Aneurisma da Aorta

Aneurisma da Aorta: o que é, sintomas, diagnóstico e quando operar

O aneurisma da aorta é uma das condições que mais me preocupam na prática da cirurgia vascular — não porque seja impossível de tratar, mas porque frequentemente não dá avisos antes de romper. Ao longo de mais de trinta anos operando pacientes em São Paulo, já vi casos em que o diagnóstico foi feito por acaso, em um exame pedido por outra razão — e a cirurgia eletiva realizada com segurança. Também vi casos em que a ruptura foi a primeira manifestação. A diferença entre esses dois desfechos é, muitas vezes, o rastreamento precoce.

Este artigo explica o que é o aneurisma da aorta, como ele se desenvolve, quais são os sintomas — quando existem — como é feito o diagnóstico e quando a cirurgia é necessária.


O que é um aneurisma?

Um aneurisma é a dilatação permanente e localizada de uma artéria, com aumento de pelo menos 50% em relação ao diâmetro normal esperado para aquele vaso. Em termos simples: é quando a parede da artéria enfraquece e “infla” — como um balão sendo soprado dentro de uma mangueira que perdeu resistência.

Diferente de uma estenose (estreitamento), o aneurisma é um alargamento do vaso. Quanto maior o diâmetro do aneurisma, maior a tensão sobre a parede arterial — e maior o risco de ruptura. A lei de Laplace explica isso: a tensão na parede é proporcional ao raio do vaso e à pressão interna. Um aneurisma que dobra de diâmetro tem quatro vezes mais tensão nas paredes.

Existem dois tipos morfológicos principais:

  • Aneurisma fusiforme: dilatação simétrica de um segmento da artéria, como um fuso. É a forma mais comum. Toda a circunferência do vaso está dilatada
  • Aneurisma sacular: dilatação assimétrica, em forma de bolsa que projeta de um lado da artéria. Menos comum, mas geralmente associado a maior risco de ruptura pelo formato irregular da tensão na parede

O que é aneurisma da aorta?

A aorta é a maior artéria do corpo humano — sai do coração, arco pelo tórax (aorta torácica) e desce pelo abdômen (aorta abdominal) até se bifurcar nas artérias ilíacas comuns, que irrigam as pernas.

O aneurisma da aorta abdominal (AAA) é o mais comum — responde por cerca de 75% de todos os aneurismas da aorta. Ocorre abaixo das artérias renais, na porção inferior da aorta abdominal. O diâmetro normal da aorta abdominal em adultos é de 2 cm. Um AAA é definido quando o diâmetro ultrapassa 3 cm.

O aneurisma da aorta torácica (AAT) é menos comum e acomete o segmento da aorta dentro do tórax — pode ser ascendente (entre o coração e o arco), no arco aórtico ou descendente (da crossa até o diafragma).

Vale detalhar que o aneurisma da aorta toracica, embora menos comum que o abdominal, tambem merece mencao — costuma ser identificado incidentalmente em exames de imagem realizados por outros motivos, ja que raramente causa sintomas ate atingir tamanho significativo. Seus criterios de rastreamento e tratamento seguem principios semelhantes aos do aneurisma abdominal, mas com limiares de tamanho e tecnicas cirurgicas especificas para essa localizacao anatomica.

O que causa o aneurisma da aorta?

A causa mais comum é a aterosclerose — o acúmulo de placas na parede arterial que degrada progressivamente a camada média da artéria, responsável pela resistência e elasticidade do vaso. Com o enfraquecimento da parede, a pressão sanguínea age continuamente expandindo o diâmetro.

Outras causas incluem:

  • Doenças do tecido conjuntivo: síndrome de Marfan, síndrome de Ehlers-Danlos — afetam a estrutura proteica da parede arterial e causam aneurismas em pessoas jovens
  • Hipertensão arterial crônica: o estresse hemodinâmico acelerado danifica progressivamente a parede aórtica
  • Tabagismo: é o principal fator de risco modificável para AAA — fumantes têm 3 a 5 vezes mais risco de desenvolver aneurisma abdominal
  • Predisposição genética: parentes de primeiro grau de pacientes com AAA têm risco 15 a 25% maior de desenvolver a condição
  • Infecções (aneurismas micóticos): raros, causados por infecções bacterianas que destroem a parede arterial
  • Trauma: pode causar pseudoaneurismas em pontos de lesão arterial

Alem da aterosclerose, causa mais comum, outros fatores contribuem para o enfraquecimento da parede aortica: processos inflamatorios da propria parede arterial, infeccoes raras (aneurisma micotico), e doencas geneticas do tecido conjuntivo como a sindrome de Marfan, que predispoe a aneurismas em idade mais precoce e com comportamento mais agressivo do que os casos ateroscleroticos tipicos da populacao idosa.

Sintomas do aneurisma da aorta

Esta é a característica mais perigosa do aneurisma da aorta: na maioria dos casos, não causa sintomas enquanto está crescendo lentamente. A maioria dos AAAs é descoberta incidentalmente — em ultrassonografia ou tomografia pedida por outro motivo.

Quando o aneurisma causa sintomas

Quando sintomas aparecem, geralmente indicam que o aneurisma está crescendo rapidamente, comprimindo estruturas adjacentes ou em iminência de ruptura:

  • Dor abdominal: dor surda, constante ou pulsátil no abdômen — especialmente na região periumbilical ou lombar. Pode ser confundida com dor muscular lombar
  • Sensação de pulsação no abdômen: muitos pacientes descrevem sentir o “coração batendo na barriga” — é a pulsação do aneurisma percebida através da parede abdominal
  • Dor lombar: quando o aneurisma comprime estruturas posteriores ou as raízes nervosas lombares
  • Dor irradiada para a virilha ou coxa: pode mimetizar cólica renal ou dor ciática

Ruptura do aneurisma — a emergência mais grave da cirurgia vascular

A ruptura do aneurisma da aorta é uma catástrofe cirúrgica — mortalidade de 65 a 90% quando ocorre fora do ambiente hospitalar. Mesmo com cirurgia de emergência, a mortalidade ainda é de 40 a 50%.

Os sinais clássicos da ruptura são:

  • Dor abdominal ou lombar súbita e intensa — “a pior dor da minha vida”
  • Hipotensão (pressão arterial muito baixa) e choque
  • Massa pulsátil palpável no abdômen
  • Palidez intensa, sudorese e perda de consciência

Se você ou alguém próximo apresentar dor abdominal ou lombar intensa e súbita com queda de pressão e palidez — ligue 192 (SAMU) imediatamente. Cada minuto conta.


Aneurisma da Aorta doutor luis dotta

Fatores de risco — quem deve fazer rastreamento

Os grupos com indicação de rastreamento para aneurisma da aorta abdominal, segundo as principais diretrizes internacionais:

  • Homens entre 65 e 75 anos com histórico de tabagismo — rastreamento com ultrassonografia abdominal uma vez na vida (recomendação USPSTF grau B)
  • Parentes de primeiro grau de pacientes com AAA — especialmente irmãos e filhos acima de 55 anos
  • Pacientes com DAOP estabelecida — a aterosclerose sistêmica aumenta o risco de AAA associado
  • Pacientes com síndrome de Marfan ou outras doenças do tecido conjuntivo — rastreamento desde jovem
  • Qualquer paciente com massa pulsátil palpável no abdômen — investigação imediata

O rastreamento com ultrassom, quando indicado a esse grupo especifico, e um exame unico e simples — nao invasivo, sem preparo especial na maioria dos casos, e realizado em poucos minutos. Diferente de exames que precisam ser repetidos anualmente para toda a populacao de risco, muitas diretrizes recomendam que, se o rastreamento inicial for normal, nao ha necessidade de repeticao rotineira, ja que o aneurisma da aorta abdominal raramente se desenvolve apos avaliacao inicial normal em idade avancada.

Como diagnosticar aneurisma da aorta

O exame de rastreamento de escolha é a ultrassonografia abdominal — simples, sem radiação, barata e com excelente sensibilidade para detectar AAA. É o exame recomendado para rastreamento populacional nos grupos de risco.

Para planejamento cirúrgico ou quando se suspeita de aneurisma torácico, os exames de imagem mais detalhados são utilizados:

  • Angiotomografia (angioTC) de aorta: fornece imagem tridimensional completa, com medidas precisas do diâmetro máximo, extensão, relação com as artérias renais e ilíacas, e morfologia do colo do aneurisma — fundamental para planejamento do EVAR
  • Ultrassonografia com Doppler: avalia fluxo e morfologia. Útil para acompanhamento de aneurismas pequenos sem necessidade de repetição de TC
  • Ressonância magnética: alternativa em pacientes alérgicos ao contraste iodado

Quando operar o aneurisma da aorta?

A decisão de operar depende do diâmetro do aneurisma, da velocidade de crescimento, dos sintomas e das condições clínicas do paciente. As diretrizes internacionais são relativamente uniformes:

Diâmetro do AAAConduta recomendadaIntervalo de acompanhamento
< 4,0 cmVigilância com ultrassonografiaA cada 2–3 anos
4,0 a 4,9 cmVigilância com ultrassonografiaA cada 12 meses
5,0 a 5,4 cmVigilância com imagem + discussão sobre cirurgiaA cada 6 meses
≥ 5,5 cm em homens / ≥ 5,0 cm em mulheresCirurgia eletiva indicada—
Crescimento > 1 cm em 12 mesesCirurgia independente do diâmetro—
Sintomático (dor) ou em rupturaCirurgia de emergência imediata—

As mulheres têm indicação cirúrgica em diâmetros menores porque a relação entre diâmetro e risco de ruptura é diferente — a aorta feminina é naturalmente mais estreita, então 5,0 cm representa uma dilatação proporcionalmente maior.


A decisao de quando operar considera tambem a expectativa de vida e as condicoes clinicas gerais do paciente — em pacientes com comorbidades significativas que elevam muito o risco cirurgico, o limiar de tamanho para indicar cirurgia pode ser ajustado individualmente, sempre ponderando o risco da propria intervencao contra o risco de ruptura naquele paciente especifico ao longo do tempo restante de vida esperado.

Tratamentos para aneurisma da aorta

EVAR — Endovascular Aneurysm Repair (reparo endovascular)

O EVAR é atualmente o tratamento de primeira escolha para a maioria dos aneurismas da aorta abdominal com anatomia favorável. Consiste na introdução de uma endoprótese (stent-graft) — um tubo metálico revestido de tecido — pela artéria femoral, sem necessidade de abrir o abdômen. A endoprótese é posicionada dentro do aneurisma por fluoroscopia (raio-X em tempo real) e se expande para excluir o aneurisma da circulação, eliminando a pressão sobre a parede dilatada.

As vantagens do EVAR sobre a cirurgia aberta são significativas: menor tempo cirúrgico, recuperação mais rápida, menos dor pós-operatória, menor perda sanguínea e menor mortalidade perioperatória. A alta hospitalar ocorre geralmente em 2 a 3 dias.

O EVAR tambem apresenta vantagens claras na recuperacao: enquanto a cirurgia aberta costuma exigir internacao de vários dias e semanas de recuperacao completa, o EVAR permite alta hospitalar mais rapida, geralmente em dois a tres dias, com retorno as atividades habituais significativamente mais acelerado — vantagens que precisam ser ponderadas contra a necessidade de acompanhamento de imagem continuo ja discutido anteriormente neste artigo.

Cirurgia aberta convencional

A cirurgia aberta — com acesso pela laparotomia mediana, clampeamento da aorta e substituição do segmento aneurismático por prótese sintética (Dacron ou PTFE) — é indicada quando a anatomia não é favorável ao EVAR ou quando há necessidade de revascularização de artérias viscerais concomitante. É uma cirurgia de maior porte, com recuperação mais longa (5 a 7 dias de internação), mas com excelente durabilidade a longo prazo.

Tratamento clínico — para aneurismas pequenos

Para aneurismas abaixo do limiar cirúrgico, o tratamento é clínico e de vigilância:

  • Controle rigoroso da pressão arterial (meta abaixo de 130/80 mmHg)
  • Cessação imediata do tabagismo — a medida de maior impacto na velocidade de crescimento do aneurisma
  • Estatinas — reduzem a inflamação da parede arterial
  • Acompanhamento com imagem em intervalos definidos pelo diâmetro
  • Evitar exercícios de alta intensidade com manobra de Valsalva (levantamento de peso muito pesado)

Aneurisma em outras artérias

Além da aorta, o cirurgião vascular trata aneurismas em outras artérias periféricas:

Aneurisma da artéria poplítea

É o aneurisma periférico mais comum — ocorre na artéria poplítea, atrás do joelho. Diferente do AAA, o risco maior não é ruptura, mas trombose e embolia distal — o coágulo que se forma dentro do aneurisma pode se desprender e obstruir artérias menores do pé, causando isquemia aguda do membro. O tratamento é cirúrgico quando o aneurisma é sintomático ou acima de 2 cm.

Aneurisma das artérias ilíacas

Frequentemente associados ao AAA — muitos aneurismas da aorta se estendem para as artérias ilíacas comuns. São geralmente assintomáticos e descobertos incidentalmente em exames de imagem. O tratamento é realizado em conjunto com o tratamento do AAA quando presente.


Perguntas Frequentes sobre Aneurisma da Aorta

Aneurisma da aorta tem cura?

Sim — com tratamento cirúrgico adequado, o aneurisma pode ser tratado de forma definitiva. O EVAR ou a cirurgia aberta excluem o aneurisma da circulação, eliminando o risco de ruptura. Para aneurismas pequenos abaixo do limiar cirúrgico, o objetivo é impedir a progressão com controle dos fatores de risco e vigilância com imagem. A aterosclerose subjacente não tem cura, mas o aneurisma em si tem tratamento eficaz quando abordado eletivamente.

Aneurisma na barriga incha o abdômen?

O aneurisma da aorta abdominal não causa distensão visível do abdômen — a aorta fica no plano retroperitoneal, profunda no abdômen. O que alguns pacientes percebem é uma sensação de pulsação ou “batida” no abdômen, que pode ser sentida ao apoiar a mão na região periumbilical. Em pessoas muito magras, em casos de aneurismas muito grandes, uma massa pulsátil pode ser palpável ao exame físico — mas isso não é “inchaço” no sentido usual da palavra.

O que é aneurisma fusiforme?

Aneurisma fusiforme é aquele em que toda a circunferência da artéria está dilatada de forma simétrica, com aspecto alongado em forma de fuso. É a morfologia mais comum dos aneurismas da aorta. O oposto é o aneurisma sacular, em que a dilatação é assimétrica — uma bolsa se projeta de um lado da artéria. Os saculares são considerados de maior risco de ruptura por causa da distribuição irregular de tensão na parede.

Qual médico trata aneurisma da aorta?

O aneurisma da aorta abdominal e das artérias periféricas é tratado pelo cirurgião vascular — tanto na modalidade endovascular (EVAR) quanto na cirurgia aberta convencional. O aneurisma da aorta torácica (especialmente o ascendente e do arco) pode ser tratado por cirurgião cardiovascular ou em equipe conjunta vascular e cardiovascular, dependendo da localização e complexidade. No ambulatório, o diagnóstico por imagem é feito em conjunto com radiologia vascular e intervencionista.

Aneurisma de aorta é perigoso?

Sim — especialmente quando não tratado no momento certo. Um AAA de 6 cm tem risco anual de ruptura de 10 a 25%. Um AAA acima de 8 cm tem risco anual de mais de 30%. A ruptura do aneurisma tem mortalidade de 65 a 90% sem cirurgia de emergência. Por isso, o rastreamento em grupos de risco e o acompanhamento criterioso em aneurismas menores são fundamentais para tratar no momento certo — eletivamente, com muito mais segurança do que em uma emergência.

O que é EVAR?

EVAR (Endovascular Aneurysm Repair) é o reparo endovascular do aneurisma da aorta — a técnica minimamente invasiva em que uma endoprótese (stent-graft) é introduzida pela artéria femoral e posicionada dentro do aneurisma por fluoroscopia, sem necessidade de abrir o abdômen. É atualmente a técnica de primeira escolha para AAA com anatomia favorável, com menor mortalidade perioperatória e recuperação mais rápida que a cirurgia aberta convencional.

Aneurisma da aorta pode ser confundido com dor lombar?

Sim — e essa confusão pode ser fatal. A dor lombar é um dos sintomas de AAA sintomático ou em expansão rápida, e é frequentemente interpretada como problema muscular ou hérnia de disco. O diagnóstico diferencial é importante: dor lombar pulsátil, associada a fatores de risco cardiovascular (tabagismo, hipertensão, idade acima de 60 anos) e sem relação com movimentos da coluna merece investigação com ultrassonografia abdominal. Em caso de dúvida, sempre peça o exame.

Aneurisma da aorta tem sintomas?

Na maioria dos casos, não — enquanto cresce lentamente, o AAA é completamente silencioso. Quando sintomas aparecem — dor abdominal ou lombar constante, sensação de pulsação no abdômen, dor irradiada para a virilha — indicam que o aneurisma está crescendo rapidamente ou comprimindo estruturas adjacentes. Esses são sinais de urgência que exigem avaliação imediata. A ausência de sintomas é a razão pela qual o rastreamento nos grupos de risco é tão importante.

Fumar aumenta o risco de aneurisma?

Sim — de forma muito significativa. O tabagismo é o principal fator de risco modificável para o aneurisma da aorta abdominal. Fumantes têm 3 a 5 vezes mais risco de desenvolver AAA em comparação com não fumantes. Além disso, o tabagismo acelera o crescimento do aneurisma já estabelecido. A cessação do tabagismo é a medida de maior impacto tanto na prevenção do desenvolvimento quanto no controle da progressão do AAA.

Aneurisma da aorta pode aparecer em jovens?

Sim, mas é incomum. Em jovens, o aneurisma da aorta é mais frequentemente associado a doenças do tecido conjuntivo — como síndrome de Marfan (mutação no gene da fibrilina-1, que afeta a elasticidade da parede aórtica), síndrome de Ehlers-Danlos vascular e outras colagenoses. Nesses casos, o rastreamento deve ser feito desde o diagnóstico da doença de base. Traumas graves também podem causar pseudoaneurismas traumáticos em qualquer faixa etária. AAA aterosclerótico em jovens — abaixo de 50 anos sem doenças do tecido conjuntivo — é raro.



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⚖️ Aviso Legal: Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui, em hipótese alguma, a consulta médica presencial, o diagnóstico ou o tratamento profissional. Cada paciente é único e os resultados de tratamentos podem variar significativamente de acordo com a condição clínica, resposta individual ao tratamento e adesão às orientações médicas. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada da sua condição de saúde.

✍️ Dr. Luís Antonio Dotta | CRM 65772/SP | RQE 28296 | Especialista em Angiologia, Cirurgia Vascular e Cirurgia Cardiovascular | Publicado em: Abril de 2026 | Revisado em: Abril de 2026

Por Que a Vigilância Ativa é Segura Para Aneurismas Pequenos

Uma dúvida frequente entre pacientes com aneurisma pequeno em acompanhamento é entender por que a vigilância periódica é tão importante, mesmo sem qualquer sintoma perceptível — já que a ideia de “conviver” com uma dilatação arterial sem tratamento imediato pode gerar ansiedade compreensível.

Por que aneurismas pequenos não são operados imediatamente

Para aneurismas abaixo do limiar cirúrgico, o risco da cirurgia — mesmo minimamente invasiva com EVAR — supera o risco de ruptura naquele tamanho específico. Estudos robustos demonstraram que operar precocemente aneurismas pequenos não traz benefício de sobrevida em comparação à vigilância ativa, já que o risco cirúrgico, embora baixo, ainda é maior que o risco de ruptura de um aneurisma pequeno e estável.

Como funciona a vigilância periódica

O protocolo de vigilância envolve exames de imagem — geralmente ultrassonografia — repetidos em intervalos definidos conforme o tamanho atual do aneurisma: a cada seis meses a um ano para aneurismas próximos ao limiar cirúrgico, e a cada um a três anos para aneurismas menores e mais estáveis. Esse acompanhamento permite identificar precocemente qualquer aceleração no crescimento que justifique reavaliar o momento cirúrgico.

Acompanhamento Pós-EVAR: Por Que é Diferente da Cirurgia Aberta

Uma dúvida técnica relevante entre pacientes que vão passar por EVAR é sobre o acompanhamento pós-operatório específico dessa técnica — diferente do que ocorre após a cirurgia aberta convencional.

Por que o EVAR exige acompanhamento de imagem contínuo

Diferente da cirurgia aberta, onde o segmento aneurismático é fisicamente substituído, o EVAR posiciona uma endoprótese dentro do vaso, isolando o aneurisma da circulação sem removê-lo fisicamente. Por isso, o acompanhamento com exames de imagem periódicos — geralmente angiotomografia — é essencial ao longo de toda a vida do paciente, para monitorar a posição e a integridade da endoprótese e identificar precocemente eventual vazamento (endoleak).

O que é o endoleak e por que é monitorado

O endoleak é o fluxo sanguíneo persistente dentro do saco aneurismático apesar da presença da endoprótese — pode ocorrer por diferentes mecanismos e, dependendo do tipo, pode exigir intervenção adicional para corrigir. É justamente por esse risco, ausente na cirurgia aberta convencional, que o EVAR exige vigilância de imagem mais rigorosa e contínua ao longo dos anos após o procedimento.

Componente Genético: Por Que o Histórico Familiar Importa Tanto

Uma dúvida frequente entre familiares de pacientes com aneurisma da aorta é sobre o componente genético da condição — já que o histórico familiar é um dos fatores de risco mais consistentemente associados ao desenvolvimento dessa doença.

Por que familiares de primeiro grau têm maior risco

Ter um parente de primeiro grau (pai, mãe, irmão) com aneurisma da aorta abdominal aumenta significativamente o risco pessoal de desenvolver a mesma condição — estudos mostram risco várias vezes maior em comparação à população geral sem esse histórico familiar. Esse componente genético, combinado aos fatores de risco modificáveis já discutidos (tabagismo, hipertensão), reforça a importância do rastreamento precoce nessa população específica.

Recomendação de rastreamento para familiares

Para familiares de primeiro grau de pacientes com aneurisma diagnosticado, a recomendação geral é considerar rastreamento com ultrassonografia abdominal mais cedo do que a população geral, especialmente homens acima de 50 anos com esse histórico familiar — uma conversa que vale a pena ter com o cirurgião vascular mesmo na ausência de qualquer sintoma.

Vida Cotidiana Durante a Vigilância do Aneurisma

Uma dúvida bastante prática entre pacientes diagnosticados é sobre o que muda na vida cotidiana após o diagnóstico de aneurisma da aorta, especialmente durante o período de vigilância antes de qualquer decisão cirúrgica.

Atividade física é permitida?

Atividades físicas moderadas geralmente são permitidas e até recomendadas para pacientes com aneurisma em vigilância, já que contribuem para o controle de fatores de risco cardiovascular como pressão arterial e peso. O que costuma ser desaconselhado são exercícios de esforço muito intenso e repentino, como levantamento de peso máximo, que podem elevar abruptamente a pressão arterial — a orientação específica deve sempre ser individualizada pelo cirurgião vascular conforme o tamanho e características do aneurisma.

Controle rigoroso da pressão arterial

Manter a pressão arterial bem controlada é uma das medidas mais importantes para retardar o crescimento do aneurisma — picos hipertensivos aumentam diretamente a tensão sobre a parede já enfraquecida da artéria. O acompanhamento com cardiologista, quando necessário, e a adesão rigorosa à medicação anti-hipertensiva prescrita são parte essencial do manejo, tão importante quanto o próprio acompanhamento vascular.

A importância absoluta de parar de fumar

Para fumantes com aneurisma diagnosticado, parar de fumar é, sem exagero, uma das medidas mais impactantes disponíveis — o tabagismo acelera diretamente o crescimento do aneurisma através de múltiplos mecanismos que degradam a parede arterial. Interromper o hábito, mesmo após anos de tabagismo, ainda traz benefício real na redução da velocidade de progressão.

Considerações Finais sobre o Aneurisma da Aorta

Encerro este artigo com uma mensagem central sobre o aneurisma da aorta: é uma condição frequentemente silenciosa, mas altamente tratável quando identificada a tempo através do rastreamento adequado — o maior risco não está no diagnóstico em si, mas em não saber que a condição existe até um evento de ruptura, que tem mortalidade extremamente elevada.

Se você tem 65 anos ou mais e histórico de tabagismo, ou histórico familiar de aneurisma, converse com seu médico sobre a necessidade de um ultrassom de rastreamento — um exame simples, rápido e capaz de identificar precocemente uma condição que, sem tratamento, pode ter consequências fatais. Um cirurgião vascular pode orientar sobre o rastreamento adequado e, quando necessário, sobre as opções de tratamento disponíveis.