Nos anos de consultório de cirurgia vascular, uma queixa que encontro com certa frequência em mulheres jovens é a dor no baixo ventre que piora ao ficar muito tempo em pé, ao sentar por longos períodos ou após relações sexuais — e que não tem explicação ginecológica clara. Muitas dessas pacientes passam por anos de investigação, fazem ultrassonografias, tomografias, laparoscopias, até que alguém cogita a hipótese correta: varizes pélvicas.
As varizes pélvicas — também chamadas de síndrome de congestão pélvica — são veias dilatadas e incompetentes dentro da pelve, ao redor do útero e dos ovários. São menos conhecidas que as varizes das pernas, mas igualmente reais, mensuráveis e tratáveis. Este artigo explica tudo o que você precisa saber.
O que são varizes pélvicas?
As varizes pélvicas são veias ovarianas e uterinas dilatadas, tortuosas e com válvulas incompetentes — da mesma forma que as varizes das pernas, mas localizadas dentro da pelve. Por estarem em posição profunda, não são visíveis a olho nu e frequentemente não aparecem nos exames ginecológicos de rotina.
A veia ovariana esquerda é o vaso mais comumente afetado — ela drena para a veia renal esquerda em ângulo reto, gerando maior resistência ao fluxo e predisposição ao refluxo venoso. Quando as válvulas dessas veias falham, o sangue se acumula nas veias pélvicas — a chamada síndrome de congestão pélvica (SCP).
Quem tem mais risco?
- Multiparidade: múltiplas gestações sobrecarregam o sistema venoso ovariano — é o principal fator de risco
- Gravidez: o fluxo nas veias ovarianas aumenta 60 vezes durante a gestação
- Síndrome de nutcracker: compressão da veia renal esquerda entre a aorta e a artéria mesentérica superior
- Síndrome de May-Thurner: compressão da veia ilíaca esquerda pela artéria ilíaca direita
- Predisposição genética para fragilidade das válvulas venosas
Sintomas das varizes pélvicas
- Dor no baixo ventre crônica — em peso, persistente por mais de 6 meses
- Piora da dor após longos períodos em pé ou sentada — melhora ao deitar (especialmente em decúbito ventral)
- Dismenorreia intensa — cólicas menstruais muito mais fortes que o habitual
- Dispareunia — dor durante ou após a relação sexual
- Urgência miccional — pressão das varizes sobre a bexiga
- Varizes visíveis na vulva, vagina, nádegas ou face interna das coxas
- Sensação de distensão abdominal ao final do dia
Como diagnosticar varizes pélvicas
A ultrassonografia pélvica convencional realizada com a paciente deitada frequentemente não detecta as varizes pélvicas — o decúbito dorsal descomprime as veias ovarianas. É necessário Doppler pélvico com manobra de Valsalva — a paciente realiza esforço durante o exame, evidenciando o refluxo. O exame deve ser solicitado especificamente com essa técnica.
- Ultrassom com Doppler pélvico (com manobra de Valsalva): primeira linha — vasos acima de 5 mm com refluxo confirmam o diagnóstico
- Ressonância magnética da pelve: excelente para visualizar as varizes e afastar outras causas
- Angiotomografia pélvica: detalha a anatomia venosa para planejamento do tratamento
- Flebografia ovariana: padrão-ouro — geralmente realizada durante o próprio procedimento de embolização
Tratamento das varizes pélvicas
Embolização das veias ovarianas — tratamento de referência
A embolização transcateter das veias ovarianas é o tratamento de primeira escolha para varizes pélvicas sintomáticas. Um cateter é introduzido pela veia femoral, navegado até as veias ovarianas e materiais embolizantes — molas metálicas ou agentes esclerosantes — ocluem as veias incompetentes. Procedimento com sedação leve, sem cortes, alta geralmente no mesmo dia. Eficácia de 70 a 85% das pacientes.
Tratamento clínico
Medroxiprogesterona, analgésicos, flebotônicos (diosmina + hesperidina) e orientação postural para casos leves ou como complemento.
Varizes pélvicas e varizes nas pernas — a relação oculta
Varizes pélvicas podem ser a causa oculta de varizes nas pernas que recidivam após tratamento. As veias pélvicas se comunicam com as veias das pernas — especialmente na face interna das coxas e vulva. Quando há refluxo pelas veias ovarianas, esse sangue “escapa” para as pernas alimentando varizes atípicas. Tratar apenas as varizes visíveis sem corrigir a fonte pélvica é a principal causa de recidiva precoce nesses casos.
Perguntas Frequentes sobre Varizes Pélvicas
Varizes pélvicas são graves?
As varizes pélvicas não representam risco de vida imediato, mas causam impacto significativo na qualidade de vida. A dor pélvica crônica e a dispareunia podem ser incapacitantes. O diagnóstico e tratamento corretos permitem controle eficaz dos sintomas.
Varizes no útero podem matar?
As varizes pélvicas não costumam causar risco de vida. Em situações muito raras pode ocorrer ruptura com sangramento interno. A complicação mais relevante é a tromboflebite pélvica, que em casos raros pode embolizar para os pulmões.
Qual médico trata varizes pélvicas?
O cirurgião vascular intervencionista realiza o diagnóstico endovascular e o tratamento por embolização. O ginecologista participa do diagnóstico diferencial afastando endometriose, miomas e DIP.
Como é a embolização de varizes pélvicas?
Procedimento minimamente invasivo com sedação leve, sem cortes. Um cateter é introduzido pela veia femoral e navegado até as veias ovarianas. Materiais embolizantes ocluem as veias incompetentes. Dura 60 a 90 minutos, alta geralmente no mesmo dia, retorno às atividades em 3 a 5 dias.
Varizes pélvicas aparecem na ultrassonografia comum?
Nem sempre. Para detectá-las corretamente, é necessário Doppler pélvico com manobra de Valsalva — a paciente realiza esforço durante o exame, evidenciando o refluxo. O exame deve ser solicitado especificamente com essa técnica.
Varizes pélvicas somem após o parto?
Muitas varizes gestacionais regridem após o parto. As que persistem após 6 meses tendem a ser permanentes e progressivas. Mulheres com dor pélvica crônica persistente após o puerpério devem ser investigadas para síndrome de congestão pélvica.
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⚖️ Aviso Legal: Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui a consulta médica presencial. Resultados podem variar. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada.
✍️ Dr. Luís Antonio Dotta | CRM 65772/SP | RQE 28296 | Especialista em Angiologia, Cirurgia Vascular e Cirurgia Cardiovascular









