Pereba nas Pernas: O Que É, Causas e Tratamento
“Pereba” é um termo popular bastante usado no Brasil para descrever diferentes tipos de lesões na pele das pernas — pode ser uma crosta que se forma após um machucado, uma ferida que não cicatrizou direito, ou mesmo uma lesão crônica associada a problemas circulatórios. Em muitos casos, o que as pessoas chamam de “pereba na perna” é, na verdade, o resultado visível de uma condição vascular subjacente que precisa ser identificada e tratada.
Neste artigo vou explicar o que pode ser chamado de “pereba” nas pernas do ponto de vista médico, quais as causas mais comuns, quando uma lesão na perna merece avaliação vascular e o que o tratamento envolve.
O que é uma “pereba”?

Do ponto de vista clínico, o termo popular “pereba” geralmente se refere a uma crosta, escara ou lesão superficial da pele. Pode ser:
- A crosta que se forma naturalmente sobre uma ferida em cicatrização (crosta de fibrina)
- Uma lesão crônica que teima em não cicatrizar completamente
- Uma área de pele espessada, ressecada e descamativa que parece uma “casca”
- O resíduo de uma ferida mais profunda que cicatrizou de forma incompleta
Na linguagem médica, dependendo das características específicas, pode corresponder a uma crosta, escara, erosão, úlcera superficial, dermatite ou outras lesões elementares da pele. A localização na perna — especialmente no terço inferior e ao redor do tornozelo — imediatamente levanta a hipótese de causa vascular, já que essa é a região onde a insuficiência venosa crônica se manifesta com mais frequência.
Causas mais comuns de pereba nas pernas
Trauma e lesões superficiais

A causa mais simples e frequente: um machucado, arranhão, queda ou pancada que resulta numa ferida que, ao cicatrizar, forma uma crosta (pereba). Em pessoas sem problema circulatório, essa crosta se forma normalmente e cai sozinha em dias a semanas, deixando a pele cicatrizada por baixo.
O problema começa quando essa crosta demora mais do que o esperado para cair, recidiva no mesmo local, ou quando a ferida por baixo não está cicatrizando adequadamente — sinais que podem indicar comprometimento circulatório subjacente.
Insuficiência venosa crônica
A insuficiência venosa crônica é a causa vascular mais frequente de lesões persistentes nas pernas. Quando as válvulas das veias falham e o sangue acumula, a pressão elevada nas veias compromete progressivamente a pele ao redor do tornozelo — que fica mais frágil, mais escura (dermatite ocre) e mais propensa a se lesar com qualquer trauma mínimo.
Nesses pacientes, o que começa como uma pequena “pereba” após um machucado banal pode evoluir para uma úlcera venosa que demora meses a cicatrizar — simplesmente porque a causa de base (a hipertensão venosa) nunca foi corrigida. A ferida fecha temporariamente, mas reabre facilmente ao menor trauma.
Quando a causa vascular é a insuficiência venosa crônica, o tratamento correto passa por identificar exatamente qual veia está com refluxo através do Doppler, e então decidir a técnica mais adequada para corrigi-la — desde compressão elástica para casos mais leves até laser endovenoso para casos que exigem correção definitiva da causa.
Dermatite de estase (eczema venoso)
A dermatite de estase é uma inflamação da pele causada pelo acúmulo de sangue nas veias (estase venosa). Causa vermelhidão, coceira intensa, descamação e ressecamento da pele ao redor do tornozelo. A coceira leva ao ato de coçar, que traumatiza a pele já fragilizada e forma lesões (perebas) que sangram e formam crostas repetidamente. É um ciclo vicioso: a dermatite fragiliza a pele, a coceira cria feridas, as feridas formam crostas, as crostas coçam e assim por diante.
Dermatite ocre
A dermatite ocre é o depósito de pigmento de hemossiderina (ferro proveniente do sangue extravasado) na pele ao redor do tornozelo, causando manchas escurecidas e endurecimento da pele. Nessa pele endurecida e pouco elástica, qualquer trauma — mesmo mínimo — pode resultar em lesões difíceis de cicatrizar, que as pessoas descrevem como “perebas que nunca saem”.
A dermatite ocre é particularmente relevante nesse contexto porque a pele pigmentada e fragilizada por depósito de hemossiderina cicatriza mais lentamente que a pele saudável — uma lesão traumática simples nessa área específica tem maior chance de evoluir para uma lesão persistente do que a mesma lesão em pele sem essa alteração prévia, reforçando a importância do tratamento precoce da insuficiência venosa antes que a pigmentação se instale de forma extensa.
Doença arterial periférica
Quando a circulação arterial para as extremidades está comprometida, a pele dos pés e tornozelos fica mal nutrida. Qualquer pequena lesão — uma bolha de sapato, uma cutícula mal cortada, um caroço de meião — pode se tornar uma ferida difícil de cicatrizar por falta de fluxo sanguíneo adequado. Essas lesões têm aspecto seco, com bordas bem definidas, e são frequentemente muito dolorosas — diferente das lesões venosas, que costumam ser pouco dolorosas.
Quando a causa é doença arterial periférica, a investigação inclui o Índice Tornozelo-Braço (ITB) e, se necessário, exames de imagem mais detalhados para mapear a extensão da obstrução arterial — informação essencial antes de qualquer decisão sobre revascularização, já que tratar a lesão de pele isoladamente, sem melhorar o fluxo sanguíneo arterial, raramente resulta em cicatrização completa e duradoura.
Diabetes e pé diabético
No diabético, a combinação de neuropatia (que elimina a dor de aviso) e doença arterial periférica (que reduz o fluxo) cria o cenário perfeito para lesões que evoluem sem que a pessoa perceba. O que começa como uma pequena “pereba” na planta do pé — muitas vezes sob uma calosidade — pode se aprofundar rapidamente até atingir tendões e ossos. Por isso, qualquer lesão nas pernas e pés de diabéticos deve ser avaliada com urgência.
No pé diabético, a combinação de neuropatia e comprometimento circulatório torna qualquer lesão, por menor que pareça, uma prioridade de investigação imediata — diabéticos devem inspecionar os pés diariamente e buscar avaliação médica ao primeiro sinal de qualquer lesão que não cicatrize rapidamente, já que o risco de complicações graves, incluindo amputação em casos extremos não tratados, é real e bem documentado na literatura médica.
Erisipela e infecções de pele
A erisipela — infecção bacteriana da pele — pode deixar como sequela áreas de pele com alteração de pigmentação e textura. Em pessoas com insuficiência venosa ou linfedema, episódios repetidos de erisipela danificam progressivamente a pele, tornando-a mais propensa a novas lesões e “perebas” que não cicatrizam.
A erisipela, quando não tratada adequadamente com antibiótico apropriado, pode deixar sequelas de pele que persistem por meses após a resolução da infecção aguda — reforçando a importância de completar todo o ciclo de tratamento prescrito, mesmo quando os sintomas mais evidentes já melhoraram nos primeiros dias.
Lipodermatoesclerose
É o endurecimento e fibrose da pele e do tecido subcutâneo ao redor do tornozelo, causado pela insuficiência venosa crônica de longa data. A pele fica muito espessa, dura, retraída e escurecida — dando à perna um aspecto de “garrafa invertida”. Nessa pele fibrótica, lesões demoram muito a cicatrizar e as “perebas” persistem por muito tempo.
A lipodermatoesclerose, quando associada a lesoes persistentes, costuma indicar um estagio mais avancado da doenca venosa dentro da classificacao CEAP — nesses casos, o tratamento integrado da pele e da causa venosa de base, conduzido por equipe especializada, costuma trazer os melhores resultados a longo prazo.
Quando a pereba nas pernas é um sinal de alerta vascular
Alguns padrões devem levar à busca de avaliação médica vascular:
- Lesão que não cicatriza em mais de 4 semanas com cuidados básicos
- Lesão que reabre no mesmo local repetidamente, mesmo após aparente cicatrização
- Pele ao redor com escurecimento (cor de café com leite a marrom escuro) ou endurecimento
- Inchaço persistente na perna afetada, especialmente se piora ao longo do dia
- Varizes visíveis na mesma perna onde aparecem as lesões
- Ferida nos pés em pessoa diabética — qualquer ferida, por menor que seja
- Lesão muito dolorosa, especialmente se a perna fica fria e o pulso no pé é fraco
- Ferida com secreção, mau odor ou vermelhidão em expansão ao redor — sinais de infecção
O que NÃO fazer com uma pereba na perna
Alguns hábitos comuns podem piorar o quadro:
- Arrancar a crosta: a crosta (pereba) protege o tecido em cicatrização por baixo — arrancá-la traumatiza o leito da ferida e atrasa a cicatrização
- Usar álcool ou água oxigenada: são irritantes para o tecido de cicatrização e atrasam o processo
- Automedicar com pomadas antibióticas sem indicação: o uso indiscriminado pode levar à resistência bacteriana
- Ignorar sinais de infecção: vermelhidão que se expande, febre ou secreção purulenta exigem avaliação médica
- Usar ataduras apertadas sem orientação: compressão inadequada pode piorar a circulação arterial
Cuidados básicos com lesões superficiais nas pernas
Para lesões superficiais sem sinais de alerta, alguns cuidados gerais são adequados enquanto se aguarda a cicatrização:
- Lavar com água e sabão neutro
- Cobrir com curativo simples não aderente (não usa gaze seca diretamente sobre a ferida)
- Manter a área limpa e protegida de novos traumas
- Elevar a perna para reduzir o inchaço quando presente
- Hidratação da pele ao redor com creme adequado (evitando aplicar dentro da ferida)
Diagnóstico vascular das lesões persistentes
Quando a lesão não segue o curso esperado de cicatrização, a avaliação médica inclui:
- Exame clínico detalhado: características da lesão, pele ao redor, pulsos, presença de varizes e sinais de insuficiência venosa
- Doppler venoso: identifica insuficiência venosa e refluxo como causa
- Doppler arterial e ITB: avalia circulação arterial e descarta isquemia como fator complicador
- Avaliação glicêmica: rastreamento de diabetes em casos suspeitos
- Cultura de secreção: quando há sinais de infecção
Tratamento: vai além do curativo
O tratamento da “pereba que não sai” depende fundamentalmente da causa identificada:
- Insuficiência venosa: compressão elástica adequada + curativo apropriado + tratamento da veia com refluxo (escleroterapia, laser, cirurgia)
- Doença arterial periférica: avaliação de revascularização, proteção das extremidades, controle dos fatores de risco
- Diabetes: controle glicêmico, alívio de pressão (palmilhas, calçados), avaliação vascular
- Dermatite de estase: corticoides tópicos de baixa potência por tempo limitado + compressão + tratamento da causa venosa
- Lipodermatoesclerose: compressão intensa + tratamento da insuficiência venosa de base
O ponto central é sempre o mesmo: identificar e tratar a causa de fundo. Mudar o curativo sem tratar a causa é como tentar secar o chão com o torneira aberta.
Quando a causa da lesão persistente é confirmada como vascular pelo Doppler venoso, o tratamento da veia com refluxo — muitas vezes através de escleroterapia ou outras técnicas modernas — costuma acelerar significativamente a cicatrização em comparação ao tratamento isolado da lesão com curativos, já que corrige a causa da hipertensão venosa que mantém a pele fragilizada naquela região.
Lesão na perna que não cicatriza? Avalie a circulação em SP
O Dr. Luís Dotta (CRM 65772/SP – RQE 28296) avalia lesões vasculares nas pernas com Doppler e trata a causa de base em três unidades em São Paulo:
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Perguntas Frequentes
O que é pereba na perna?
É um termo popular para crosta, lesão superficial ou ferida que se forma nas pernas após um trauma ou como manifestação de uma condição de pele ou vascular. Pode ser benigna e transitória, ou indicar um problema circulatório subjacente.
Pereba que não sai pode ser problema de circulação?
Sim — especialmente quando aparece ao redor do tornozelo, junto com pele escurecida, inchaço e varizes. Nesses casos, a insuficiência venosa crônica compromete a capacidade da pele de cicatrizar normalmente.
Devo arrancar a pereba da perna?
Não. A crosta protege o tecido em cicatrização por baixo. Arrancá-la traumatiza o leito da ferida e atrasa a cicatrização — e pode introduzir infecção.
Qual médico trata pereba na perna que não cicatriza?
Quando há suspeita de causa vascular, o cirurgião vascular é o especialista indicado. O dermatologista avalia causas dermatológicas primárias. Em diabéticos, a equipe multidisciplinar (vascular, endocrinologista, podologista) é o ideal.
Pereba na perna de diabético é grave?
Merece atenção imediata. Diabéticos têm menor capacidade de cicatrização e maior risco de infecção. Qualquer lesão nos pés e pernas de diabéticos deve ser avaliada com urgência para evitar progressão para infecção grave ou amputação.
Álcool resolve pereba na perna?
Não — álcool é irritante para o tecido de cicatrização e pode retardar o processo. O ideal é lavagem com água e sabão neutro e cobertura com curativo não aderente.
Pereba na perna com pus é emergência?
Secreção purulenta, vermelhidão que se expande ao redor da lesão e febre são sinais de infecção que merecem avaliação médica com urgência — e podem requerer antibiótico e curativo especializado.
Pereba na perna pode virar úlcera?
Sim, especialmente em pessoas com insuficiência venosa crônica. O que começa como uma pequena lesão superficial pode evoluir para uma úlcera venosa crônica se a causa circulatória não for tratada.
Como evitar perebas nas pernas?
Proteger as pernas de traumas, hidratar a pele regularmente, usar calçados adequados, tratar varizes quando presentes e controlar o diabetes são as principais medidas preventivas.
Pereba na perna perto do tornozelo tem causa vascular?
Frequentemente sim. O tornozelo é a região onde a pressão venosa é mais alta e onde a insuficiência venosa se manifesta com mais intensidade. Qualquer lesão persistente nessa região merece avaliação vascular.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui a consulta médica presencial. Cada paciente é único. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada da sua condição de saúde.
Dr. Luís Antonio Dotta — CRM-SP 65772 / RQE 28296. Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular.
Por Que Algumas Perebas Não Cicatrizam no Tempo Esperado
Uma dúvida frequente é entender por que uma “pereba” aparentemente simples, que deveria cicatrizar em poucos dias, às vezes se arrasta por semanas ou meses sem melhorar — situação que costuma levar o paciente ao consultório vascular após diversas tentativas caseiras sem sucesso.
O sinal de alerta mais importante: tempo de cicatrização
Uma lesão superficial simples, sem comprometimento vascular, costuma cicatrizar completamente em 7 a 14 dias. Quando uma “pereba” persiste além de 3 semanas sem sinais claros de melhora, isso já é motivo suficiente para suspeitar de uma causa subjacente — geralmente vascular — impedindo a cicatrização normal, e não simplesmente “falta de cuidado” ou “azar”, como muitos pacientes inicialmente acreditam.
Por que a localização perto do tornozelo é tão significativa
Lesões que não cicatrizam especificamente na região do tornozelo — sobretudo na face interna — merecem atenção redobrada, já que essa é justamente a área de maior pressão venosa nas pernas, onde a insuficiência venosa crônica mais comumente se manifesta com alterações de pele e dificuldade de cicatrização. Uma “pereba” nessa localização específica, que não cicatriza no tempo esperado, é um dos sinais mais característicos de comprometimento vascular de base.
Pereba nas Pernas em Crianças: O Que é Diferente
Um contexto especialmente relevante é a “pereba” em crianças — queixa extremamente comum, já que a infância envolve naturalmente mais quedas, arranhões e pequenos traumas nas pernas durante brincadeiras.
Por que crianças têm mais perebas que adultos
A combinação de maior atividade física, menor percepção de risco durante brincadeiras e pele mais fina e sensível explica por que crianças acumulam significativamente mais pequenas lesões nas pernas do que adultos. Na esmagadora maioria dos casos, essas lesões são traumáticas simples, sem qualquer relação com problemas vasculares, e cicatrizam normalmente com cuidados básicos.
Quando a pereba infantil merece atenção redobrada
Diferente de adultos, em crianças a preocupação com causa vascular é rara — o foco maior deve estar em sinais de infecção secundária, já que crianças tendem a coçar e manipular feridas com mais frequência que adultos, aumentando o risco de contaminação. Vermelhidão que se espalha, calor local, secreção purulenta ou febre são sinais que, em crianças, justificam avaliação médica sem demora.
Cuidados específicos para lesões infantis
Manter a lesão limpa, evitar que a criança manipule ou coce a área, e usar curativos que dificultem o contato direto ajudam a prevenir complicações. Para crianças muito ativas, curativos mais resistentes à água e ao atrito costumam ser necessários, já que os cuidados tradicionais de manter a área seca podem ser mais difíceis de manter na rotina infantil.
Quando a Pereba Persistente Merece Investigação Além da Causa Vascular
Um receio comum entre pacientes com “pereba” persistente que já tentaram diversos tratamentos caseiros sem sucesso é a preocupação com câncer de pele — uma possibilidade real, embora estatisticamente muito menos comum do que as causas vasculares e traumáticas já discutidas.
Quando a lesão persistente merece investigação dermatológica
Alguns sinais de alerta direcionam a investigação para além da causa vascular, sugerindo avaliação dermatológica: bordas irregulares ou que crescem de forma assimétrica, mudança de cor ou textura da lesão ao longo do tempo, sangramento espontâneo sem trauma associado, e crescimento progressivo apesar dos cuidados adequados. Esses sinais, especialmente em lesões com mais de vários meses de evolução sem explicação vascular ou traumática clara, justificam biópsia para investigação.
A relação entre úlceras crônicas de longa data e transformação maligna
Embora rara, a chamada úlcera de Marjolin — transformação maligna de uma úlcera venosa ou lesão crônica de muitos anos de evolução — é uma possibilidade real em feridas extremamente antigas, geralmente com mais de 10 a 20 anos de evolução sem cicatrização completa. É mais um motivo pelo qual lesões persistentes nas pernas nunca devem ser simplesmente “convividas” indefinidamente sem investigação e tratamento adequados da causa de base.
Por que a maioria dos casos não é motivo de pânico
Vale colocar essa possibilidade em perspectiva: a esmagadora maioria das “perebas” persistentes tem causa vascular, traumática ou infecciosa — benigna e tratável. A preocupação com malignidade não deve gerar pânico, mas sim reforçar a importância de buscar avaliação médica adequada em vez de tentar resolver indefinidamente com remédios caseiros uma lesão que não está evoluindo como esperado.
Produtos Caseiros que Podem Atrapalhar a Cicatrização
Um erro relativamente comum é usar produtos inadequados na tentativa de acelerar a cicatrização de uma “pereba” — muitas vezes com efeito oposto ao pretendido, retardando o processo natural de reparo da pele.
Por que produtos “secantes” nem sempre ajudam
Existe uma crença popular de que manter a ferida “seca” acelera a cicatrização, levando muitas pessoas a evitar qualquer hidratação da área. Na realidade, a ciência da cicatrização de feridas mostra o oposto: um ambiente levemente úmido, não encharcado, favorece a migração celular e acelera o fechamento da ferida em comparação a um ambiente completamente seco, que pode formar uma crosta excessivamente rígida e retardar o processo.
Substâncias caseiras que podem prejudicar a cicatrização
Além do álcool já mencionado, outras substâncias caseiras populares — como água oxigenada em uso prolongado, iodo concentrado, ou pomadas caseiras não testadas — podem ser citotóxicas para as células responsáveis pela cicatrização, quando usadas repetidamente. O uso pontual de água oxigenada para limpeza inicial de um ferimento sujo tem seu papel, mas o uso contínuo e prolongado tende a prejudicar mais do que ajudar.
O que a evidência médica realmente recomenda
Para lesões superficiais simples, a recomendação baseada em evidência é simples: limpeza com soro fisiológico ou água e sabão neutro, manutenção de leve umidade com pomadas cicatrizantes apropriadas quando indicadas, e proteção com curativo adequado — sem necessidade de produtos “milagrosos” ou substâncias agressivas que, na prática, atrasam o processo natural de reparo da pele.
Pereba nas Pernas em Idosos: Por Que a Cicatrização é Mais Lenta
Pacientes idosos merecem atenção especial na discussão sobre perebas nas pernas, já que combinam vários fatores que dificultam tanto a prevenção quanto a cicatrização adequada dessas lesões.
Por que a pele do idoso é mais vulnerável
Com o envelhecimento, a pele perde espessura, elasticidade e vascularização — tornando-se mais frágil e suscetível a lesões mesmo com traumas mínimos, como o simples contato com a quina de um móvel. Somado a isso, a maior prevalência de insuficiência venosa crônica e de doença arterial periférica nessa faixa etária compromete ainda mais a capacidade de cicatrização.
Fatores adicionais que dificultam a cicatrização em idosos
Condições comuns nessa população — diabetes, desnutrição leve, uso de múltiplas medicações que afetam a coagulação ou a imunidade — contribuem para tornar mesmo pequenas lesões mais difíceis de cicatrizar completamente. Isso explica por que uma “pereba” que em um adulto jovem cicatrizaria em uma a duas semanas pode, em um idoso com fatores de risco associados, se arrastar por meses sem o tratamento adequado da causa de base.
Por que a avaliação vascular precoce é ainda mais importante nessa faixa etária
Em pacientes idosos, o limiar para buscar avaliação médica diante de uma lesão persistente deve ser mais baixo do que em pacientes jovens — esperar semanas adicionais “para ver se melhora” tem maior chance de permitir a progressão para complicações mais sérias, incluindo infecção secundária ou evolução para úlcera crônica estabelecida.
Tipos de Curativos: Qual Escolher para Cada Situação
Uma dúvida prática recorrente é sobre a diferença entre os diversos tipos de curativos disponíveis atualmente — já que a variedade de opções em farmácias pode confundir quem busca a melhor solução para uma lesão que não cicatriza como esperado.
Curativos simples versus curativos avançados
Para lesões superficiais simples, curativos convencionais (gaze com adesivo) costumam ser suficientes. Já para lesões que não evoluem bem, ou que produzem secreção significativa, existem curativos avançados — hidrocoloides, espumas absorventes, coberturas com prata para controle de carga bacteriana — que criam um ambiente mais favorável à cicatrização e reduzem a frequência necessária de trocas.
Por que a escolha do curativo deve ser orientada profissionalmente
O curativo ideal depende diretamente da causa da lesão, da quantidade de secreção, e da presença ou ausência de infecção — usar o tipo errado pode, em alguns casos, prejudicar mais do que ajudar. Por isso, para lesões que já demonstraram resistência aos cuidados básicos caseiros, a orientação de um profissional especializado em curativos, muitas vezes trabalhando em conjunto com o cirurgião vascular, faz diferença real na velocidade de cicatrização.
Considerações Finais sobre Pereba nas Pernas
Encerro este artigo com uma reflexão que costumo compartilhar com pacientes que passaram meses tentando resolver uma “pereba” persistente sem sucesso: às vezes, a solução não está em um creme mais forte ou um curativo diferente, mas em investigar e tratar a causa vascular por trás da dificuldade de cicatrização.
Se você tem uma lesão nas pernas que não cicatriza no tempo esperado — especialmente próxima ao tornozelo, ou acompanhada de veias visíveis, inchaço ou alteração de cor da pele — vale muito a pena buscar avaliação com um cirurgião vascular. A investigação com Doppler venoso pode revelar a causa real por trás de meses de frustração, e o tratamento adequado — muitas vezes através de laser endovenoso ou outras técnicas modernas — costuma trazer a resolução definitiva que os cuidados locais isolados não conseguiram proporcionar.
Pereba nas Pernas em Atletas e Praticantes de Esportes
Praticantes de esportes e atletas amadores merecem menção especial, já que costumam acumular lesões traumáticas repetidas nas pernas — arranhões, escoriações e pequenos cortes decorrentes de quedas, contato com equipamentos ou terrenos irregulares durante a prática esportiva.
Por que atletas têm maior exposição a esse tipo de lesão
Esportes de contato, ciclismo, corrida em trilhas e atividades ao ar livre naturalmente aumentam a exposição a pequenos traumas nas pernas. Na maioria dos casos, essas lesões são superficiais e cicatrizam sem complicações, especialmente em atletas jovens e saudáveis, sem fatores de risco vascular associados.
Quando retomar a atividade física após uma lesão
Uma dúvida comum entre atletas é quando é seguro retomar os treinos após uma lesão na perna. Em geral, atividades que não envolvem atrito direto ou contato com a área lesionada podem ser mantidas, mas exercícios que causam sudorese intensa sobre a ferida, ou contato direto com superfícies (como natação em água não tratada ou esportes de contato), costumam ser evitados até a cicatrização completa — o suor e a umidade prolongada podem retardar o processo de reparo.
Sinais de que a lesão precisa de pausa na atividade física
Dor que piora com a movimentação, sinais de infecção, ou lesões em áreas de atrito constante durante a prática esportiva (como a face interna das coxas em corredores) são situações em que pausar temporariamente a atividade favorece uma cicatrização mais rápida e completa, evitando a cronificação da lesão por reexposição constante ao trauma.








