Aterosclerose: O Que É, Sintomas, Causas e Tratamento
Aterosclerose é o acúmulo progressivo de placas de gordura, colesterol e cálcio na parede das artérias, formando as chamadas placas de ateroma que endurecem e estreitam esses vasos ao longo dos anos. É a doença de base por trás da maioria dos infartos, AVCs e problemas de circulação nas pernas — por isso, embora silenciosa na fase inicial, é uma das condições mais importantes da medicina vascular.
Como cirurgião vascular, vejo com frequência pacientes que chegam ao consultório já com uma complicação da aterosclerose — uma dor na perna ao caminhar, uma placa encontrada na carótida em um exame de rotina, um aneurisma de aorta — sem saber que todas essas situações têm a mesma origem comum. Neste guia, explico o que é a aterosclerose, por que ela se forma, quais sintomas pode causar dependendo do território afetado, como é diagnosticada e quais são as opções de tratamento e prevenção disponíveis hoje.
O Que É Aterosclerose
Aterosclerose é o nome técnico dado ao processo crônico de formação de placas de ateroma — depósitos de colesterol, células inflamatórias, cálcio e tecido fibroso — na camada interna das artérias. Com o tempo, essas placas endurecem a parede arterial e podem estreitar o canal por onde o sangue passa, reduzindo o fluxo sanguíneo para os órgãos e tecidos irrigados por aquela artéria.
O termo vem do grego athero (mingau, papa) e sclerosis (endurecimento) — uma descrição bastante literal do que acontece: o interior da placa tem consistência pastosa, rica em gordura, enquanto a cápsula que a recobre endurece progressivamente.
É importante entender que a aterosclerose não é uma doença localizada em um único vaso. Ela é sistêmica: quando há placas em uma artéria, é comum que existam depósitos semelhantes em outros territórios, ainda que em estágios diferentes de evolução. É por isso que um paciente com aterosclerose nas pernas tem risco aumentado de também ter placas nas carótidas ou nas coronárias, e vice-versa.
A progressão costuma ser lenta, ao longo de décadas, começando muitas vezes ainda na juventude com pequenas estrias de gordura na parede arterial. A velocidade com que a placa cresce e se torna sintomática depende diretamente do controle dos fatores de risco, que discuto em detalhe mais adiante neste artigo.
Aterosclerose e Arteriosclerose: Qual a Diferença
Uma dúvida muito frequente no consultório é sobre a diferença entre aterosclerose e arteriosclerose — termos parecidos, mas que não são sinônimos exatos. Arteriosclerose é o termo mais amplo, usado para descrever qualquer processo de endurecimento e perda de elasticidade da parede arterial, independentemente da causa.
Aterosclerose é o tipo mais comum e mais estudado de arteriosclerose: especificamente aquele causado pelo acúmulo de placas de gordura (ateromas) na camada interna do vaso. Existem outros tipos de arteriosclerose menos frequentes, como a arteriolosclerose (que afeta vasos pequenos, comum em hipertensos e diabéticos) e a esclerose de Mönckeberg (calcificação da camada média da artéria, sem formação de placa de gordura).
Na prática clínica e na grande maioria dos contextos, quando alguém pergunta sobre “arteriosclerose”, está se referindo ao mesmo processo que chamamos de aterosclerose — e é assim que trato os dois termos ao longo deste artigo, focando no mecanismo mais relevante e mais comum: a formação de placas ateroscleróticas.
Como a Placa de Aterosclerose se Forma
A formação da placa aterosclerótica começa com uma pequena lesão na camada mais interna da artéria, o endotélio. Fatores como colesterol LDL elevado, hipertensão, tabagismo e glicemia alta agridem repetidamente essa camada, tornando-a mais permeável a partículas de gordura.
O LDL (o chamado “colesterol ruim”) infiltra-se na parede do vaso e sofre um processo de oxidação. O corpo reconhece essas partículas oxidadas como uma ameaça e envia células de defesa — os macrófagos — para “engolir” esse excesso de gordura. Quando saturados, esses macrófagos se transformam nas chamadas células espumosas, que se acumulam e formam o núcleo lipídico da placa.
Ao redor desse núcleo gorduroso, o organismo forma uma cápsula fibrosa, numa tentativa de “isolar” a lesão. Esse processo é acompanhado por inflamação crônica de baixo grau — hoje sabemos que a aterosclerose tem um componente inflamatório tão importante quanto o metabólico. Com os anos, a placa pode crescer lentamente e estreitar a artéria (processo chamado de estenose), ou pode se romper subitamente, expondo seu conteúdo ao sangue e formando um coágulo (trombo) que obstrui o vaso de forma abrupta — mecanismo por trás da maioria dos infartos e de muitos AVCs.
Causas e Fatores de Risco da Aterosclerose
A aterosclerose é uma doença multifatorial — raramente tem uma única causa isolada. Os principais fatores de risco, bem estabelecidos pela literatura médica, são:
- Colesterol elevado (dislipidemia): LDL alto e HDL baixo favorecem diretamente a formação das placas. Veja mais em nosso guia sobre dislipidemia e risco vascular e sobre gordura no sangue.
- Tabagismo: o cigarro lesa diretamente o endotélio e acelera a progressão das placas em todos os territórios arteriais.
- Hipertensão arterial: a pressão elevada agride cronicamente a parede das artérias, facilitando a entrada de gordura.
- Diabetes mellitus: a glicemia cronicamente elevada acelera a aterosclerose e costuma torná-la mais difusa e agressiva.
- Obesidade e sedentarismo: favorecem o conjunto de alterações metabólicas que aceleram o processo.
- Histórico familiar e genética: parentes de primeiro grau com doença cardiovascular precoce aumentam o risco individual.
- Idade e sexo: o risco aumenta com a idade e, antes da menopausa, tende a ser menor em mulheres, equiparando-se depois.
Esses fatores não agem isoladamente — eles se somam. Um paciente hipertenso, fumante e com colesterol alto tem um risco muito maior do que a simples soma dos riscos individuais sugeriria, pois os mecanismos de lesão arterial se potencializam mutuamente.
Sintomas da Aterosclerose: Depende do Território Afetado
Um dos aspectos mais importantes — e mais mal compreendidos — sobre a aterosclerose é que ela costuma ser completamente silenciosa por anos ou décadas. Os sintomas só aparecem quando a placa já reduziu significativamente o fluxo de sangue (geralmente quando a artéria está mais de 50-70% estreitada) ou quando ela se rompe e forma um coágulo.
Os sintomas variam de acordo com qual artéria está mais afetada:
- Coração (artérias coronárias): dor ou aperto no peito (angina), especialmente ao esforço, podendo evoluir para infarto.
- Cérebro (carótidas e vasos cerebrais): tontura, alterações visuais transitórias, fraqueza súbita em um lado do corpo, dificuldade de fala — sinais de AVC ou de ataque isquêmico transitório.
- Pernas (artérias dos membros inferiores): dor tipo cãibra ao caminhar que melhora com o repouso (claudicação intermitente), pés frios, feridas que não cicatrizam.
- Rins (artérias renais): hipertensão de difícil controle.
- Intestino (artérias mesentéricas): dor abdominal após as refeições.
Por essa razão, a aterosclerose costuma ser chamada de “doença silenciosa” — e é exatamente por isso que exames de rastreamento em pacientes de risco (mesmo sem sintomas) são tão valorizados na prevenção cardiovascular.
Aterosclerose nas Pernas: Doença Arterial Periférica
Quando a aterosclerose afeta as artérias que levam sangue às pernas, o quadro é chamado de doença arterial periférica (DAOP). É uma das manifestações mais comuns da aterosclerose sistêmica e, na minha experiência clínica, uma das mais subdiagnosticadas — muitos pacientes atribuem a dor nas pernas ao “cansaço” ou ao envelhecimento normal, sem investigar a causa vascular.
O sintoma clássico é a claudicação intermitente: dor, cansaço ou cãibra na panturrilha (ou coxa e glúteo, dependendo do nível da obstrução) que surge ao caminhar uma determinada distância e melhora com alguns minutos de repouso. Em estágios mais avançados, a dor pode aparecer mesmo em repouso, e a pele pode desenvolver feridas que não cicatrizam ou mudar de coloração.
Para entender melhor esse quadro específico, recomendo a leitura do nosso artigo dedicado à obstrução arterial periférica e sobre dor nas pernas ao caminhar e claudicação. A má circulação nas pernas por isquemia e doença arterial também é abordada em detalhe em outro artigo do blog.
A DAOP é um marcador de risco importante: pacientes com aterosclerose sintomática nas pernas têm risco significativamente maior de infarto e AVC nos anos seguintes, reforçando que a doença precisa ser vista de forma sistêmica, não apenas localizada aos membros.
Aterosclerose nas Carótidas e Risco de AVC
As carótidas são as artérias do pescoço responsáveis por levar sangue ao cérebro, e são um dos locais mais estudados de formação de placas ateroscleróticas — em grande parte porque a bifurcação carotídea (onde a artéria se divide) cria um padrão de fluxo turbulento que favorece o depósito de gordura na parede do vaso.
Uma placa na carótida pode crescer lentamente e estreitar o vaso, ou pode se romper e liberar fragmentos (êmbolos) que viajam até o cérebro e obstruem uma artéria menor — mecanismo responsável por uma parcela significativa dos AVCs isquêmicos. Muitas vezes, a placa é descoberta de forma incidental, num exame de Doppler de carótidas pedido por outro motivo, sem que o paciente tenha qualquer sintoma.
Exploramos esse tema com profundidade nos artigos sobre ateromatose carotídea, placa na carótida e risco de AVC e sobre se uma placa na carótida tem cura e quando operar. Recomendamos a leitura complementar para quem já recebeu esse diagnóstico em exame de imagem.
Aterosclerose na Aorta: Aneurismas e Outras Complicações
A aorta, a maior artéria do corpo, também pode ser afetada pela aterosclerose. Nesse território, além do estreitamento por placas, a doença pode contribuir para a fragilização da parede do vaso e favorecer a formação de aneurismas — dilatações anormais que, se crescerem muito, apresentam risco de ruptura, uma emergência vascular grave.
A aterosclerose da aorta costuma ser silenciosa até ser descoberta em exames de imagem de rotina (ultrassom de abdome, tomografia) feitos por outros motivos. Por isso, homens acima de 65 anos com histórico de tabagismo — o principal grupo de risco para aneurisma de aorta abdominal — costumam ser orientados a fazer rastreamento com ultrassom mesmo sem sintomas.
Para entender melhor a anatomia e as principais doenças desse vaso, veja nossos artigos sobre a aorta e suas principais doenças e sobre aneurisma da aorta: sintomas e quando operar.
Diagnóstico: Como Identificar a Aterosclerose
O diagnóstico da aterosclerose começa pela avaliação clínica: histórico de fatores de risco, exame físico (palpação de pulsos, auscultação de sopros nas artérias) e sintomas relatados pelo paciente. A partir daí, exames complementares ajudam a confirmar e quantificar a doença:
- Exames de sangue: perfil lipídico completo (colesterol total, LDL, HDL, triglicerídeos), glicemia e outros marcadores metabólicos.
- Doppler vascular: exame de imagem não invasivo que avalia o fluxo sanguíneo e identifica placas e estreitamentos em carótidas, artérias das pernas e outros vasos. Veja mais sobre o Doppler vascular e quando fazer.
- Índice tornozelo-braço (ITB): exame simples e rápido que compara a pressão arterial no tornozelo e no braço, sendo muito útil para rastrear doença arterial periférica.
- Angiotomografia e angiorressonância: exames de imagem mais detalhados, usados quando é necessário um mapeamento mais preciso antes de um eventual procedimento.
- Cateterismo/arteriografia: exame invasivo reservado para situações específicas, geralmente já no contexto de um tratamento intervencionista.
Conheça outras opções de exames vasculares em nosso guia sobre tipos de exame vascular.
Tratamento da Aterosclerose
O tratamento da aterosclerose costuma combinar três frentes, que se complementam:
- Mudanças no estilo de vida: parar de fumar (a medida isolada de maior impacto), alimentação com menos gordura saturada e mais fibras, atividade física regular e controle do peso.
- Tratamento medicamentoso: medicações para controlar colesterol (como as estatinas), pressão arterial e glicemia, além de antiagregantes plaquetários em casos selecionados, sempre prescritos e ajustados por um médico conforme o perfil de risco individual.
- Procedimentos intervencionistas: reservados para placas que já causam estreitamento significativo e sintomas relevantes, ou risco elevado de complicação. Incluem angioplastia com colocação de stent (para abrir o vaso estreitado por dentro) e cirurgias de revascularização, como a ponte (bypass), que desvia o fluxo sanguíneo ao redor do segmento obstruído. Veja mais sobre a ponte de safena, recuperação e riscos.
A escolha entre essas abordagens depende de qual artéria está afetada, do grau de estreitamento, dos sintomas e do risco cirúrgico de cada paciente — por isso a avaliação individualizada com um cirurgião vascular é essencial antes de qualquer decisão de tratamento. Para entender melhor quando a cirurgia é indicada, veja nosso artigo sobre cirurgia vascular: tipos e quando é indicada.
Aterosclerose Tem Cura? É Possível Reverter as Placas?
Essa é uma das perguntas mais comuns que recebo no consultório. De forma direta: a aterosclerose não tem cura definitiva no sentido de eliminar completamente as placas já formadas, mas seu avanço pode ser interrompido — e em alguns casos parcialmente revertido — com tratamento adequado e consistente.
Estudos mostram que o controle agressivo do colesterol (especialmente com uso de estatinas em doses adequadas), associado à cessação do tabagismo, controle da pressão arterial e da glicemia, e mudança de estilo de vida, pode estabilizar as placas existentes e, em alguns casos, reduzir discretamente seu volume. Mais importante do que “encolher” a placa, esse controle torna a cápsula fibrosa mais espessa e estável, reduzindo bastante o risco de ela se romper e causar um infarto ou AVC.
Ou seja: o objetivo realista do tratamento não é “zerar” a aterosclerose, e sim controlá-la e estabilizá-la, reduzindo o risco de complicações graves e preservando a qualidade de vida a longo prazo. Resultados podem variar de paciente para paciente, dependendo da extensão da doença e da aderência ao tratamento.
Prevenção da Aterosclerose
Como a aterosclerose começa décadas antes de se tornar sintomática, a prevenção é, sem dúvida, a estratégia mais eficaz — e pode ser iniciada em qualquer idade. As principais medidas recomendadas são:
- Não fumar (ou parar de fumar, se já for tabagista);
- Manter o colesterol e os triglicerídeos dentro das metas recomendadas para o seu perfil de risco;
- Controlar a pressão arterial e a glicemia;
- Praticar atividade física regularmente — a recomendação geral é de pelo menos 150 minutos de atividade moderada por semana;
- Manter alimentação rica em fibras, vegetais e gorduras insaturadas, com redução de gorduras saturadas e ultraprocessados;
- Manter peso adequado;
- Fazer consultas e exames de rotina, especialmente se houver fatores de risco ou histórico familiar.
Também vale a leitura do nosso guia prático sobre como evitar AVC e prevenção vascular na prática, que detalha estratégias aplicáveis ao dia a dia.
Aterosclerose em Diabéticos: Por Que o Risco é Maior
Pacientes diabéticos merecem atenção especial na discussão sobre aterosclerose. A glicemia cronicamente elevada lesa o endotélio de forma mais intensa e acelera a formação de placas, que nesses pacientes tendem a ser mais difusas — afetando artérias maiores e também vasos menores — e a progredir de forma mais silenciosa, já que a neuropatia diabética frequentemente reduz a percepção de dor.
Essa combinação é particularmente perigosa nos pés: a aterosclerose associada à neuropatia é um dos principais motivos pelos quais feridas em pés de diabéticos evoluem mal e, em casos avançados, podem levar à amputação se não forem tratadas a tempo. Recomendamos a leitura do artigo sobre pé diabético, feridas que não cicatrizam e risco vascular para quem tem diabetes e qualquer lesão persistente nos pés ou pernas.
Por esse motivo, diabéticos devem fazer avaliação vascular preventiva regularmente, mesmo sem sintomas, incluindo exame dos pulsos e da sensibilidade dos pés a cada consulta.
Aterosclerose e Hipertensão: Um Ciclo que se Retroalimenta
A relação entre aterosclerose e pressão alta funciona em duas direções. Por um lado, a hipertensão lesa cronicamente a parede das artérias, facilitando a entrada de gordura e acelerando a formação de placas. Por outro, quando a aterosclerose afeta as artérias renais, o rim passa a receber menos sangue e libera hormônios que elevam ainda mais a pressão arterial — um mecanismo específico chamado de hipertensão renovascular.
Esse ciclo explica por que a hipertensão de início súbito, ou que fica difícil de controlar mesmo com várias medicações, em pacientes acima de 50-60 anos, deve levantar a suspeita de estenose de artéria renal por aterosclerose. Esse tema é discutido com mais profundidade em nosso artigo sobre estenose de artéria renal e relação com a pressão alta.
Aterosclerose em Idosos: Particularidades da Faixa Etária
Com o envelhecimento, a prevalência de aterosclerose aumenta de forma natural — é praticamente universal encontrar algum grau de placa arterial em pessoas acima de 70 anos, ainda que em intensidade muito variável. Em idosos, a doença costuma ter apresentação mais atípica: a claudicação intermitente pode ser confundida com dores articulares ou musculares relacionadas à idade, e sintomas de isquemia cerebral transitória podem ser atribuídos erroneamente a “tontura da idade”.
Além disso, idosos frequentemente têm múltiplas comorbidades associadas (hipertensão, diabetes, insuficiência renal), o que torna o manejo da aterosclerose mais complexo e exige uma avaliação individualizada cuidadosa antes de qualquer decisão terapêutica, pesando riscos e benefícios de cada abordagem — do controle clínico rigoroso até, quando necessário, procedimentos de revascularização.
Quando Procurar um Cirurgião Vascular
Recomendo buscar avaliação com um cirurgião vascular ou angiologista nas seguintes situações:
- Dor, cãibra ou cansaço nas pernas ao caminhar, que melhora com o repouso;
- Pés ou pernas frios, pálidos ou com mudança de coloração;
- Feridas nos pés ou pernas que não cicatrizam, especialmente em diabéticos;
- Placa identificada em exame de carótida, aorta ou outra artéria, mesmo sem sintomas;
- Histórico familiar forte de doença cardiovascular precoce;
- Hipertensão de difícil controle;
- Fatores de risco importantes (tabagismo, diabetes, colesterol alto) sem avaliação vascular prévia.
Saiba mais sobre o que faz esse especialista em nosso artigo sobre o médico vascular: o que faz e como é a consulta e sobre quando consultar um angiologista.
Aterosclerose no Intestino: Isquemia Mesentérica
Um território menos conhecido, mas igualmente afetado pela aterosclerose, são as artérias que irrigam o intestino — as artérias mesentéricas. Quando a aterosclerose reduz o fluxo sanguíneo para o intestino, pode surgir a chamada angina mesentérica: dor abdominal que aparece tipicamente após as refeições, quando a demanda de sangue para a digestão aumenta e a artéria estreitada não consegue suprir essa necessidade.
Esse quadro costuma ser confundido com problemas gástricos ou intestinais comuns, retardando o diagnóstico correto. Em casos mais graves e agudos, a obstrução completa de uma artéria mesentérica pode causar um quadro grave chamado isquemia mesentérica aguda, uma emergência médica. Para entender melhor esse tema, veja nosso artigo sobre isquemia mesentérica: sintomas e tratamento.
Mitos Comuns Sobre a Aterosclerose
Alguns equívocos frequentes merecem esclarecimento:
- “Só afeta quem é obeso”: pessoas magras também desenvolvem aterosclerose, especialmente se tiverem colesterol alto, tabagismo ou histórico familiar — o peso é apenas um dos fatores de risco, não o único.
- “Se eu não sinto nada, estou bem”: como vimos, a aterosclerose costuma ser silenciosa por anos antes de causar qualquer sintoma perceptível.
- “É um problema só de pessoas idosas”: o processo pode começar ainda na adolescência ou no início da vida adulta, embora costume se tornar clinicamente relevante décadas depois.
- “Parar de fumar depois de anos não faz mais diferença”: ao contrário, o risco cardiovascular começa a cair já nos primeiros meses após a cessação do tabagismo, mesmo em quem fumou por décadas.
- “Remédio resolve sem mudar hábitos”: a medicação é uma ferramenta importante, mas o controle mais eficaz da aterosclerose sempre combina tratamento medicamentoso com mudança de estilo de vida.
Aterosclerose x Trombose: Entenda a Diferença
Outra confusão comum é entre aterosclerose e trombose. São processos relacionados, mas diferentes: a aterosclerose é o acúmulo progressivo e crônico de placas de gordura na parede da artéria, desenvolvendo-se ao longo de anos. A trombose é a formação aguda de um coágulo de sangue, que pode ocorrer tanto em artérias (geralmente sobre uma placa de aterosclerose que se rompeu) quanto em veias (tipicamente por outros mecanismos, como imobilidade prolongada, cirurgias ou predisposição genética).
Ou seja, na maioria dos infartos e de muitos AVCs, a trombose arterial é a complicação aguda de uma aterosclerose que já existia de forma silenciosa. Já a trombose venosa profunda, comum nas pernas, tem mecanismo distinto e não depende diretamente de placas ateroscleróticas. Entenda melhor a trombose em nosso artigo completo sobre trombose nas pernas: sintomas, diagnóstico e tratamento.
Alimentação e Aterosclerose: O Que Realmente Ajuda
A alimentação é um dos pilares mais acessíveis no controle da aterosclerose, embora costume ser subestimada em relação aos medicamentos. Um padrão alimentar que reduz consistentemente o risco cardiovascular, segundo diversos estudos, é o padrão mediterrâneo: rico em vegetais, frutas, grãos integrais, azeite de oliva, peixes e oleaginosas, com consumo reduzido de carnes processadas, frituras e açúcar refinado.
Alguns pontos práticos merecem destaque: ácidos graxos ômega-3 (presentes em peixes como sardinha e salmão) têm efeito anti-inflamatório e podem ajudar a reduzir triglicerídeos; fibras solúveis (aveia, leguminosas) auxiliam na redução do LDL; e o excesso de sódio contribui para a hipertensão, um dos principais aceleradores da aterosclerose.
Vale reforçar: nenhum alimento isolado “limpa” as artérias ou reverte placas já formadas de forma significativa — o que existe é um padrão alimentar consistente, mantido ao longo do tempo, que ajuda a estabilizar o processo e a reduzir a progressão de novas placas, sempre como parte de um plano terapêutico mais amplo, orientado por um profissional.
Impacto da Aterosclerose na Qualidade de Vida
Além do risco de eventos graves como infarto e AVC, a aterosclerose sintomática tem impacto direto na qualidade de vida cotidiana. A claudicação intermitente, por exemplo, limita progressivamente a distância que a pessoa consegue caminhar sem dor, afetando desde tarefas simples do dia a dia até a prática de exercícios e atividades sociais.
Esse impacto funcional muitas vezes é subestimado pelos próprios pacientes, que vão reduzindo gradualmente suas atividades e se acostumando com uma mobilidade cada vez mais limitada, sem associar isso a uma causa vascular tratável. Um dos aspectos mais gratificantes do tratamento adequado — seja clínico, seja com procedimentos de revascularização quando indicados — é justamente devolver ao paciente a capacidade de caminhar sem dor e retomar atividades que havia abandonado.
Por isso, reforço sempre que dor nas pernas ao caminhar não deve ser vista como “normal da idade”: merece avaliação, porque tem tratamento e porque o diagnóstico precoce da aterosclerose muda a trajetória da doença, tanto na perna quanto no risco cardiovascular geral.
Perguntas Frequentes
O que é aterosclerose?
É o acúmulo progressivo de placas de gordura, colesterol e cálcio na parede das artérias, que podem estreitar o vaso e reduzir o fluxo de sangue para órgãos e tecidos. É a doença de base por trás da maioria dos infartos, AVCs e problemas de circulação nas pernas.
Aterosclerose e arteriosclerose são a mesma coisa?
Não exatamente. Arteriosclerose é o termo mais amplo para o endurecimento das artérias por qualquer causa. Aterosclerose é o tipo mais comum, causado especificamente pelo acúmulo de placas de gordura na parede do vaso.
Quais são os sintomas da aterosclerose?
Costuma ser silenciosa por anos. Quando aparecem, os sintomas dependem do território afetado: dor no peito (coração), tontura ou fraqueza súbita (cérebro), dor nas pernas ao caminhar (membros inferiores) ou dor abdominal após comer (intestino).
Aterosclerose tem cura?
Não existe cura no sentido de eliminar completamente as placas já formadas, mas o avanço pode ser interrompido e, em alguns casos, parcialmente revertido com tratamento adequado e consistente, reduzindo bastante o risco de complicações graves.
Quais os principais fatores de risco para aterosclerose?
Colesterol alto, tabagismo, hipertensão, diabetes, obesidade, sedentarismo, histórico familiar e idade avançada são os fatores de risco mais estabelecidos, e costumam se somar e potencializar uns aos outros.
Aterosclerose nas pernas é grave?
Pode ser. É chamada de doença arterial periférica e costuma causar dor ao caminhar (claudicação). Além do impacto na mobilidade, é um marcador de risco cardiovascular geral aumentado e merece avaliação com cirurgião vascular.
Como é feito o diagnóstico da aterosclerose?
Combina avaliação clínica, exames de sangue (perfil lipídico, glicemia) e exames de imagem como Doppler vascular, índice tornozelo-braço, angiotomografia ou angiorressonância, dependendo do território suspeito.
Qual médico trata aterosclerose?
O cirurgião vascular ou angiologista avalia e trata as manifestações da aterosclerose nas artérias periféricas, carótidas e aorta, frequentemente em conjunto com cardiologista, endocrinologista e clínico geral no controle dos fatores de risco.
Aterosclerose pode ser prevenida?
Sim, em grande parte. Não fumar, controlar colesterol, pressão e glicemia, praticar atividade física regular e manter alimentação equilibrada reduzem significativamente o risco de desenvolver ou acelerar a doença.
Aterosclerose em diabéticos é diferente?
Tende a ser mais difusa e a progredir de forma mais silenciosa, já que a neuropatia diabética reduz a percepção de dor. Por isso diabéticos devem fazer avaliação vascular preventiva regular, mesmo sem sintomas.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui, em hipótese alguma, a consulta médica presencial, o diagnóstico ou o tratamento profissional. Cada paciente é único e os resultados de tratamentos podem variar significativamente. Consulte sempre um médico para avaliação individualizada da sua condição de saúde.
Dr. Luís Antonio Dotta — CRM-SP 65772 / RQE 28296. Especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular.
Suspeita de aterosclerose ou já recebeu esse diagnóstico em exame?
O Dr. Luís Dotta (CRM 65772/SP – RQE 28296) atende em três unidades em São Paulo:
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