Cirurgião vascular realizando cirurgia de fístula arteriovenosa para hemodiálise

Fístula Arteriovenosa: O Que É, Como Funciona e Cuidados

A fístula arteriovenosa é uma conexão cirúrgica criada entre uma artéria e uma veia, geralmente no braço, para permitir o acesso à hemodiálise em pacientes com doença renal crônica. Ao unir os dois vasos, o sangue arterial passa a fluir com mais força e volume pela veia, que se dilata e engrossa ao longo de algumas semanas — processo chamado de maturação — até ficar pronta para ser puncionada nas sessões de diálise.

No consultório, uma dúvida frequente entre pacientes encaminhados pela nefrologia é: “por que preciso operar antes de precisar da diálise?” A resposta está no tempo de maturação — uma fístula bem planejada e feita com antecedência funciona muito melhor e dura muito mais do que um acesso feito às pressas. Neste guia, você vai entender o que é a fístula arteriovenosa, como é feita a cirurgia, os cuidados diários essenciais, as complicações mais comuns e quando procurar avaliação com o cirurgião vascular.

O que é fístula arteriovenosa — definição clínica

A fístula arteriovenosa (também chamada de FAV) é uma comunicação cirúrgica direta entre uma artéria e uma veia, criada para que o sangue arterial — de fluxo mais forte e pressão mais alta — passe a circular pela veia. Essa mudança faz com que a veia se dilate, engrosse a parede e aumente o fluxo sanguíneo ao longo de algumas semanas, um processo chamado de “maturação” da fístula.

Na prática, a artéria e a veia escolhidas geralmente ficam no antebraço ou no braço não dominante. As localizações mais comuns são o punho (fístula radiocefálica, entre a artéria radial e a veia cefálica) e a região do cotovelo (fístula braquiocefálica ou braquiobasílica, entre a artéria braquial e as veias cefálica ou basílica). A escolha depende da qualidade dos vasos de cada paciente, avaliada previamente por Doppler vascular de mapeamento.

A fístula arteriovenosa é considerada o acesso vascular padrão-ouro para hemodiálise porque, comparada a outras opções, oferece o menor risco de infecção, a maior durabilidade e o melhor fluxo de sangue para o processo de filtragem. Foi descrita pela primeira vez na década de 1960 e, desde então, permanece como a primeira escolha recomendada pelas principais diretrizes de nefrologia e cirurgia vascular no mundo todo.

Por que a artéria e a veia precisam ser conectadas

As veias superficiais do braço, em condições normais, não têm fluxo de sangue suficiente nem paredes resistentes o bastante para suportar as agulhas de grosso calibre usadas na hemodiálise, que precisam retirar e devolver o sangue em volumes elevados a cada sessão. Ao conectar a veia diretamente à artéria, o fluxo sanguíneo que passa por ela aumenta de forma expressiva — de poucos mililitros por minuto para até 600-1.000 ml/min — e a parede da veia se adapta, ficando mais espessa e resistente às punções repetidas.

Para que serve a fístula arteriovenosa

A fístula arteriovenosa serve principalmente para dar acesso vascular à hemodiálise, o tratamento que filtra o sangue de pacientes com insuficiência renal crônica em fase avançada, quando os rins perdem a capacidade de eliminar toxinas e excesso de líquido do organismo. A fístula é o “caminho” pelo qual o sangue sai do corpo, passa pela máquina de diálise para ser filtrado, e retorna ao paciente — geralmente em sessões de 3 a 4 horas, três vezes por semana.

Em situações mais raras, a fístula arteriovenosa também pode ser indicada para outros fins vasculares específicos, como parte de determinadas reconstruções em cirurgia vascular complexa, mas a esmagadora maioria dos casos acompanhados em consultório está relacionada à preparação para diálise.

Por que operar antes de precisar da diálise

Uma dúvida frequente entre pacientes encaminhados pela nefrologia é por que a cirurgia é indicada meses antes do início efetivo da diálise. A resposta está no tempo de maturação: uma fístula recém-criada não pode ser puncionada de imediato, precisa de 6 a 12 semanas (em média) para que a veia se adapte ao novo fluxo e fique espessa o suficiente para suportar as agulhas com segurança. Fazer a cirurgia com antecedência — idealmente quando a função renal já está em declínio, mas antes da diálise se tornar urgente — permite que esse tempo de maturação aconteça sem pressa, reduzindo a necessidade de cateteres temporários.

Quando a fístula é criada apenas no momento em que a diálise já é indispensável, o paciente frequentemente precisa recorrer a um cateter vascular temporário enquanto aguarda a maturação — uma opção associada a mais risco de infecção e trombose do que a fístula madura.

Tipos de fístula arteriovenosa

Existem dois grandes grupos de fístula arteriovenosa, definidos pelo tipo de vaso usado para a conexão: a fístula nativa (ou autóloga), feita com os próprios vasos do paciente, e o enxerto arteriovenoso (ou fístula protética), feito com um tubo sintético quando as veias naturais não têm qualidade suficiente.

Fístula nativa (autóloga)

É a primeira opção sempre que possível, por ter a maior durabilidade e o menor risco de complicações a longo prazo. As localizações mais comuns, da mais distal (preferida) para a mais proximal, são:

  • Fístula radiocefálica (punho): conecta a artéria radial à veia cefálica. É a primeira escolha por preservar vasos mais proximais para eventuais cirurgias futuras.
  • Fístula braquiocefálica (cotovelo): conecta a artéria braquial à veia cefálica, usada quando os vasos do punho não têm calibre adequado.
  • Fístula braquiobasílica: conecta a artéria braquial à veia basílica, que costuma ficar mais profunda e por isso, em muitos casos, precisa ser transposta cirurgicamente para uma posição mais superficial antes de poder ser puncionada.

Enxerto arteriovenoso (fístula protética)

Quando as veias do paciente são finas, calcificadas ou já foram usadas em fístulas anteriores que deixaram de funcionar, o cirurgião vascular pode optar por um enxerto de material sintético (geralmente PTFE) para unir a artéria e a veia. O enxerto amadurece mais rápido — em média 2 a 4 semanas — mas tem maior tendência a infecção e a formar estreitamentos (estenoses) ao longo do tempo, o que exige acompanhamento mais próximo.

A escolha entre fístula nativa e enxerto não é feita de forma aleatória: depende do mapeamento vascular prévio, da qualidade da veia identificada no Doppler, da história de acessos anteriores e das condições clínicas gerais de cada paciente — por isso a avaliação individual com o cirurgião vascular é sempre o ponto de partida.

Fístula, enxerto e cateter — qual a diferença

Existem três tipos de acesso vascular para hemodiálise: a fístula arteriovenosa nativa, o enxerto protético e o cateter venoso central. A diferença principal entre eles está na durabilidade e no risco de infecção — a fístula nativa é a mais duradoura e a mais segura, enquanto o cateter é a opção com maior risco e deve, sempre que possível, ser evitado como solução definitiva.

Tipo de acessoTempo até usoDurabilidade médiaRisco de infecção
Fístula nativa6 a 12 semanasAnos (a mais duradoura)Baixo
Enxerto protético2 a 4 semanas2 a 3 anos, em médiaModerado
Cateter venoso centralUso imediatoSemanas a poucos mesesAlto

O cateter vascular costuma ser usado como solução temporária, em situações de urgência ou enquanto a fístula ainda está em maturação, justamente porque, apesar de permitir o início imediato da diálise, tem maior chance de infecção da corrente sanguínea e de trombose com o passar das semanas.

Por isso, o planejamento ideal — sempre que a evolução da doença renal permite — é operar a fístula com antecedência suficiente para que ela já esteja madura quando a diálise se tornar necessária, evitando ao máximo a passagem por um cateter.

Como é feita a cirurgia da fístula arteriovenosa

A cirurgia da fístula arteriovenosa é feita, na maioria dos casos, com anestesia local ou locorregional (bloqueio do braço), com o paciente acordado ou levemente sedado, e costuma durar entre 45 minutos e 1h30, a depender da complexidade dos vasos.

Avaliação pré-operatória com mapeamento vascular

Antes de indicar o local exato da fístula, o cirurgião vascular solicita um Doppler de mapeamento dos vasos do braço não dominante, avaliando o calibre e a qualidade da artéria e das veias superficiais. Esse exame é decisivo: escolher um vaso fino ou com paredes pouco elásticas aumenta muito o risco de a fístula não maturar corretamente. Também é comum medir a pressão arterial nos dois braços e perguntar sobre uso prévio de cateteres ou punções venosas repetidas, que podem ter comprometido veias específicas.

A técnica cirúrgica

Com o local definido, o cirurgião faz uma pequena incisão sobre a artéria e a veia escolhidas, dissecta os dois vasos com cuidado e realiza a anastomose — a sutura que une artéria e veia, geralmente em formato “latero-lateral” ou “término-lateral”. Ao final, o cirurgião confirma o sucesso imediato da cirurgia ao palpar o frêmito (uma espécie de vibração contínua sobre a veia, sinal de que o sangue arterial já está fluindo por ela) e auscultar o sopro característico com o estetoscópio.

Recuperação imediata

A alta costuma ser no mesmo dia, com orientação para manter o braço elevado nas primeiras 24 a 48 horas, evitar esforço com o membro operado e observar sinais de sangramento, inchaço excessivo ou perda do frêmito. O curativo é simples e o retorno ambulatorial geralmente é agendado para 7 a 14 dias após a cirurgia, para avaliar a cicatrização e o início da maturação.

Maturação da fístula — quanto tempo até poder usar

A maturação da fístula arteriovenosa leva, em média, de 6 a 12 semanas para uma fístula nativa, período em que a veia se adapta ao maior fluxo de sangue, dilata e engrossa a parede até ficar pronta para ser puncionada com segurança nas sessões de hemodiálise. Alguns serviços seguem a chamada “regra dos 6”: aos 6 dias já deve haver frêmito palpável, ao 6ª semana a veia deve ter pelo menos 6 mm de diâmetro e estar a até 6 mm de profundidade da pele.

Exercícios que ajudam na maturação

É comum o cirurgião vascular ou a equipe de enfermagem orientar exercícios simples para estimular o fluxo pela fístula durante a maturação, como apertar uma bolinha de borracha repetidamente com a mão do braço operado, sempre sem dor e sem uso de torniquete apertado. Esses exercícios ajudam a dilatar a veia mais rapidamente, mas não substituem o acompanhamento médico regular.

Como saber se a fístula está madura

O sinal mais confiável de que a fístula está funcionando é o frêmito — uma vibração contínua, semelhante a um “zunido”, que se sente ao tocar levemente a pele sobre a veia. Além da palpação, a equipe de nefrologia costuma solicitar um Doppler de controle antes da primeira punção, para confirmar o calibre da veia e o fluxo de sangue, evitando o uso precoce de uma fístula ainda imatura — o que aumenta o risco de hematoma, infiltração e falência precoce do acesso.

Quando a fístula não atinge a maturação esperada dentro do prazo — o que acontece em uma parcela dos casos, sobretudo em pacientes diabéticos ou com veias de calibre limítrofe — pode ser necessária uma nova avaliação com Doppler para identificar estreitamentos que estejam limitando o fluxo, e eventualmente um procedimento complementar para corrigir o problema antes que a fístula possa ser usada.

Cuidados com a fístula arteriovenosa no dia a dia

Os cuidados com a fístula arteriovenosa incluem proteger o braço operado de traumas, pressão e punções desnecessárias, além de verificar diariamente se o frêmito continua presente. Como a fístula passa a ser o acesso vital para a diálise, pequenos cuidados no cotidiano fazem grande diferença na sua durabilidade.

  • Não aferir pressão arterial no braço da fístula — o manguito pode comprimir e lesionar o vaso; a pressão deve sempre ser medida no braço oposto.
  • Não colher sangue nem tomar injeções nesse braço — qualquer punção fora das agulhas de diálise, feitas por profissional habilitado, pode comprometer a fístula.
  • Evitar carregar peso ou dormir sobre o braço operado — a compressão prolongada pode reduzir o fluxo e favorecer a trombose.
  • Não usar relógios, pulseiras ou roupas apertadas no braço da fístula, especialmente próximo ao local da cirurgia.
  • Checar o frêmito diariamente, tocando levemente a pele sobre a fístula — a ausência da vibração característica é sinal de alerta e deve ser comunicada rapidamente à equipe médica.
  • Manter a higiene da pele sobre a fístula, especialmente antes e depois das sessões de diálise, para reduzir o risco de infecção nos pontos de punção.
  • Fazer compressão leve após a punção, apenas o suficiente para estancar o sangramento, sem apertar a ponto de interromper o fluxo pela fístula.

Uma dúvida comum é se é possível fazer atividades físicas normalmente com a fístula. Exercícios leves a moderados costumam ser liberados após a recuperação completa da cirurgia, mas atividades de impacto direto no braço, musculação pesada com aquele membro ou esportes de contato geralmente exigem conversa prévia com o cirurgião vascular, já que podem aumentar o risco de trauma sobre a fístula.

Complicações da fístula arteriovenosa

As complicações mais frequentes da fístula arteriovenosa são a trombose (obstrução por coágulo), a estenose (estreitamento do vaso), a infecção, o aneurisma ou pseudoaneurisma, e — mais raramente — a síndrome do roubo vascular e o hiperfluxo. Cada uma tem sinais próprios e exige avaliação do cirurgião vascular em tempos diferentes.

Trombose da fístula

É a complicação mais comum e se manifesta pelo desaparecimento súbito do frêmito — a fístula, que antes vibrava, fica “muda” e silenciosa. Assim como pode acontecer em outras partes do corpo com a trombose venosa, a formação de um coágulo dentro da fístula interrompe o fluxo de sangue e exige avaliação em caráter de urgência, muitas vezes com necessidade de desobstrução cirúrgica ou por cateter para tentar salvar o acesso.

Estenose (estreitamento do vaso)

É o estreitamento progressivo de um trecho da veia ou da anastomose, geralmente causado por espessamento excessivo da parede em resposta às punções repetidas. Reduz o fluxo de sangue disponível para a diálise e, se não tratada, é a principal causa que leva à trombose. Pode ser identificada por Doppler de controle antes de evoluir para uma obstrução completa.

Infecção

Mais comum em enxertos protéticos do que em fístulas nativas, se manifesta com vermelhidão, calor, dor e, por vezes, secreção purulenta ao redor dos pontos de punção. Pode evoluir para infecção da corrente sanguínea se não tratada rapidamente, exigindo antibióticos e, em casos graves, remoção do acesso.

Aneurisma e pseudoaneurisma

As punções repetidas no mesmo ponto da fístula, ao longo dos anos, podem enfraquecer a parede do vaso e formar uma dilatação localizada (aneurisma verdadeiro) ou um extravasamento contido de sangue (pseudoaneurisma). Quando pequenos e estáveis, costumam apenas ser acompanhados; quando crescem rapidamente, doem ou a pele sobre eles fica fina e brilhante, o risco de ruptura exige avaliação cirúrgica.

Síndrome do roubo vascular e hiperfluxo

A síndrome do roubo acontece quando a fístula “desvia” sangue arterial que deveria chegar à mão, causando dor, palidez, frio e, em casos mais graves, ferida por falta de irrigação — um quadro de isquemia localizada. Já o hiperfluxo é o oposto: quando a fístula desvia sangue em excesso, podendo sobrecarregar o coração em pacientes já fragilizados. Ambas as situações são incomuns, mas exigem avaliação vascular especializada quando identificadas.

Sinais de alerta — quando procurar avaliação urgente

Os principais sinais de alerta na fístula arteriovenosa são o desaparecimento do frêmito, dor intensa e súbita, inchaço rápido do braço, vermelhidão com febre, sangramento que não para com compressão leve e mão fria ou pálida do lado operado. Qualquer um desses sinais deve ser comunicado imediatamente à equipe de nefrologia ou ao cirurgião vascular, sem esperar a próxima sessão de diálise agendada.

  • Frêmito ausente — sinal mais importante de possível trombose; quanto mais rápido for avaliado, maior a chance de salvar o acesso.
  • Sangramento persistente nos pontos de punção, que não cede após 15-20 minutos de compressão leve.
  • Inchaço importante e súbito do braço, mão ou região próxima à fístula, que pode indicar hematoma ou obstrução do retorno venoso.
  • Sinais de infecção: vermelhidão que se espalha, calor local intenso, secreção ou febre.
  • Mão fria, pálida ou dolorida do lado da fístula, possível sinal de síndrome do roubo vascular.
  • Dor forte e persistente que não melhora com analgesia simples orientada pela equipe médica.

Como a fístula é o acesso vital para a diálise, o tempo entre o início do problema e a avaliação médica é determinante: uma trombose identificada nas primeiras horas tem chance real de ser revertida, enquanto o mesmo quadro, após 24-48 horas, costuma exigir a criação de um novo acesso.

Fístula arteriovenosa dói? O que é normal sentir

É normal sentir um desconforto leve a moderado nos primeiros dias após a cirurgia da fístula arteriovenosa, e uma sensação de picada ou pressão durante as punções de diálise — mas dor intensa, constante ou que piora progressivamente não é esperada e deve ser avaliada.

No pós-operatório imediato, é comum sentir sensibilidade ao toque, um leve latejar e, eventualmente, um hematoma discreto no local da incisão — tudo isso costuma melhorar gradualmente ao longo de 1 a 2 semanas. Já durante as sessões de diálise, a punção com agulhas de grosso calibre causa uma dor rápida, semelhante a uma picada forte, que a maioria dos pacientes relata diminuir com a experiência e com técnicas de rotação dos pontos de punção pela equipe de enfermagem.

Quando a dor não é normal

Dor latejante e progressiva, dor que se espalha para o antebraço ou a mão, dor associada a mão fria ou pálida, ou dor forte que surge de repente em uma fístula que já estava funcionando bem sem incidentes — todos esses padrões fogem do esperado e podem indicar trombose, infecção ou síndrome do roubo vascular, exigindo avaliação do cirurgião vascular o quanto antes.

Fístula arteriovenosa em situações especiais

Diabéticos, idosos e pacientes com veias de calibre fino ou já muito puncionadas anteriormente têm maior dificuldade de maturação da fístula arteriovenosa e exigem planejamento cirúrgico mais cuidadoso — mas isso não impede, na maioria dos casos, que uma fístula funcional seja construída.

Pacientes diabéticos

O diabetes de longa data costuma afetar a qualidade das artérias, deixando-as mais calcificadas e menos elásticas, o que pode dificultar a maturação da fístula. Por isso, o mapeamento vascular prévio é ainda mais importante nesses pacientes, assim como o controle da glicemia no pós-operatório, já que níveis elevados de açúcar no sangue prejudicam a cicatrização e aumentam o risco de infecção.

Pacientes idosos

Com o avançar da idade, as veias tendem a ter paredes mais finas e menos elásticas, o que pode exigir a escolha de localizações diferentes das habituais ou, em alguns casos, o uso de enxerto protético desde o início. Ainda assim, a fístula continua sendo a opção preferencial sempre que os vasos permitem, pela sua maior durabilidade em comparação ao cateter.

Pacientes com veias já comprometidas por acessos anteriores

Quem já passou por internações prolongadas, uso repetido de acessos venosos periféricos ou cateteres, pode ter veias com cicatrizes internas (fibrose) que dificultam a escolha do local ideal para a nova fístula. Nesses casos, o Doppler de mapeamento é ainda mais decisivo, avaliando vaso por vaso até identificar a melhor opção disponível, às vezes em localizações menos habituais, como a região mais alta do braço.

Quando a fístula para de funcionar — trombose e nova cirurgia

Quando a fístula arteriovenosa para de funcionar, geralmente por trombose, a primeira medida é a avaliação de urgência com o cirurgião vascular para tentar recuperar o acesso — por trombectomia cirúrgica ou por técnicas de desobstrução com cateter — antes de considerar a criação de uma nova fístula em outro local.

Nem toda fístula trombosada pode ser salva: a chance de sucesso da desobstrução depende do tempo desde a perda do frêmito (quanto mais rápido, melhor), da causa de base (uma estenose não tratada, por exemplo, tende a repetir a trombose mesmo após a desobstrução) e das condições gerais do vaso. Quando a recuperação não é possível, o cirurgião avalia os vasos restantes do mesmo braço, do braço oposto ou, em último caso, outras localizações, como a perna, para planejar um novo acesso.

Por esse motivo, o acompanhamento vascular regular — mesmo com a fístula funcionando bem — é importante: exames de Doppler periódicos permitem identificar estenoses em fase inicial, antes que evoluam para uma trombose completa, prolongando a vida útil do acesso e reduzindo o número de cirurgias ao longo dos anos de tratamento dialítico.

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Fístula arteriovenosa não é a mesma coisa que variz no braço

A fístula arteriovenosa é diferente de uma variz no braço: a fístula é criada cirurgicamente, de forma proposital, para dar acesso à hemodiálise, enquanto a variz é uma dilatação anormal e não planejada de uma veia, associada a falha nas válvulas que direcionam o sangue de volta ao coração.

Pacientes que já convivem com uma fístula arteriovenosa às vezes notam, com o tempo, veias mais salientes e dilatadas no braço — isso pode ser simplesmente parte da resposta esperada da veia ao maior fluxo de sangue (dilatação fisiológica da fístula), mas também pode, em alguns casos, representar uma dilatação aneurismática que merece avaliação. Já uma variz no braço sem relação com a fístula tem causas e tratamento completamente diferentes, e não compromete o acesso de diálise.

Da mesma forma, uma dor na veia do braço sem relação com a fístula pode ter origem em flebite, trombose superficial ou outras causas vasculares que também merecem avaliação com o cirurgião vascular, ainda que sejam quadros distintos dos problemas específicos do acesso de diálise.

Considerações finais sobre a fístula arteriovenosa

A fístula arteriovenosa continua sendo, décadas após sua criação, o acesso vascular mais seguro e duradouro para quem precisa de hemodiálise. Planejamento cirúrgico bem feito, com mapeamento vascular prévio por Doppler, maturação respeitada sem pressa e cuidados diários simples — evitar pressão, traumas e punções desnecessárias no braço — são os fatores que mais influenciam a durabilidade do acesso ao longo dos anos de tratamento.

Se você foi encaminhado para avaliação de acesso vascular, já convive com uma fístula e notou qualquer sinal de alerta, ou simplesmente tem dúvidas sobre o processo, vale a pena procurar um cirurgião vascular com experiência em acessos para hemodiálise. O acompanhamento regular, mesmo com a fístula funcionando bem, é o que permite identificar problemas em fase inicial — antes que se tornem uma emergência.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui, em hipótese alguma, a consulta médica presencial, o diagnóstico ou o tratamento profissional. Cada paciente é único e os resultados de tratamentos podem variar significativamente. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada da sua condição de saúde.

Dr. Luís Antonio Dotta — CRM-SP 65772 / RQE 28296. Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular.

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Perguntas Frequentes

O que é fístula arteriovenosa?

É uma conexão cirúrgica entre uma artéria e uma veia, geralmente no braço, criada para permitir o acesso à hemodiálise em pacientes com insuficiência renal crônica avançada.

Para que serve a fístula arteriovenosa?

Serve principalmente como via de acesso para a hemodiálise, permitindo retirar o sangue, filtrá-lo na máquina e devolvê-lo ao paciente com segurança e fluxo adequado durante as sessões.

Fístula arteriovenosa dói?

É normal sentir desconforto leve no pós-operatório e uma picada rápida durante as punções de diálise, mas dor intensa, progressiva ou associada a mão fria não é esperada e deve ser avaliada.

Quanto tempo a fístula arteriovenosa demora para maturar?

Uma fístula nativa costuma levar de 6 a 12 semanas para maturar; enxertos protéticos amadurecem mais rápido, em média 2 a 4 semanas, mas a fístula nativa só deve ser puncionada quando confirmada a maturação adequada.

Fístula arteriovenosa pode entupir (trombose)?

Sim, a trombose é a complicação mais comum e se manifesta pelo desaparecimento súbito do frêmito (vibração da fístula); é uma urgência vascular e quanto mais rápido for avaliada, maior a chance de recuperar o acesso.

Posso aferir pressão arterial no braço da fístula?

Não. O manguito pode comprimir e lesionar o vaso; a pressão arterial deve sempre ser medida no braço oposto ao da fístula.

Qual a diferença entre fístula e cateter para hemodiálise?

A fístula é feita com os vasos do próprio paciente (ou enxerto), dura anos e tem menor risco de infecção; o cateter permite uso imediato, mas tem maior risco de infecção e trombose e deve, sempre que possível, ser uma solução temporária.

Fístula arteriovenosa é definitiva ou pode precisar de nova cirurgia?

Uma fístula bem cuidada pode durar muitos anos, mas complicações como trombose ou estenose podem exigir procedimentos de correção ou, eventualmente, a criação de um novo acesso em outro local.

Quais os sinais de que a fístula parou de funcionar?

O principal sinal é o desaparecimento do frêmito (a vibração que normalmente se sente ao tocar a fístula); dor súbita, inchaço rápido e mão fria também são sinais de alerta que exigem avaliação imediata.

Diabético pode fazer fístula arteriovenosa?

Sim, mas o diabetes de longa data pode afetar a qualidade dos vasos e dificultar a maturação, por isso o mapeamento vascular prévio e o controle glicêmico no pós-operatório são ainda mais importantes nesses pacientes.

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