Variz no Útero: o que é, sintomas e tratamento da variz uterina
A variz no útero é uma condição muito mais comum do que a maioria das mulheres imagina — e uma das mais subdiagnosticadas. No consultório de cirurgia vascular, recebo com frequência mulheres que carregam anos de dor pélvica crônica, múltiplos exames ginecológicos normais e até laparoscopias sem diagnóstico conclusivo. Quando finalmente o rastreamento vascular identifica a variz no útero e nas veias ovarianas, a explicação para todos aqueles anos de sofrimento finalmente aparece.
A variz no útero — tecnicamente parte da síndrome de congestão pélvica — é uma dilatação das veias uterinas e ovarianas que causa represamento venoso crônico na pelve. É diferente das varizes nas pernas, mas tem o mesmo mecanismo fundamental: válvulas venosas incompetentes que permitem o refluxo e a dilatação progressiva das veias. Neste artigo explico tudo sobre a variz no útero: o que é, por que aparece, quais são os sintomas, como é diagnosticada e quais são as opções de tratamento.
O que é Variz no Útero
A variz no útero é a dilatação das veias uterinas — os vasos que drenam o sangue do útero para as veias ovarianas e ilíacas, e daí para a circulação central. Quando as válvulas dessas veias falham, o sangue refluiu e se acumula na pelve, causando hipertensão venosa pélvica crônica.
A variz no útero raramente ocorre isolada — geralmente faz parte de um quadro mais amplo de varizes pélvicas que inclui dilatação das veias ovarianas, uterinas, parametriais e às vezes das veias ilíacas. O conjunto desses achados em uma mulher com dor pélvica crônica recebe o nome de síndrome de congestão pélvica.
Por que a Variz no Útero Aparece
Gravidez e Multiparidade
A gravidez é o maior fator de risco para a variz no útero. Durante a gestação, o volume sanguíneo aumenta 50%, os hormônios (especialmente a progesterona) relaxam as paredes das veias, e o útero em crescimento comprime as veias ilíacas. Esse conjunto de fatores favorece a dilatação das veias uterinas e ovarianas. Cada gravidez aumenta o risco de desenvolvimento ou piora da variz no útero — mulheres com três ou mais gestações têm risco muito maior.
Insuficiência das Veias Ovarianas
A causa mais frequente da variz no útero é a incompetência das veias ovarianas — especialmente a esquerda. Quando as válvulas da veia ovariana falham, o sangue refluiu de cima para baixo, enchendo as veias pélvicas de forma retrógrada. A veia ovariana esquerda desemboca na veia renal esquerda em ângulo reto — uma anatomia mais desfavorável ao fluxo que a direita, que drena diretamente para a veia cava. Por isso a variz no útero é mais frequente à esquerda.
Síndrome de May-Thurner e Nutcracker
Causas compressivas anatômicas podem gerar hipertensão venosa que se propaga retrogradamente para as veias uterinas, causando variz no útero:
- Síndrome de May-Thurner: compressão da veia ilíaca esquerda causa hipertensão venosa pélvica que alimenta a variz no útero
- Síndrome de Nutcracker: compressão da veia renal esquerda entre a aorta e a artéria mesentérica superior causa hipertensão na veia ovariana esquerda, levando à variz no útero
Predisposição Genética e Hormonal
Mulheres com histórico familiar de varizes extensas têm maior risco de desenvolver variz no útero. Os hormônios femininos — especialmente o estrogênio — relaxam a musculatura lisa das paredes venosas. Anticoncepcionais com estrogênio podem piorar a variz no útero em mulheres predispostas.
Sintomas da Variz no Útero
Os sintomas da variz no útero são causados pela hipertensão venosa pélvica crônica — o represamento de sangue na pelve que distende as veias uterinas e os tecidos ao redor:
Dor Pélvica Crônica — O Sintoma Central
A dor pélvica crônica é o sintoma mais frequente e mais impactante da variz no útero. Tem características muito específicas que, quando reconhecidas, apontam diretamente para o diagnóstico:
- Piora progressiva ao longo do dia com a posição em pé — o peso do sangue acumulado nas veias pélvicas aumenta com a gravidade
- Melhora clara ao deitar, especialmente com as pernas elevadas — o retorno venoso melhora e a pressão nas veias uterinas cai
- Piora ao ficar sentada por longos períodos
- Dor no baixo ventre — em pressão, peso ou cólica de baixa intensidade, diferente da cólica menstrual clássica
- Duração prolongada — a dor da variz no útero não é episódica como a endometriose — é praticamente diária, variando em intensidade conforme a posição e atividade
Dispareunia — Dor nas Relações Sexuais
A dispareunia — dor durante ou após a relação sexual — é um dos sintomas mais impactantes da variz no útero. A penetração profunda aumenta a pressão sobre as veias pélvicas congestionadas. Muitas mulheres com variz no útero evitam relações sexuais pelo desconforto, com impacto significativo na vida íntima e na autoestima.
Dismenorreia Intensa
A menstruação dolorosa acima do esperado é frequente na variz no útero. A congestão venosa uterina agrava a intensidade das cólicas menstruais. Mulheres com variz no útero frequentemente relatam que a dismenorreia foi o primeiro sintoma percebido, anos antes do diagnóstico.
Varizes Secundárias nas Pernas e Vulva
A variz no útero e as varizes pélvicas frequentemente drenam para os membros inferiores através de conexões venosas pélvicas — veias perineais, glúteas e vulvares. O resultado são varizes na vulva e varizes nas coxas de distribuição atípica (face interna, região perineal). Se você tratou as varizes das pernas e elas voltaram rapidamente, especialmente em distribuição atípica, a variz no útero pode ser a causa não tratada.
Outros Sintomas da Variz no Útero
- Urgência urinária e polaciúria sem infecção — a congestão venosa comprime a bexiga
- Síndrome do intestino irritável — dor abdominal e alteração do hábito intestinal por compressão venosa pélvica
- Dor lombar — especialmente ao final do dia
- Sensação de peso e pressão no baixo ventre
Variz no Útero vs. Endometriose — Como Diferenciar
A variz no útero é frequentemente confundida com endometriose — ambas causam dor pélvica crônica e dispareunia. A diferença clínica mais importante é o padrão postural da dor:
| Característica | Variz no Útero | Endometriose |
|---|---|---|
| Dor pior em pé | ✅ Sim — característico | Não específico |
| Dor melhora ao deitar | ✅ Sim — muito característico | Não específico |
| Piora na menstruação | Piora leve | ✅ Piora intensa — dismenorreia severa |
| Dispareunia | ✅ Presente | ✅ Presente |
| Varizes na vulva/coxas | ✅ Frequente | Não associado |
| Diagnóstico | Doppler pélvico com Valsalva + AngioTC | Laparoscopia + RNM pélvica |
| Tratamento | Embolização pélvica | Cirurgia + hormonal |
O padrão postural — dor que piora progressivamente ao ficar em pé e melhora claramente ao deitar — é o elemento diagnóstico mais específico da variz no útero e da síndrome de congestão pélvica. A endometriose não tem esse padrão.
Diagnóstico da Variz no Útero
Doppler Pélvico com Valsalva — Exame de Triagem
O Doppler pélvico com manobra de Valsalva é o exame de triagem para a variz no útero. Avalia o refluxo venoso nas veias ovarianas durante o esforço abdominal. É fundamental solicitar especificamente “Doppler pélvico com Valsalva para avaliação de insuficiência das veias ovarianas” — o ultrassom pélvico convencional sem essa técnica frequentemente não identifica a variz no útero.
Critérios diagnósticos no Doppler para variz no útero:
- Veia ovariana com diâmetro acima de 5 mm
- Refluxo venoso ao esforço (manobra de Valsalva)
- Veias uterinas dilatadas no paramétrio
- Plexo venoso pélvico dilatado ao redor do útero
Angiotomografia ou AngioRM Pélvica
A angiotomografia ou angioressonância pélvica são indicadas para mapear completamente a extensão da variz no útero, o calibre das veias ovarianas e identificar causas compressivas como May-Thurner ou Nutcracker. São fundamentais para o planejamento da embolização.
Venografia Pélvica Seletiva
O padrão-ouro para diagnóstico e tratamento simultâneo da variz no útero. Cateterismo direto das veias ovarianas com injeção de contraste — confirma o diagnóstico e permite realizar a embolização no mesmo procedimento.
Tratamento da Variz no Útero
Embolização Pélvica — Tratamento de Referência
A embolização endovascular das veias ovarianas é o tratamento de escolha para a variz no útero com síndrome de congestão pélvica. Realizado pelo cirurgião vascular intervencionista:
- Sedação leve — sem anestesia geral
- Punção venosa na virilha ou no pescoço — sem cortes cirúrgicos
- Cateter navegado até as veias ovarianas incompetentes sob visão radioscópica
- Injeção de espirais metálicas (coils) e espuma esclerosante que ocluem as veias que alimentam a variz no útero
- Procedimento dura 60 a 90 minutos
- Alta no mesmo dia ou internação de uma noite
- Retorno às atividades em 3 a 7 dias
- Taxa de melhora da dor pélvica da variz no útero: 70 a 85% dos casos
Tratamento Clínico da Variz no Útero
- Medroxiprogesterona: progestogênio que reduz o calibre das veias pélvicas — alivia sintomas em muitas pacientes com variz no útero por 6 a 12 meses. Não é tratamento definitivo
- Meia-calça de alta compressão: reduz a hipertensão venosa pélvica e nos membros inferiores — especialmente útil para as varizes secundárias da variz no útero
- Venoativos (diosmina + hesperidina): auxiliam no controle dos sintomas de congestão pélvica da variz no útero
- Analgésicos e anti-inflamatórios: controle sintomático da dor — não tratam a causa
Tratamento das Causas Subjacentes
Quando a variz no útero é causada por May-Thurner ou Nutcracker, o tratamento deve incluir a correção da compressão anatômica com stent venoso — além da embolização das veias ovarianas. Tratar apenas a variz no útero sem resolver a causa compressiva resulta em recidiva precoce.
Variz no Útero e Fertilidade
Não há evidência de que a variz no útero cause infertilidade diretamente. A dispareunia e a dor pélvica crônica da variz no útero podem dificultar as relações sexuais e, indiretamente, a concepção. Após a embolização, muitas pacientes relatam melhora significativa da vida íntima. A embolização pélvica não compromete a fertilidade futura — mulheres que engravidaram após o tratamento da variz no útero tiveram gestações normais na grande maioria dos casos.
Variz no Útero na Gravidez
A variz no útero tende a piorar durante a gravidez pela compressão uterina, pelo aumento do volume sanguíneo e pela ação da progesterona. Não representa risco direto ao bebê. Após o parto, os sintomas frequentemente melhoram parcialmente, mas a variz no útero estrutural persiste e tende a piorar com gestações subsequentes. O tratamento definitivo da variz no útero é realizado após o término da amamentação — geralmente 6 a 12 meses após o parto.
Perguntas Frequentes sobre Variz no Útero
O que é variz no útero?
A variz no útero é a dilatação das veias uterinas e ovarianas — geralmente parte de um quadro mais amplo de varizes pélvicas — que causa represamento venoso crônico na pelve. Resulta da insuficiência das válvulas das veias ovarianas, que permitem o refluxo sanguíneo retrógrado. É a causa de até 30% de todos os casos de dor pélvica crônica em mulheres em idade fértil.
Variz no útero tem cura?
A embolização pélvica oferece melhora duradoura em 70 a 85% das pacientes com variz no útero. As veias obliteradas não voltam. Novas varizes podem desenvolver-se se causas subjacentes (May-Thurner, Nutcracker) não forem tratadas, ou com gestações futuras.
Variz no útero aparece no ultrassom comum?
Geralmente não. O ultrassom pélvico convencional sem Doppler e sem manobra de Valsalva frequentemente não identifica a variz no útero. É necessário solicitar especificamente Doppler pélvico com Valsalva para avaliação de insuficiência das veias ovarianas.
Qual médico trata variz no útero?
O cirurgião vascular intervencionista é o especialista principal para a variz no útero — realiza o diagnóstico endovascular e a embolização pélvica. O ginecologista colabora no diagnóstico diferencial com endometriose. O Dr. Luís Dotta atende nas unidades da Lapa, Vila Maria e Santo Amaro em São Paulo.
O convênio cobre o tratamento de variz no útero?
A embolização pélvica para variz no útero com síndrome de congestão pélvica documentada tem cobertura pelos planos regulamentados pela ANS. A documentação adequada — Doppler ou AngioTC com diagnóstico confirmado e relato dos sintomas — é fundamental para a autorização. Os convênios aceitos incluem Iamsp, Hapvida, Bradesco, Ameplan, Cruz Azul e Sagrada Família.
Variz no útero causa sangramento?
A variz no útero pode causar menorragia — menstruação mais abundante — pela congestão venosa uterina que dificulta a hemostasia após o descamamento endometrial. O sangramento espontâneo intenso por ruptura de variz uterina é raro mas pode ocorrer, especialmente durante a gravidez, quando as veias estão muito dilatadas.
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⚖️ Aviso Legal: Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui a consulta médica presencial. Resultados podem variar. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada.
✍️ Dr. Luís Antonio Dotta | CRM 65772/SP | RQE 28296 | Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular | Mais de 30 anos de experiência em São Paulo







