A dor nas pernas é uma das queixas mais comuns que recebo no consultório — e também uma das mais subestimadas. Com mais de 30 anos de cirurgia vascular em São Paulo, aprendi que a maioria das pessoas espera meses, às vezes anos, para buscar avaliação. Atribuem a dor nas pernas ao cansaço do dia, à idade, ao sedentarismo ou ao estresse. Às vezes é mesmo isso. Mas com frequência, por trás de uma dor aparentemente banal, há uma causa vascular que merece atenção — e que, identificada cedo, pode ser tratada com muito mais eficiência.
Este artigo foi escrito para ajudar você a entender o que pode causar dor nas pernas, quais os sinais que diferenciam uma dor simples de uma causa grave, e quando vale a pena procurar um especialista. Como médico que atende diariamente pacientes com dor, queimação, peso e cansaço nas pernas, vou apresentar as informações da forma mais prática e honesta possível.
Por que é tão difícil saber o que causa dor nas pernas
Um equívoco comum que pacientes trazem ao consultório é imaginar que a dor nas pernas tem sempre uma causa óbvia e fácil de identificar. Na realidade, as pernas concentram uma complexidade anatômica enorme: artérias, veias, nervos, músculos, tendões, ossos e articulações — qualquer uma dessas estruturas pode ser fonte de dor. Além disso, doenças sistêmicas como diabetes, hipotireoidismo e anemia também se manifestam com dores nos membros inferiores.
O papel do médico é justamente diferenciar: a dor que você sente é muscular ou vascular? É venosa ou arterial? É neurológica ou articular? Essa distinção muda completamente o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico. Vou explicar as principais causas de dor nas pernas e como cada uma se manifesta na prática clínica.
Principais causas de dor nas pernas
1. Varizes e insuficiência venosa crônica
A causa vascular mais comum de dor nas pernas no consultório de cirurgia vascular. As varizes são veias dilatadas e tortuosas que perderam a capacidade de conduzir o sangue eficientemente de volta ao coração. O sangue se acumula nas pernas, aumenta a pressão venosa e provoca uma série de sintomas que muita gente não associa às varizes:
- Peso e cansaço nas pernas, especialmente ao final do dia
- Queimação e ardência ao longo das veias
- Dor em pontada ou latejante na panturrilha
- Inchaço nas pernas e tornozelos (edema vespertino)
- Câimbras noturnas frequentes
- Sensação de pernas pesadas ao acordar ou após longos períodos em pé
Um detalhe clínico importante: a dor nas pernas por varizes tipicamente piora no calor, após longos períodos em pé ou sentado, e melhora com a elevação das pernas e o uso de meia elástica. Se você reconhece esse padrão, é muito provável que a causa seja venosa.
A insuficiência venosa crônica é o estágio mais avançado dessa condição — quando as varizes não tratadas evoluem para alterações na pele, manchas escuras (dermatite ocre) e, nos casos mais graves, úlceras venosas de difícil cicatrização.
2. Má circulação nas pernas — doença arterial
A dor nas pernas por má circulação arterial tem características bem distintas das varizes. Aqui, o problema é o oposto: as artérias estão estreitadas ou bloqueadas por placas de gordura (aterosclerose), e o sangue oxigenado não chega com suficiência aos músculos e tecidos.
O sintoma clássico é a dor nas pernas ao caminhar — especificamente, dor, peso ou cansaço que aparece após uma distância previsível e melhora completamente com o repouso em poucos minutos. É chamada de claudicação intermitente. A dor geralmente localiza-se na panturrilha, mas pode estar na coxa ou na nádega, dependendo de qual artéria está comprometida.
Nos casos mais graves, a dor nas pernas por doença arterial aparece mesmo em repouso, especialmente à noite, nos pés e tornozelos. É sinal de isquemia crítica — situação de emergência vascular que requer avaliação imediata.
Fatores de risco para doença arterial que causam dor nas pernas: tabagismo, diabetes, hipertensão, colesterol elevado e histórico familiar de doença cardiovascular.
3. Trombose venosa profunda (TVP)
A dor nas pernas por trombose é uma das situações que nunca pode ser ignorada. A TVP ocorre quando um coágulo se forma em uma veia profunda da perna — geralmente na panturrilha ou na coxa — e pode evoluir para embolia pulmonar, uma complicação potencialmente fatal.
Os sinais clássicos de trombose que causam dor nas pernas são: inchaço súbito e assimétrico em uma perna (só a perna afetada incha), dor contínua e progressiva na panturrilha ou coxa, calor e vermelhidão local. Diferente da dor muscular comum, a dor de trombose não melhora com repouso e tende a piorar com o tempo.
A pergunta “fisgada na perna pode ser trombose?” é frequente no consultório. A resposta: uma fisgada isolada, que surge e passa rapidamente, raramente é TVP. O que deve preocupar é a dor contínua associada a inchaço assimétrico em uma perna. Nesse caso, procure avaliação médica no mesmo dia.
4. Queimação e ardência nas pernas — causas neurológicas e vasculares
A sensação de queimação nas pernas, ardência ou quentura é um sintoma que pode ter origem tanto vascular quanto neurológica. Do lado vascular, a insuficiência venosa crônica e a neuropatia diabética são as causas mais comuns. Do lado neurológico, a compressão de nervos na coluna (hérnia de disco, estenose do canal vertebral) pode causar queimação que irradia da região lombar para as pernas — condição chamada radiculopatia ou, popularmente, ciática.
Como diferenciar clinicamente? A queimação vascular é difusa, acomete ambas as pernas simetricamente e piora com posições que dificultam o retorno venoso (em pé por muito tempo, calor, final do dia). A queimação neurológica tende a seguir um trajeto específico de nervo, pode ser unilateral, e frequentemente se associa a formigamento, dormência e dor irradiada a partir da coluna.
5. Dor nas pernas à noite e dores de madrugada
A dor nas pernas à noite e especialmente de madrugada merece atenção especial. Ao longo de anos atendendo pacientes com essa queixa, identifiquei três padrões principais:
Câimbras noturnas: contração muscular súbita e involuntária, geralmente na panturrilha, que dura segundos a minutos e cede com alongamento. Muito associada a varizes, desidratação e desequilíbrio eletrolítico.
Síndrome das pernas inquietas: sensação desconfortável de necessidade de mover as pernas, que piora em repouso e à noite. Não é propriamente dor, mas desconforto intenso que interfere no sono. Pode ter componente vascular (insuficiência venosa) ou ser de origem neurológica ou por deficiência de ferro.
Dor isquêmica em repouso: como mencionado, a dor noturna nos pés e tornozelos que melhora ao pendurá-los para fora da cama é sinal de doença arterial grave. Se isso acontece com você, procure um cirurgião vascular com urgência.
6. Peso e cansaço nas pernas
A sensação de pernas pesadas e cansadas — sem dor intensa, mas com aquele desconforto difuso de quem ficou muito tempo em pé — é o sintoma mais precoce da insuficiência venosa. No consultório, é o que mais demora a ser valorizado, porque “não dói tanto” e as pessoas toleram por anos.
Esse cansaço vascular nas pernas costuma ser bilateral, piora progressivamente ao longo do dia, alivia com elevação das pernas e tende a ser mais intenso no verão e em dias quentes. Se você reconhece esse padrão, um Doppler venoso pode mostrar o grau de comprometimento das válvulas venosas — e o tratamento precoce evita progressão para varizes mais graves e úlceras.
7. Dor na panturrilha — a “batata da perna”
A dor na batata da perna ou panturrilha é uma das localizações mais frequentes nas queixas do consultório. As causas principais incluem:
- Insuficiência venosa / varizes: dor difusa, em queimação ou peso, piora ao longo do dia
- Trombose venosa profunda: dor contínua com inchaço assimétrico — urgência médica
- Doença arterial periférica: dor ao caminhar que cede com repouso (claudicação)
- Ruptura do músculo gastrocnêmio: dor aguda e súbita durante esforço físico, como “facada” na panturrilha
- Tendinite do tendão de Aquiles: dor na parte posterior do tornozelo que se irradia para a panturrilha
- Câimbra muscular: contração súbita, geralmente noturna, que cede com alongamento
A distinção entre essas causas é feita clinicamente pelo padrão de dor, horário, fatores de piora e melhora, e confirmada com exames como Doppler vascular e ultrassonografia.
8. Dor nas pernas na gravidez
A dor nas pernas na gravidez é extremamente comum e tem múltiplas causas simultâneas. O útero em crescimento comprime as veias pélvicas e dificulta o retorno venoso das pernas — o que explica por que varizes surgem ou pioram na gestação. Além disso, o aumento de volume sanguíneo, as alterações hormonais e o ganho de peso sobrecarregam o sistema venoso.
Câimbras nas pernas são especialmente frequentes no segundo e terceiro trimestres, relacionadas a alterações eletrolíticas e compressão de nervos. A dor nas pernas e gravidez também pode ter componente lombar — o peso da barriga altera a postura e comprime nervos que se irradiam para as pernas.
Um alerta importante: a gravidez aumenta significativamente o risco de trombose venosa profunda. Dor com inchaço assimétrico em uma perna durante a gestação exige avaliação médica imediata — não espere para a próxima consulta de pré-natal.
9. Perna gelada — quando o frio é sinal vascular
A sensação de perna gelada por dentro ou pés frios de forma persistente, mesmo em ambiente quente, é um sinal de alerta vascular importante. Diferente do frio passageiro por temperatura ambiente, a perna fria de causa arterial não melhora com meias ou aquecimento — é fria porque o sangue simplesmente não está chegando em quantidade suficiente.
Outros sinais que acompanham a perna fria por causa arterial: palidez ou cianose (arroxeamento) do pé, ausência de pelos no pé e tornozelo, unhas espessas e de crescimento lento, e pulsos fracos ou ausentes. Se você percebe esses sinais, procure um cirurgião vascular — esse conjunto de achados indica doença arterial periférica com necessidade de avaliação urgente.
Dor nas pernas: quando é sinal de algo grave
A maioria das dores nas pernas não é grave. Mas alguns padrões exigem avaliação urgente — e o tempo faz diferença. Procure atendimento médico imediato se você tiver:
- Inchaço súbito e assimétrico em uma perna com dor contínua — suspeita de trombose
- Dor intensa nos pés à noite, que melhora ao pendurá-los para fora da cama — isquemia crítica
- Ferida no pé ou tornozelo que não cicatriza em 2 semanas — pode ser úlcera isquêmica ou venosa
- Pé frio, pálido ou arroxeado de início súbito — embolia arterial aguda
- Dor na panturrilha com falta de ar — suspeita de embolia pulmonar
- Dor nas pernas com febre — pode indicar erisipela, celulite ou infecção vascular
Procure avaliação eletiva — consulta agendada, mas sem demora — se você tiver dor, peso ou cansaço nas pernas frequentes, varizes visíveis com sintomas progressivos, ou histórico de diabetes, tabagismo ou doença cardiovascular com qualquer sintoma nos membros inferiores.
Como o médico avalia a dor nas pernas
Na consulta com o cirurgião vascular, a avaliação da dor nas pernas começa sempre com uma história clínica detalhada. Quando a dor começa? É contínua ou intermitente? Piora com esforço ou em repouso? Melhora com elevação das pernas ou com pendurá-las para baixo? Há inchaço, vermelhidão ou alteração de cor? Esses detalhes guiam o exame físico e a escolha dos exames complementares.
Exame físico vascular
O cirurgião vascular examina a presença e qualidade dos pulsos nas pernas (femoral, poplíteo, tibial posterior e pedioso), a temperatura e coloração dos pés, a presença de varizes visíveis, edema, alterações cutâneas e sinais de má perfusão. Com apenas esse exame, já é possível ter uma hipótese diagnóstica bastante precisa.
Doppler vascular
O Doppler vascular é o exame de imagem mais utilizado na avaliação das dores nas pernas de causa vascular. O Doppler venoso avalia o funcionamento das válvulas venosas e identifica trombose. O Doppler arterial mede o fluxo nas artérias e identifica estenoses e obstruções. É não invasivo, sem radiação e pode ser realizado no próprio consultório.
Índice tornozelo-braquial (ITB)
O ITB é uma medida simples feita com um Doppler portátil que compara a pressão arterial no tornozelo com a pressão no braço. Um resultado abaixo de 0,9 confirma doença arterial periférica como causa de dor nas pernas. É o exame de triagem inicial para má circulação.
Outros exames complementares
Dependendo da suspeita clínica, podem ser solicitados: angiotomografia (para planejamento cirúrgico em doença arterial), ressonância magnética (para suspeita de compressão neurológica), exames de sangue (hemograma, glicemia, função tireoidiana, marcadores inflamatórios) e radiografia das articulações (para suspeita de origem ortopédica).
O que fazer para aliviar a dor nas pernas
Enquanto aguarda a consulta médica ou como complemento ao tratamento prescrito, algumas medidas simples ajudam a aliviar a dor nas pernas de causa venosa:
- Elevar as pernas acima do nível do coração por 15 a 20 minutos, duas a três vezes ao dia — facilita o retorno venoso e reduz o edema
- Usar meia elástica de compressão durante o dia — indicada pelo médico conforme o grau de compressão necessário
- Evitar ficar muito tempo em pé ou sentado sem movimentar as pernas — contrair a panturrilha ativa a “bomba muscular” venosa
- Caminhadas regulares — o exercício é o melhor estimulante do retorno venoso
- Hidratação adequada — desidratação piora câimbras e a viscosidade sanguínea
- Evitar o calor excessivo (banhos quentes, sauna) — dilata as veias e piora os sintomas venosos
Para dor nas pernas de causa arterial, as medidas são diferentes: o programa de caminhada supervisionada é terapêutico (estimula circulação colateral), mas deve ser orientado pelo médico. O mais importante é controlar os fatores de risco: parar de fumar, controlar diabetes, hipertensão e colesterol.
Atenção: remédios para dor nas pernas (anti-inflamatórios, analgésicos) aliviam o sintoma, mas não tratam a causa. O uso prolongado de anti-inflamatórios em pacientes com doença vascular pode inclusive ser contraindicado. Sempre consulte o médico antes de usar medicamentos de forma contínua para dor nas pernas.
Qual médico procurar para dor nas pernas
A resposta depende da suspeita de causa. Para dor nas pernas de causa vascular — varizes, má circulação, trombose, insuficiência venosa — o especialista é o cirurgião vascular e angiologista. Para dor de causa neurológica (ciática, hérnia de disco), o ortopedista ou neurologista. Para dor articular (joelho, quadril), o ortopedista. Para dor relacionada a doenças sistêmicas (anemia, hipotireoidismo, fibromialgia), o clínico geral ou reumatologista.
Na dúvida — e especialmente quando a dor nas pernas é acompanhada de varizes, inchaço, alteração de cor ou histórico de tabagismo e diabetes — o cirurgião vascular é o ponto de partida mais eficiente. É ele quem tem os exames (Doppler, ITB) disponíveis no consultório e consegue fazer uma avaliação completa do sistema vascular dos membros inferiores numa única consulta.
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui, em hipótese alguma, a consulta médica presencial, o diagnóstico ou o tratamento profissional. Cada paciente é único e os resultados de tratamentos podem variar significativamente. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada da sua condição de saúde.
Dr. Luís Antonio Dotta | CRM 65772/SP | RQE 28296 | Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular | Mais de 30 anos de experiência em São Paulo





