A queimação nas pernas — essa sensação de ardência, calor por dentro, pernas ardendo ou pele queimando — é uma das queixas que mais geram dúvida nos pacientes. Com mais de 30 anos de cirurgia vascular em São Paulo, aprendi que a sensação de queimação nas pernas tem causas muito distintas, e confundi-las pode levar a anos de tratamento equivocado.
A pergunta mais frequente que recebo sobre esse sintoma é: “queimação nas pernas o que pode ser?” A resposta depende de um conjunto de detalhes — o padrão, o horário, a localização, os sintomas associados — que só a avaliação médica consegue reunir e interpretar corretamente. Mas neste artigo vou mostrar as causas mais comuns, como diferenciá-las clinicamente e quando a queimação nas pernas é sinal de algo que precisa de atenção imediata.
Queimação nas pernas: por que acontece
A sensação de queimação ou ardência nas pernas pode ter origem em três sistemas diferentes:
- Vascular venoso — acúmulo de sangue nas veias dilatadas, que altera o pH local e gera ardência difusa
- Vascular arterial — privação de oxigênio nos tecidos por obstrução das artérias, gerando ardência por isquemia
- Neurológico — dano ou compressão de nervos que transmitem sinais de dor e temperatura de forma distorcida
Cada uma dessas origens tem características clínicas distintas, responde a tratamentos diferentes e tem gravidade diferente. Identificar qual mecanismo está em jogo é o primeiro passo para o diagnóstico correto da queimação nas pernas.
Principais causas de queimação nas pernas
1. Insuficiência venosa crônica e varizes
A causa vascular mais frequente de queimação nas pernas no consultório. Quando as válvulas das veias das pernas falham, o sangue se acumula nas veias dilatadas. Esse sangue estagnado tem concentração elevada de metabólitos ácidos, que irritam as fibras nervosas da parede vascular e do tecido adjacente — resultando na típica queimação e ardência nas pernas.
O padrão da queimação venosa é muito característico: é difusa, acomete ambas as pernas de forma simétrica, piora progressivamente ao longo do dia — especialmente após longos períodos em pé ou sentado — e melhora com a elevação das pernas e repouso noturno. O calor e o verão pioram os sintomas porque o calor dilata ainda mais as veias já comprometidas.
Outros sintomas da insuficiência venosa que acompanham a queimação nas pernas: inchaço nos tornozelos ao entardecer, peso nas pernas, câimbras noturnas, varizes visíveis e, nos casos mais avançados, manchas escuras na pele dos tornozelos. O Doppler venoso confirma o diagnóstico e avalia a extensão do comprometimento valvular.
2. Doença arterial periférica — queimação por isquemia
A queimação nas pernas por causa arterial tem mecanismo oposto ao da venosa: aqui não é excesso de sangue, mas falta. A aterosclerose estreita as artérias e reduz o fluxo de sangue oxigenado aos músculos e tecidos. Quando o tecido recebe oxigênio insuficiente, entra em sofrimento isquêmico — e a queimação é a manifestação dessa privação.
A ardência nas pernas por doença arterial tem padrão distinto: piora com o esforço (caminhar, subir escadas) e melhora com repouso — padrão de claudicação. Nos casos mais avançados, a queimação nos pés surge em repouso, especialmente à noite, e tem uma característica muito específica: melhora ao pendurá-los para fora da cama, porque a gravidade aumenta ligeiramente o fluxo arterial distal. Esse padrão é sinal de isquemia crítica — urgência vascular que exige avaliação imediata.
Sinais associados à queimação arterial: pernas frias, palidez ou cianose nos pés, ausência de pelos no dorso do pé, unhas espessas e de crescimento lento, pulsos fracos ou ausentes. Presença de tabagismo, diabetes ou hipertensão aumenta muito a probabilidade de causa arterial.
3. Neuropatia diabética
A neuropatia diabética é a causa neurológica mais frequente de queimação nas pernas e pés. O diabetes danifica progressivamente os nervos periféricos — especialmente os de menor calibre, responsáveis pela sensação de temperatura e dor — gerando uma queimação característica: simétrica, iniciando nos pés (“em meia”), com progressão para as pernas, pior à noite e frequentemente acompanhada de formigamento, dormência e hipersensibilidade ao toque.
Um dado clínico importante: a neuropatia diabética avançada pode causar tanto hipersensibilidade dolorosa (qualquer toque dói, inclusive o lençol) quanto anestesia completa — quando o paciente deixa de sentir a queimação porque o nervo foi completamente destruído. Esse segundo cenário é o mais perigoso: sem sentir dor, o paciente não percebe feridas que evoluem para o pé diabético.
4. Compressão de nervo — ciática e radiculopatia
A compressão do nervo ciático por hérnia de disco lombar ou estenose do canal vertebral pode causar queimação que irradia da região lombar para a perna — geralmente unilateral, seguindo o trajeto do nervo (face posterior da coxa, panturrilha, pé). Esse padrão difere da queimação vascular porque segue um dermátomo específico, pode variar com a posição da coluna e frequentemente se associa a dor lombar, dormência e formigamento no trajeto do nervo.
A “ciatalgia” — como é popularmente chamada — pode ser facilmente confundida com queimação vascular em pacientes que não chegam com dor lombar evidente. O Doppler vascular normal e a ressonância magnética da coluna confirmam o diagnóstico neurológico.
5. Tromboflebite superficial
A tromboflebite superficial — inflamação e coágulo em uma veia superficial, geralmente varicosa — causa queimação e ardência localizada ao longo de uma veia visível, acompanhada de vermelhidão, endurecimento em cordão e sensibilidade local intensa. Diferente da queimação difusa da insuficiência venosa, a tromboflebite é localizada e bem delimitada. Requer avaliação médica para descartar extensão para veias profundas — que configuraria TVP.
6. Síndrome das pernas inquietas
A síndrome das pernas inquietas (SPI) causa um desconforto intenso — descrito como queimação, formigamento, “bichinhos andando” ou vontade irresistível de mover as pernas — que piora especificamente em repouso e à noite, melhorando com movimento. Não é exatamente dor, mas o desconforto é tão intenso que interfere gravemente no sono. A SPI pode ter componente vascular (insuficiência venosa) e responde parcialmente ao tratamento das varizes.
7. Eritromelalgia
Condição mais rara, a eritromelalgia causa episódios de queimação intensa nas pernas e pés acompanhada de vermelhidão e calor visível, desencadeados pelo calor, exercício ou posição dependente. O resfriamento alivia os sintomas. É mais frequente em mulheres e pode ser primária (idiopática) ou associada a doenças hematológicas como a policitemia vera. Requer investigação especializada.
8. Medicamentos como causa de queimação
Algumas medicações de uso frequente podem causar ou piorar a queimação nas pernas: estatinas em doses altas causam miopatia com ardência e fraqueza muscular; metformina em uso prolongado pode causar deficiência de vitamina B12, gerando neuropatia com queimação; alguns quimioterápicos causam neuropatia periférica intensa. Se a queimação surgiu após início de nova medicação, comunique ao médico prescritor.
Queimação nas pernas à noite — causas e o que significa
A queimação nas pernas à noite é especialmente frequente no consultório e tem três padrões principais que precisam ser distinguidos:
Padrão venoso noturno: queimação e calor que aparecem ou pioram ao deitar, especialmente após dia longo em pé. Melhora com as pernas levemente elevadas ou após algumas horas de repouso, quando o edema regride. Associada frequentemente a câimbras noturnas em pacientes com varizes.
Padrão neuropático noturno: queimação nos pés que piora à noite, interrompendo o sono, com hipersensibilidade ao toque do lençol. O repouso não traz melhora — pelo contrário, a inatividade piora a percepção da dor neuropática.
Padrão isquêmico noturno: queimação nos pés em repouso que melhora ao pendurá-los para fora da cama ou ao sentar com as pernas para baixo. É o padrão mais grave — indica isquemia crítica dos membros e requer avaliação vascular com urgência.
Queimação nas pernas: quando procurar médico
Procure avaliação urgente se a queimação nas pernas vier acompanhada de:
- Queimação nos pés em repouso que melhora ao pendurá-los — isquemia crítica
- Vermelhidão intensa, calor e endurecimento ao longo de uma veia — tromboflebite ou TVP
- Febre com queimação e vermelhidão difusa na perna — erisipela ou celulite
- Queimação súbita intensa com perna fria, pálida ou arroxeada — embolia arterial aguda
Procure avaliação eletiva (sem demora) se:
- Queimação persistente há mais de 2 semanas sem causa identificada
- Queimação progressiva que interfere no sono
- Queimação associada a varizes visíveis, inchaço ou alterações de pele
- Você é diabético com queimação ou formigamento nos pés — rastreamento de neuropatia e isquemia
Como o cirurgião vascular avalia a queimação nas pernas
No consultório, a avaliação começa pela história clínica detalhada: quando começa, qual o horário de piora, bilateral ou unilateral, se melhora com elevação ou pendência das pernas, fatores de risco (diabetes, tabagismo, varizes). O exame físico inclui avaliação dos pulsos, temperatura dos pés, presença de varizes e alterações cutâneas.
O Doppler vascular é o exame de imagem de primeira linha: o Doppler venoso avalia válvulas e descarta trombose; o Doppler arterial com índice tornozelo-braquial (ITB) avalia a perfusão arterial. Com esses dados, a maioria das causas vasculares de queimação nas pernas é identificada em uma única consulta.
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui, em hipótese alguma, a consulta médica presencial, o diagnóstico ou o tratamento profissional. Cada paciente é único e os resultados de tratamentos podem variar significativamente. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada da sua condição de saúde.
Dr. Luís Antonio Dotta | CRM 65772/SP | RQE 28296 | Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular | Mais de 30 anos de experiência em São Paulo





