Ateromatose Carotídea: o que é, graus, sintomas e tratamento
A ateromatose carotídea é uma das condições vasculares de maior impacto na saúde pública brasileira — e uma das mais silenciosas. Com mais de trinta anos de cirurgia vascular em São Paulo, posso afirmar que a maioria dos pacientes que chegam com ateromatose carotídea significativa nunca tiveram nenhum sintoma antes do diagnóstico. A placa foi encontrada em um Doppler de rotina, em um exame pré-operatório ou após um susto: um episódio de fraqueza passageira ou de perda temporária de visão que durou minutos e que o paciente quase não valorizou.
A ateromatose carotídea é responsável por até 20% de todos os AVCs isquêmicos — a principal causa de incapacidade e a segunda causa de morte no Brasil. Identificar e tratar corretamente a ateromatose carotídea antes que ela cause AVC é o objetivo central. Neste artigo explico o que é a ateromatose carotídea, como ela se desenvolve, os graus de estenose, os sintomas de alerta, como é feito o diagnóstico e quais são as opções de tratamento.
O que é Ateromatose Carotídea
A ateromatose carotídea é o acúmulo progressivo de placas ateroscleróticas — compostas de gordura (lipídeos), cálcio, células inflamatórias e tecido fibroso — na parede interna das artérias carótidas. O termo “ateroma” refere-se à própria placa de aterosclerose; “ateromatose” indica a presença de múltiplas placas ou comprometimento extenso.
A localização preferencial da ateromatose carotídea é a bifurcação carotídea — o ponto onde a artéria carótida comum se divide em carótida interna e externa, no nível da mandíbula. Nesse ponto, o fluxo turbulento favorece a deposição de lipídeos e o desenvolvimento das placas. A carótida interna — que irriga o cérebro — é a artéria de maior interesse clínico na ateromatose carotídea.
Como se Desenvolve a Ateromatose Carotídea
A ateromatose carotídea é um processo inflamatório crônico que começa décadas antes de causar qualquer sintoma:
- Lesão endotelial inicial: a hipertensão, tabagismo e hiperglicemia danificam o endotélio (revestimento interno) da artéria carotídea
- Infiltração lipídica: o LDL oxidado penetra na parede arterial e se acumula — começa a ateromatose carotídea
- Reação inflamatória: macrófagos invadem a parede para “limpar” o LDL, mas acabam formando as “células espumosas” que ampliam a placa
- Placa instável: a placa da ateromatose carotídea desenvolve uma cápsula fibrosa. Se essa cápsula rompe, fragmentos se desprendem e viajam para o cérebro — causa de AVC por êmbolo
- Estenose progressiva: a placa cresce e estreita o lúmen da artéria — a ateromatose carotídea pode causar AVC por redução crítica do fluxo cerebral
Fatores de Risco para Ateromatose Carotídea
- Tabagismo: o fator de risco mais importante e mais modificável para a ateromatose carotídea. Fumantes têm risco 3 vezes maior de estenose carotídea significativa
- Hipertensão arterial: a pressão elevada danifica cronicamente o endotélio — principal motor da ateromatose carotídea
- Diabetes mellitus: a hiperglicemia acelera a aterosclerose em todos os territórios, incluindo as carótidas
- Dislipidemia: LDL elevado é o substrato da placa. O controle do colesterol com estatinas é o tratamento mais eficaz para estabilizar a ateromatose carotídea
- Idade: a prevalência da ateromatose carotídea aumenta significativamente acima dos 60 anos
- Sexo masculino: homens têm maior prevalência de ateromatose carotídea — nas mulheres, o risco aumenta após a menopausa
- Histórico familiar de AVC ou doença cardiovascular precoce
- Doença arterial em outros territórios: quem tem doença arterial periférica ou coronariana tem alta probabilidade de ter ateromatose carotídea concomitante
Ateromatose Carotídea — Graus de Estenose
A ateromatose carotídea é classificada pelo grau de estenose — a percentagem de redução do diâmetro da artéria pela placa:
| Grau de estenose | Classificação | Risco de AVC (2 anos) | Conduta |
|---|---|---|---|
| 0 a 49% | Ateromatose carotídea leve | <2% | Controle clínico: estatina + AAS + controle dos fatores de risco |
| 50 a 69% | Ateromatose carotídea moderada | 2 a 6% | Controle clínico rigoroso + Doppler a cada 6-12 meses |
| 70 a 99% sintomática | Ateromatose carotídea grave sintomática | 13 a 15% | Cirurgia (endarterectomia) ou stent — indicação forte |
| 70 a 99% assintomática | Ateromatose carotídea grave assintomática | ~2% ao ano | Cirurgia seletiva — decisão individualizada |
| Oclusão total | Ateromatose carotídea com oclusão | Baixo ipsilateral | Controle clínico — cirurgia geralmente não indicada |
Ateromatose Carotídea Bilateral
A ateromatose carotídea bilateral — com placas em ambas as carótidas — é frequente, especialmente em pacientes com múltiplos fatores de risco. A doença aterosclerótica é sistêmica e tende a comprometer simultaneamente os dois lados. Na ateromatose carotídea bilateral, o tratamento cirúrgico é geralmente realizado em etapas — primeiro o lado com estenose mais grave ou sintomático, com intervalo de algumas semanas para o lado contralateral.
A ateromatose carotídea bilateral com estenoses graves nos dois lados representa risco cerebrovascular muito elevado — o cérebro depende de ambas as carótidas para sua perfusão adequada.
Sintomas da Ateromatose Carotídea
Ateromatose Carotídea Assintomática
A maioria dos pacientes com ateromatose carotídea — mesmo com estenoses moderadas a graves — não tem nenhum sintoma até que ocorra um AIT ou AVC. A ateromatose carotídea assintomática é detectada por rastreamento em pacientes de risco ou como achado incidental em exames de imagem. Isso torna o rastreamento com Doppler carotídeo fundamental nos grupos de risco.
Sintomas da Ateromatose Carotídea Sintomática
Quando a ateromatose carotídea causa sintomas neurológicos, eles resultam de êmbolos que se desprendem da placa e ocluem artérias cerebrais. Os sintomas são ipsilaterais à artéria afetada:
- Ataque isquêmico transitório (AIT): o sintoma de alerta mais importante da ateromatose carotídea sintomática — fraqueza ou dormência súbita em um hemicorpo, dificuldade de falar ou entender, que resolve completamente em minutos a horas. O AIT é um sinal de emergência — risco de AVC nas 48 horas seguintes de 10 a 15%
- Amaurose fugax: perda transitória de visão em um olho (“cortina caindo”) — êmbolo da ateromatose carotídea que oclude a artéria oftálmica. Sinal clássico e muito específico de doença carotídea
- AVC isquêmico estabelecido: déficit neurológico persistente — hemiplegia, afasia, hemianopsia — que não reverte completamente
- Sopro cervical: o médico ausculta turbulência sobre a artéria carótida — sinal indireto de estenose significativa da ateromatose carotídea
Diagnóstico da Ateromatose Carotídea
Doppler das Artérias Carótidas — Exame Fundamental
O Doppler das artérias carótidas é o exame de primeira escolha para diagnóstico e seguimento da ateromatose carotídea. Identifica e quantifica as placas, mede o grau de estenose, avalia as características da placa (homogênea vs. heterogênea, com ou sem ulceração) e mede a espessura íntima-média (IMT) — marcador precoce de ateromatose carotídea subclínica.
O Doppler carotídeo é indicado para:
- Pacientes com AIT ou AVC — investigação urgente da ateromatose carotídea como fonte
- Sopro cervical ao exame físico
- Rastreamento em pacientes com múltiplos fatores de risco acima de 60 anos
- Pacientes com doença arterial coronariana ou periférica — a ateromatose carotídea é frequente nessa população
- Seguimento de ateromatose carotídea já conhecida
Angiotomografia e Angioressonância das Carótidas
Para planejamento cirúrgico ou quando o Doppler é inconclusivo, a angiotomografia ou angioRM das carótidas oferecem imagem tridimensional detalhada da ateromatose carotídea — morfologia da placa, grau de estenose, extensão da doença e anatomia para a endarterectomia ou stent.
Espessura Íntima-Média (IMT) — Marcador Precoce
A medida da espessura íntima-média carotídea no Doppler é um marcador de ateromatose carotídea subclínica — o espessamento da parede arterial precede a formação da placa visível. IMT acima de 0,9 mm em adultos de meia-idade indica ateromatose carotídea precoce e risco cardiovascular aumentado, mesmo sem estenose detectável.
Tratamento da Ateromatose Carotídea
Tratamento Clínico — Para Toda Ateromatose Carotídea
Todo paciente com ateromatose carotídea — independente do grau — deve receber tratamento clínico agressivo:
- Estatinas de alta intensidade: rosuvastatina ou atorvastatina em doses altas — reduzem o LDL, estabilizam a placa da ateromatose carotídea e reduzem eventos vasculares em 25 a 35%. A meta de LDL para ateromatose carotídea sintomática é abaixo de 55 mg/dL
- Antiagregante plaquetário: AAS 100 mg/dia ou clopidogrel — reduzem a formação de trombos sobre a placa da ateromatose carotídea
- Controle rigoroso da pressão arterial: meta abaixo de 130/80 mmHg
- Cessação do tabagismo: parar de fumar é a medida mais impactante no controle da progressão da ateromatose carotídea
- Controle do diabetes
- Modificação do estilo de vida: dieta mediterrânea, exercício físico regular
Endarterectomia Carotídea — Cirurgia da Ateromatose Carotídea
A endarterectomia carotídea é a cirurgia de retirada da placa de aterosclerose de dentro da artéria carótida. É o tratamento cirúrgico padrão da ateromatose carotídea significativa:
- Incisão lateral no pescoço para acessar a artéria carótida
- Clampeamento temporário da artéria — com shunt para manter fluxo cerebral durante a ateromatose carotídea ser removida
- Abertura longitudinal da artéria e remoção da placa em monobloco
- Fechamento com patch de veia ou material sintético — reduz o risco de reestenose após a correção da ateromatose carotídea
- Anestesia geral ou locoregional
- Internação de 1 a 2 dias
- Risco de AVC perioperatório de 1 a 3% em centros experientes
A endarterectomia carotídea para ateromatose carotídea sintomática acima de 70% reduz o risco de AVC em 65 a 70% em relação ao tratamento clínico isolado — um dos resultados mais consistentes em toda a cirurgia vascular.
Stent Carotídeo — Alternativa Endovascular
O stent carotídeo é a alternativa minimamente invasiva à endarterectomia para a ateromatose carotídea — um cateter com balão e stent dilata e mantém aberta a artéria estenótica sem corte cirúrgico no pescoço. Indicado especialmente quando:
- A anatomia cirúrgica é desfavorável — ateromatose carotídea em posição alta, pescoço irradiado, reestenose após endarterectomia
- O risco cirúrgico cardiovascular é elevado — insuficiência cardíaca, angina instável
- O paciente recusa cirurgia aberta
O stent carotídeo é realizado com proteção cerebral — dispositivo que captura os microêmbolos liberados durante a dilatação da ateromatose carotídea, reduzindo o risco de AVC perioperatório.
Ateromatose Carotídea e Risco Cardiovascular Global
A ateromatose carotídea não é um problema isolado do pescoço — é manifestação da aterosclerose sistêmica. Pacientes com ateromatose carotídea significativa têm:
- Alta probabilidade de doença arterial coronariana concomitante — o infarto é a principal causa de morte em pacientes com ateromatose carotídea
- Risco elevado de doença arterial periférica — claudicação intermitente e isquemia dos membros
- Necessidade de avaliação cardiovascular completa — não apenas carotídea
O cirurgião vascular que diagnostica e trata a ateromatose carotídea frequentemente encaminha o paciente ao cardiologista para investigação coronariana concomitante — especialmente antes de qualquer procedimento cirúrgico.
Perguntas Frequentes sobre Ateromatose Carotídea
O que é ateromatose carotídea?
A ateromatose carotídea é o acúmulo de placas de gordura e cálcio na parede das artérias carótidas — as artérias do pescoço que irrigam o cérebro. É responsável por até 20% de todos os AVCs isquêmicos e uma das condições vasculares de maior impacto na saúde.
Ateromatose carotídea bilateral tem cura?
Não tem cura no sentido de reverter completamente as placas. Com tratamento clínico rigoroso — estatinas, antiagregante, controle da pressão e cessação do tabagismo — a progressão pode ser retardada e as placas estabilizadas. Nos casos com estenose grave, a cirurgia ou stent eliminam a obstrução, mas o tratamento clínico permanece obrigatório.
Qual o perigo da ateromatose carotídea?
O principal perigo é o AVC isquêmico — causado por êmbolos da placa ou trombose sobre ela. A ateromatose carotídea sintomática com estenose acima de 70% tem risco de AVC de 13 a 15% em 2 anos sem tratamento adequado. Pacientes com AIT por ateromatose carotídea têm risco de AVC de 10 a 15% nas 48 horas seguintes.
Qual médico trata ateromatose carotídea?
O cirurgião vascular realiza o Doppler carotídeo, indica e realiza a endarterectomia e o stent carotídeo. O neurologista colabora nos casos com AVC ou AIT. O Dr. Luís Dotta atende nas unidades da Lapa, Vila Maria e Santo Amaro em São Paulo.
Ateromatose carotídea precisa de cirurgia?
Depende do grau e dos sintomas. Abaixo de 50%: controle clínico. Entre 50 e 70%: controle rigoroso com Doppler periódico. Acima de 70% sintomática (AIT ou AVC): cirurgia ou stent fortemente indicados. Acima de 70% assintomática: decisão individualizada conforme o risco cirúrgico e a expectativa de vida do paciente.
Avalie sua Ateromatose Carotídea com Especialista Vascular
Doppler carotídeo + avaliação vascular completa. Convênios ou particular. Três unidades em São Paulo:
🏥 Lapa — Zona Oeste
🏥 Vila Maria — Zona Norte
🏥 Santo Amaro — Zona Sul
Veja Mais
⚖️ Aviso Legal: Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Em caso de sintomas de AVC (fraqueza súbita, dificuldade de falar, perda de visão), ligue 192 imediatamente. Resultados podem variar. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada.
✍️ Dr. Luís Antonio Dotta | CRM 65772/SP | RQE 28296 | Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular | Mais de 30 anos de experiência em São Paulo





