Veia Mesentérica: O Que É, Anatomia e Trombose Mesentérica

Veia Mesentérica: O Que É, Anatomia e Trombose Mesentérica

As veias mesentéricas são os vasos responsáveis por drenar o sangue do intestino e levá-lo ao fígado pela veia porta. São estruturas fundamentais para o funcionamento do sistema digestivo — e quando desenvolvem trombose, as consequências podem ser gravíssimas, incluindo necrose intestinal. Neste artigo vou explicar o que são as veias mesentéricas, sua anatomia, o que é a trombose mesentérica venosa e como ela se diferencia da isquemia mesentérica arterial.

O que são as veias mesentéricas?

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As veias mesentéricas fazem parte do sistema venoso portal — o sistema que drena todo o sangue vindo do trato digestivo para o fígado, antes que esse sangue chegue à circulação geral. Esse percurso permite que o fígado processe os nutrientes absorvidos no intestino, metabolize substâncias e filtre toxinas antes que entrem na circulação sistêmica.

As duas veias mesentéricas principais são:

Veia mesentérica superior (VMS)

É a maior e mais importante das duas. Drena todo o intestino delgado, o ceco, o cólon ascendente e o cólon transverso direito. Sobe pelo mesentério, paralelamente à artéria mesentérica superior, e se une à veia esplênica (que drena o baço e o pâncreas) para formar a veia porta hepática.

A VMS é o vaso venoso abdominal de maior relevância clínica após a veia porta e a veia cava inferior — sua trombose pode causar isquemia de extensas alças intestinais.

Veia mesentérica inferior (VMI)

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Drena o cólon descendente, o cólon sigmoide e o reto superior. Geralmente desemboca na veia esplênica (ou diretamente na veia porta em variações anatômicas). Tem menor calibre e menor relevância clínica isolada do que a VMS.

A veia porta: destino final das veias mesentéricas

A veia porta hepática é formada pela junção da veia mesentérica superior com a veia esplênica. Ela entra no fígado pelo hilo hepático e se ramifica progressivamente em sinusoides hepáticos, onde o sangue portal fica em contato íntimo com os hepatócitos para processamento.

O sistema portal é único no organismo: é um sistema de dois capilares em série — os capilares intestinais (onde os nutrientes são absorvidos) e os sinusoides hepáticos (onde são processados). Quando esse sistema fica obstruído — seja na veia mesentérica ou na veia porta — a pressão portal sobe, causando hipertensão portal com suas complicações (varizes esofágicas, ascite, caput medusae).

Trombose da veia mesentérica: o que é

A trombose da veia mesentérica (TVM) é a formação de coágulo dentro das veias mesentéricas — mais frequentemente na VMS. É uma condição grave que pode levar à isquemia e necrose do intestino quando o retorno venoso fica comprometido a ponto de impedir também o fluxo arterial para as alças intestinais.

Representa cerca de 5-15% de todos os casos de isquemia mesentérica aguda. Apesar de ser menos comum que a isquemia mesentérica arterial, tem mortalidade significativa — especialmente quando o diagnóstico é tardio.

Causas e fatores de risco para trombose mesentérica venosa

Trombofilias hereditárias

São a causa mais importante em pacientes jovens sem outras comorbidades:

  • Fator V de Leiden (mutação que causa resistência à proteína C ativada)
  • Mutação do gene da protrombina G20210A
  • Deficiência de proteína C ou proteína S
  • Deficiência de antitrombina III

Neoplasias

Tumores abdominais e pélvicos — especialmente pancreáticos, colorretais e hepáticos — podem comprimir as veias mesentéricas ou promover estado de hipercoagulabilidade paraneoplásica.

Doenças inflamatórias intestinais

Doença de Crohn e retocolite ulcerativa aumentam o risco de trombose mesentérica, especialmente durante as exacerbações.

Cirrose e hipertensão portal

A hipertensão portal com fluxo portal reduzido e estase favorece a formação de trombo na veia porta e nas veias mesentéricas.

Infecções e inflamações abdominais

Apendicite, diverticulite, pancreatite e abscessos abdominais podem causar trombose mesentérica por propagação inflamatória à parede venosa.

Cirurgias abdominais recentes

O trauma cirúrgico e a imobilidade pós-operatória aumentam o risco.

Uso de anticoncepcionais orais

O estrogênio aumenta o estado de hipercoagulabilidade — especialmente quando associado a outras trombofilias.

Sintomas da trombose mesentérica venosa

A apresentação clínica depende da extensão da trombose e da velocidade de instalação:

Forma aguda

  • Dor abdominal de instalação relativamente súbita, mas frequentemente menos abrupta do que na isquemia arterial aguda
  • A dor pode ser desproporcional aos achados do exame físico nas fases iniciais — “abdome mole mas dor intensa”
  • Náuseas, vômitos e diarreia (às vezes com sangue)
  • Febre baixa
  • Com a progressão para necrose intestinal: dor mais intensa, abdome em tábua, sinais de peritonite e choque séptico

Forma subaguda e crônica

  • Dor abdominal vaga e intermitente por semanas
  • Pode ser assintomática e descoberta incidentalmente em exame de imagem
  • Evolução para hipertensão portal com varizes esofágicas

Diagnóstico da trombose mesentérica venosa

Angiotomografia (AngioTC) de abdome com contraste

É o exame de escolha — identifica o trombo dentro das veias mesentéricas (hipodensidade intraluminal), avalia a extensão do envolvimento, identifica alças intestinais isquêmicas (espessamento da parede, pneumatose, gás portal) e descarta outras causas de dor abdominal aguda.

Ultrassom com Doppler abdominal

Pode identificar ausência de fluxo nas veias mesentéricas e na veia porta, mas tem menor sensibilidade que a AngioTC — especialmente quando há muito gás intestinal.

Arteriografia mesentérica

Raramente necessária para diagnóstico; pode ser usada quando se planeja tratamento endovascular.

Diferença entre trombose mesentérica venosa e isquemia mesentérica arterial

  • Trombose venosa mesentérica: início mais gradual, dor menos abrupta, mais frequente em jovens com trombofilias, tratamento inicial com anticoagulação
  • Isquemia arterial mesentérica (embolismo ou trombose arterial): início muito abrupto, dor intensa desde o início, mais frequente em idosos com cardiopatia ou aterosclerose, tratamento com revascularização urgente

Tratamento da trombose mesentérica venosa

Anticoagulação

É o pilar do tratamento nas formas sem necrose intestinal estabelecida. Heparina intravenosa na fase aguda, seguida de anticoagulante oral por período prolongado (geralmente 6 meses a indefinido, conforme a causa identificada). A anticoagulação precoce melhora o prognóstico significativamente.

Trombólise dirigida por cateter

Em casos selecionados com trombose extensa e sem resposta à anticoagulação, pode-se realizar infusão de trombolítico diretamente na veia mesentérica por cateter transhepático.

Cirurgia

Reservada para os casos com necrose intestinal estabelecida — ressecção das alças comprometidas. É a situação de maior mortalidade, reforçando a importância do diagnóstico precoce.

Avaliação vascular abdominal especializada em SP

O Dr. Luís Dotta (CRM 65772/SP – RQE 28296) avalia doenças das veias abdominais em três unidades em São Paulo:

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Perguntas Frequentes

O que é a veia mesentérica?

É a veia que drena o sangue do intestino para o fígado pelo sistema portal. A veia mesentérica superior drena o intestino delgado e parte do cólon; a inferior drena o cólon esquerdo e o reto.

O que é trombose da veia mesentérica?

É a formação de coágulo dentro das veias mesentéricas, que pode comprometer o retorno venoso do intestino e levar à isquemia intestinal. Pode ser aguda (com risco de necrose) ou crônica (com evolução para hipertensão portal).

Trombose mesentérica é grave?

Sim — especialmente a forma aguda, que pode evoluir para necrose intestinal com alta mortalidade. O diagnóstico precoce e anticoagulação imediata melhoram significativamente o prognóstico.

Quais os sintomas de trombose mesentérica?

Dor abdominal de início gradual a moderado (diferente da isquemia arterial), náuseas, vômitos e às vezes diarreia com sangue. Com progressão: peritonite, febre alta e choque.

Como é diagnosticada a trombose mesentérica?

A angiotomografia (AngioTC) de abdome com contraste é o exame de escolha — identifica o trombo nas veias mesentéricas e avalia a extensão da isquemia intestinal.

Qual o tratamento da trombose mesentérica?

Anticoagulação (heparina na fase aguda, seguida de anticoagulante oral prolongado) é o tratamento principal nas formas sem necrose. Cirurgia para ressecção das alças necrosadas quando necessário.

Trombose mesentérica venosa e isquemia mesentérica são a mesma coisa?

Não. A trombose mesentérica venosa afeta as veias (retorno venoso do intestino). A isquemia mesentérica arterial afeta as artérias (suprimento de sangue ao intestino). Causas, sintomas e tratamentos são diferentes.

Quem tem mais risco de trombose mesentérica?

Jovens com trombofilias hereditárias, pacientes com doenças inflamatórias intestinais, cirrose, câncer abdominal, pós-operatório de cirurgia abdominal e usuárias de anticoncepcionais com outros fatores de risco.

Veia mesentérica e veia porta são a mesma coisa?

Não. A veia porta é formada pela junção da veia mesentérica superior com a veia esplênica. As veias mesentéricas são tributárias da veia porta.

Qual médico trata trombose mesentérica?

O cirurgião vascular realiza o diagnóstico e tratamento endovascular quando indicado. O cirurgião geral realiza a ressecção intestinal quando há necrose. O hematologista investiga trombofilias subjacentes.


Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui a consulta médica presencial. Cada paciente é único. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada.

Dr. Luís Antonio Dotta — CRM-SP 65772 / RQE 28296. Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular.