Infarto Mesentérico: O Que É, Sintomas e Diferença de Isquemia
O infarto mesentérico é uma das emergências abdominais mais graves da medicina — com mortalidade que pode ultrapassar 50% nos casos diagnosticados tardiamente. O termo assusta, e com razão: assim como o infarto do miocárdio é a morte do músculo cardíaco por falta de sangue, o infarto mesentérico é a morte (necrose) do tecido intestinal por interrupção do fluxo sanguíneo mesentérico.
Mas existe uma distinção importante que todo paciente e familiar deve entender: o infarto mesentérico não é uma condição separada da isquemia mesentérica — é seu estágio mais avançado, quando o intestino já não pode ser salvo sem cirurgia. E é exatamente por isso que o reconhecimento precoce da isquemia, antes de evoluir para infarto, é literalmente a diferença entre a vida e a morte.
O que é infarto mesentérico?

O infarto mesentérico é a necrose — morte celular irreversível — do tecido intestinal causada pela interrupção prolongada do fluxo sanguíneo para o intestino. O intestino é extremamente sensível à falta de oxigênio: em poucas horas de isquemia grave, as células intestinais começam a morrer; em 6 a 12 horas, a necrose pode ser transmural (afeta toda a espessura da parede intestinal); e com a necrose, a barreira intestinal se rompe, bactérias intestinais invadem a cavidade abdominal e a corrente sanguínea — causando peritonite e sepse.
O infarto mesentérico pode ser causado tanto por obstrução arterial (falta de sangue chegando) quanto por obstrução venosa (sangue não consegue sair) — mas em ambos os casos, o resultado final é o mesmo: morte do tecido intestinal.
Infarto mesentérico x isquemia mesentérica: a diferença essencial
Esses dois termos são frequentemente confundidos — mas representam estágios diferentes da mesma doença:
- Isquemia mesentérica: redução do fluxo sanguíneo intestinal — o tecido está sofrendo por falta de oxigênio, mas ainda pode ser salvo se o fluxo for restaurado rapidamente. É o estágio reversível
- Infarto mesentérico: necrose intestinal estabelecida — o tecido já morreu, não pode ser recuperado. É o estágio irreversível. Requer ressecção cirúrgica do intestino necrosado
A “janela de oportunidade” — o tempo entre o início da isquemia e a evolução para infarto — é o que define o prognóstico. Para a maioria dos casos de embolia da artéria mesentérica superior, essa janela é de 6 a 12 horas. Após esse tempo, as chances de salvar o intestino caem drasticamente.
Causas do infarto mesentérico

Embolia arterial (causa mais comum)
Um êmbolo — geralmente originado no coração em fibrilação atrial ou num trombo ventricular pós-infarto — se aloja na artéria mesentérica superior, obstruindo abruptamente o fluxo para o intestino delgado. É a causa mais comum (cerca de 50% dos casos) e a que evolui mais rapidamente para infarto.
Trombose arterial sobre placa aterosclerótica
Em pacientes com aterosclerose avançada das artérias mesentéricas, uma placa instável pode se romper e formar um trombo, obstruindo a artéria. Tende a ter início um pouco menos abrupto que a embolia, pois a aterosclerose crônica desenvolve alguma circulação colateral ao longo do tempo.
Isquemia mesentérica não oclusiva
Ocorre sem obstrução vascular direta — em situações de baixo débito cardíaco grave (choque cardiogênico, choque séptico, insuficiência cardíaca descompensada), o fluxo mesentérico cai a ponto de causar isquemia por hipoperfusão global. Frequente em pacientes internados em UTI em estado crítico.
Trombose venosa mesentérica
Coágulo nas veias mesentéricas — causa evolução mais lenta para infarto, mas quando extensa pode levar à necrose intestinal da mesma forma.
Sintomas do infarto mesentérico
O quadro clínico evolui em fases:
Fase inicial (isquemia — ainda reversível)
- Dor abdominal intensa, súbita, periumbilical ou difusa
- A característica mais importante: dor desproporcional ao exame físico — a dor é intensa, mas o abdome ao toque ainda está mole, sem defesa muscular
- Náuseas e vômitos
- Diarreia, às vezes com sangue (sinal de sofrimento intestinal)
- Esvaziamento intestinal reflexo (evacuação ao início da dor)
Fase de necrose (infarto estabelecido — irreversível)
- Dor que paradoxalmente pode diminuir transitoriamente (o intestino necrótico não dói mais) — antes de aumentar novamente
- Abdome em tábua (defesa muscular intensa — peritonite)
- Febre alta
- Taquicardia e hipotensão (choque séptico)
- Distensão abdominal
- Sinais de sepse grave
Diagnóstico
Angiotomografia (AngioTC) de abdome
É o exame de escolha — realizado com urgência. Identifica:
- A obstrução vascular (êmbolo, trombo arterial ou venoso)
- Sinais de necrose intestinal: espessamento da parede intestinal, pneumatose (gás dentro da parede), gás portal (gás dentro das veias do fígado — sinal de necrose avançada e gravíssima)
- Extensão do território comprometido
- Líquido livre peritoneal (peritonite)
Exames laboratoriais
- Leucocitose intensa (infecção/necrose)
- Lactato elevado (marcador de isquemia tecidual — quanto mais alto, pior o prognóstico)
- D-dímero elevado
- Acidose metabólica (fase avançada)
- Elevação de enzimas intestinais (LDH, fosfatase alcalina)
Tratamento
Revascularização urgente (quando ainda há intestino viável)
- Embolectomia cirúrgica: retirada do êmbolo da artéria mesentérica por cirurgia — padrão para embolia aguda
- Trombólise ou trombectomia endovascular: dissolução ou aspiração do trombo por cateter — em casos selecionados
- Bypass mesentérico: cirurgia de revascularização quando há trombose sobre aterosclerose
Ressecção intestinal
Quando há necrose estabelecida, o intestino morto deve ser removido. A extensão da ressecção determina a qualidade de vida pós-operatória — ressecções extensas podem levar à síndrome do intestino curto, com dependência de nutrição parenteral.
Cirurgia de “second look”
Nas 24 a 48 horas após a cirurgia inicial, realiza-se uma segunda cirurgia para avaliar se o intestino remanescente está viável ou se há necessidade de nova ressecção. Essa estratégia permite ser mais conservador na ressecção inicial, evitando remover intestino que poderia ser recuperado.
Cuidados em UTI
Antibioticoterapia de amplo espectro, suporte hemodinâmico, anticoagulação (após a cirurgia) e nutrição parenteral fazem parte do cuidado intensivo desses pacientes.
Prognóstico
A mortalidade do infarto mesentérico é elevada — varia de 30% a 70% conforme a extensão da necrose, o tempo até o diagnóstico e as comorbidades do paciente. É uma das situações em que o diagnóstico precoce — ainda na fase de isquemia reversível — muda radicalmente o prognóstico. Pacientes diagnosticados e revascularizados antes da necrose têm mortalidade muito menor do que aqueles operados após necrose estabelecida.
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Avaliação vascular mesentérica em SP
O Dr. Luís Dotta (CRM 65772/SP – RQE 28296) avalia e trata doenças vasculares abdominais em três unidades em São Paulo:
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui a consulta médica presencial. Cada paciente é único. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada.
Dr. Luís Antonio Dotta — CRM-SP 65772 / RQE 28296. Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular.










