Dissecção de Carótida: O Que É, Sintomas e Tratamento
A dissecção da artéria carótida é uma condição vascular que, embora menos conhecida que o infarto ou o AVC, é uma causa importante de acidente vascular cerebral em adultos jovens — frequentemente sem os fatores de risco cardiovasculares clássicos. Por isso, reconhecer seus sintomas e saber quando buscar avaliação urgente pode literalmente salvar vidas.
Neste artigo vou explicar o que é a dissecção da carótida, por que acontece, como se manifesta, como é diagnosticada e quais são as opções de tratamento disponíveis.
O que é dissecção de carótida?

A dissecção arterial ocorre quando há uma laceração ou ruptura da camada interna da parede arterial (a túnica íntima), permitindo que o sangue penetre entre as camadas da parede e forme um “falso lúmen” — uma passagem anormal dentro da própria parede da artéria. Esse acúmulo de sangue entre as camadas pode:
- Comprimir o lúmen verdadeiro da artéria, reduzindo o fluxo sanguíneo para o cérebro
- Criar um coágulo dentro da parede que pode fragmentar e embolizar para artérias cerebrais menores, causando AVC isquêmico
- Ocluir completamente a artéria em casos graves
A artéria carótida interna é a mais frequentemente afetada — especialmente no segmento extracraniano (no pescoço), alguns centímetros acima da bifurcação carotídea. A artéria vertebral também pode ser acometida, com apresentação clínica diferente.
Por que a dissecção de carótida acontece?
A causa exata nem sempre é identificada. Os principais mecanismos incluem:
Trauma cervical

É a causa mais frequente e reconhecida. Pode ser um trauma direto (pancada no pescoço, acidente de carro com hiperextensão) ou indireto — movimento brusco e exagerado do pescoço, como:
- Manipulação cervical quiroprática
- Movimentos bruscos em esportes de contato (rugby, artes marciais, futebol americano)
- Tosse ou espirro intensos
- Pintura de teto (hiperextensão cervical prolongada)
- Mergulho
- Acidentes de trânsito
Fraqueza da parede arterial
Em alguns pacientes, especialmente os mais jovens, há uma predisposição à dissecção por fragilidade intrínseca da parede arterial — associada a condições como displasia fibromuscular (a mesma que causa hipertensão renovascular em mulheres jovens), síndrome de Marfan, síndrome de Ehlers-Danlos vascular e outras doenças do tecido conjuntivo.
Dissecção espontânea
Em muitos casos — especialmente em adultos jovens sem doença subjacente identificável —, a dissecção ocorre aparentemente de forma espontânea, sem trauma significativo identificado. A hipertensão arterial e infecções recentes têm sido associadas como fatores precipitantes em alguns estudos.
Quem tem mais risco?
- Adultos jovens (30-50 anos): diferentemente da maioria das doenças carotídeas por aterosclerose — que afeta principalmente idosos —, a dissecção é mais frequente em adultos jovens
- Pessoas com displasia fibromuscular
- Portadores de doenças hereditárias do tecido conjuntivo
- Pessoas que realizam manipulação cervical frequente
- Atletas de esportes de contato
- Hipertensos com picos hipertensivos
Sintomas da dissecção de carótida
Os sintomas podem aparecer horas a dias após o evento precipitante, o que por vezes dificulta a associação com a causa. A tríade clássica inclui:
Dor cervical e/ou cefaleia
Geralmente é o primeiro sintoma — dor no pescoço do lado afetado, frequentemente descrita como “pulsátil” e persistente, que pode se irradiar para a face ou para a região orbital (ao redor do olho). A cefaleia pode ser muito intensa e diferente das habituais.
Síndrome de Horner ipsilateral
Quando a dissecção comprime os filamentos nervosos simpáticos que percorrem a parede da carótida, pode surgir a síndrome de Horner do mesmo lado da dissecção: ptose (queda da pálpebra), miose (pupila contraída) e anidrose (ausência de suor) na metade do rosto. É um sinal clínico relativamente específico de dissecção carotídea.
Sintomas isquêmicos cerebrais ou oculares
Podem surgir horas a dias após o início da dor:
- Amaurose fugaz — perda transitória de visão no olho do lado afetado (sinal de comprometimento da artéria oftálmica, primeiro ramo da carótida interna)
- Fraqueza de um lado do corpo (hemiparesia)
- Alteração da fala (afasia)
- Dormência em um lado do corpo
- Sintomas de AIT (ataque isquêmico transitório)
Importante: não é necessário ter todos esses sintomas. Em alguns casos, a dissecção se manifesta apenas com dor no pescoço ou cefaleia, sem sintomas neurológicos — o que pode levar ao diagnóstico tardio.
Dissecção de vertebral x dissecção de carótida
A dissecção da artéria vertebral (que irriga o cerebelo e o tronco encefálico) tem apresentação clínica diferente:
- Dor na nuca ou na parte posterior do pescoço
- Tontura, vertigem, náuseas
- Diplopia (visão dupla)
- Dificuldade de marcha e coordenação
- Soluço intratável
- AVC do território posterior (cerebelo, tronco)
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico requer alta suspeita clínica — especialmente em adulto jovem com cefaleia/cervicalgia intensa + síntomas neurológicos. Os exames de imagem são essenciais:
Angiorressonância (AngioRM) de pescoço e crânio
É o exame de escolha para dissecção carotídea. Permite visualizar diretamente o hematoma intramural (sangue dentro da parede arterial) e o falso lúmen, sem necessidade de contraste iodado. Tem alta sensibilidade para o diagnóstico.
Angiotomografia (AngioTC) de pescoço
Alternativa rápida à AngioRM, especialmente nas situações de urgência. Pode identificar a estenose ou oclusão da carótida e, com cortes adequados, o hematoma intramural.
Doppler de carótidas
O Doppler vascular pode identificar alterações de fluxo sugestivas de dissecção — como estenose de alto grau ou padrão de fluxo alterado — mas é menos específico que a AngioRM para o diagnóstico definitivo. É útil para monitoramento evolutivo.
Arteriografia convencional
Historicamente o padrão, hoje menos utilizada para diagnóstico inicial, mas pode ser necessária quando se planeja intervenção endovascular.
Tratamento da dissecção de carótida
O tratamento visa prevenir a formação de coágulos no falso lúmen e sua embolização para o cérebro:
Anticoagulação ou antiagregação
É a base do tratamento clínico. A escolha entre anticoagulantes (heparina, seguida de warfarina ou anticoagulantes orais diretos) e antiagregantes plaquetários (AAS, clopidogrel) é individualizada e ainda objeto de debate na literatura. Estudos recentes sugerem resultados semelhantes entre as duas abordagens na maioria dos casos. O tratamento geralmente é mantido por 3 a 6 meses, período em que a maioria das dissecções cicatriza espontaneamente.
Monitoramento com imagem
Controle com AngioRM ou AngioTC após 3 a 6 meses para avaliar se houve resolução da dissecção, recanalização da artéria ou progressão da estenose.
Intervenção endovascular
Nos casos com estenose grave sintomática que não responde ao tratamento clínico, ou em pacientes com AVC recorrente apesar da anticoagulação, pode-se considerar a angioplastia com stent da carótida dissecada.
Cirurgia
Raramente necessária — reservada para situações específicas, como dissecção com pseudoaneurisma sintomático ou falha das outras abordagens.
Prognóstico: a maioria se recupera bem
Quando diagnosticada e tratada adequadamente, a dissecção de carótida tem bom prognóstico na maioria dos casos. Cerca de 70 a 80% das artérias dissecadas se recanalizam espontaneamente nos primeiros 3 a 6 meses, e a recorrência da dissecção é relativamente incomum — exceto em pacientes com displasia fibromuscular ou doenças do tecido conjuntivo, nos quais o acompanhamento é mais intensivo.
O principal determinante do prognóstico funcional é a extensão do AVC eventualmente causado antes do diagnóstico — reforçando a importância do reconhecimento precoce dos sintomas.
→ Artéria do Pescoço: Carótida, Anatomia e Doenças
→ Ateromatose Carotídea: O Que É e Riscos
→ Como Evitar AVC: Prevenção Vascular na Prática
Avaliação vascular de carótidas em SP
O Dr. Luís Dotta (CRM 65772/SP – RQE 28296) realiza Doppler de carótidas e avaliação vascular cervical em três unidades em São Paulo:
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Perguntas Frequentes
O que é dissecção de carótida?
É a laceração da camada interna da artéria carótida, com entrada de sangue entre as camadas da parede. Pode comprimir o fluxo cerebral ou gerar êmbolos que causam AVC.
Dissecção de carótida pode causar AVC?
Sim — é uma das principais causas de AVC em adultos jovens. O coágulo formado no falso lúmen pode embolizar para artérias cerebrais, causando AVC isquêmico.
Quais os sintomas da dissecção de carótida?
A tríade clássica é: dor cervical ou cefaleia intensa e inusual, síndrome de Horner ipsilateral (ptose + miose + anidrose) e sintomas neurológicos/visuais. Nem sempre todos estão presentes.
Manipulação quiroprática pode causar dissecção?
Sim — movimentos bruscos do pescoço, incluindo manipulação cervical, são fatores de risco reconhecidos para dissecção carotídea e vertebral. Não significa que toda manipulação cause dissecção, mas o risco existe.
Como é diagnosticada a dissecção de carótida?
A angiorressonância (AngioRM) é o exame de escolha — visualiza o hematoma intramural característico. A angiotomografia também é usada, especialmente em urgência.
A dissecção de carótida tem cura?
Na maioria dos casos, sim — cerca de 70-80% das artérias se recanalizam espontaneamente em 3 a 6 meses com tratamento clínico adequado. O prognóstico depende principalmente da extensão do AVC, se ocorreu.
Qual o tratamento da dissecção de carótida?
Anticoagulação ou antiagregação por 3 a 6 meses é a base. Em casos com estenose grave sintomática sem resposta clínica, pode-se considerar stent carotídeo.
Dissecção de carótida afeta jovens?
Sim — é tipicamente uma doença de adultos jovens (30-50 anos), sem os fatores de risco cardiovasculares clássicos da aterosclerose. Deve ser sempre considerada em AVC de adulto jovem.
Qual médico trata dissecção de carótida?
O cirurgião vascular avalia e trata a lesão arterial. O neurologista acompanha os déficits neurológicos. O manejo geralmente é multidisciplinar.
Dissecção de carótida pode acontecer após acidente de carro?
Sim — traumas cervicais por acidente de trânsito são uma das causas mais frequentes. Qualquer cefaleia ou sintoma neurológico após trauma cervical deve ser investigado.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui a consulta médica presencial. Cada paciente é único. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada.
Dr. Luís Antonio Dotta — CRM-SP 65772 / RQE 28296. Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular.








