemia — especialmente os triglicerídeos.


Dislipidemia e o Índice de Risco Cardiovascular

O tratamento da dislipidemia é baseado no risco cardiovascular global — não apenas nos valores absolutos dos lipídeos. O risco cardiovascular é calculado considerando múltiplos fatores:

  • Valores de LDL, HDL e triglicerídeos
  • Pressão arterial
  • Tabagismo
  • Diabetes mellitus
  • Idade e sexo
  • Histórico familiar de doença cardiovascular precoce
  • Presença de doença cardiovascular estabelecida (coronariana, vascular periférica, AVC)

Um paciente com LDL de 130 mg/dL sem outros fatores de risco tem indicação diferente de tratamento comparado a um paciente com o mesmo LDL mas com diabetes, hipertensão e tabagismo. Por isso a dislipidemia nunca deve ser tratada de forma isolada — sempre dentro do contexto do risco cardiovascular global.


Alimentos que Ajudam a Controlar a Dislipidemia

  • Aveia e fibras solúveis: beta-glucana da aveia reduz a absorção intestinal de colesterol — pode reduzir LDL em 5 a 10%
  • Peixes ricos em ômega-3 (sardinha, salmão, atum, cavalinha): 2 a 3 porções por semana reduzem triglicerídeos e têm efeito anti-inflamatório nas artérias
  • Azeite de oliva extravirgem: rico em ácido oleico — substitui gorduras saturadas e reduz o risco cardiovascular
  • Oleaginosas (nozes, amêndoas): fontes de gorduras insaturadas que melhoram o perfil lipídico
  • Leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico): fibras solúveis que reduzem a absorção de colesterol
  • Alimentos a evitar: embutidos, frituras, margarinas (gordura trans), carnes gordas, queijos amarelos e leite integral

⚖️ Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica. | ✍️ Dr. Luís Antonio Dotta | CRM 65772/SP | RQE 28296